Coração quase branco

por cam

É no que dá um iogurte estragado: náusea repentina, vómitos disfarçados de arrotos, cólicas intestinais. Sanita comigo. E logo logo para a cama – a prevenir achaques maiores com a ajuda de uma infusão de macela e cidreira.
Aproveito a frouxidão inesperada do corpo e o repouso de meio da tarde para ler. Entre compras e ofertas recentes, decido-me pelo “Coração Quase Branco”, do António Cabrita – livro da 50 Kg (como habitualmente composta em caracteres móveis e com impressão a condizer), que o seu editor, o poeta Rui Azevedo Ribeiro, me tinha dado em Coimbra, no Mal Dito, meia dúzia de dias antes.
Cabrita Coração quase brancoComeço a leitura meio distraído, a dor de cabeça, fininha, chateia. Mas, entre o ir e o voltar à primeira linha do texto, entro no “tom” do Cabrita – e desperto completamente quando leio “Dácio”, Ricarte Dácio, o intelectual culto, homem subtil e afável, delicado, gentleman, mecenas das literaturas e das artes, o mesmo Dácio que um certo dia (há uns seis anos?) pegou numa caçadeira e matou a mulher, o filho, o gato e a ele próprio.
Conheci o Ricarte Dácio nas noites do café Monte Carlo, do bar Bolero, do Ritz Club, do Cantinho dos Artistas no Parque Mayer, nos finais de tarde do café Expresso e das Galegas; nos dias fervorosos da Revolução e nos dias apaziguantes e lassos da democracia pós 25 de Novembro. Em 2010, quando estive em Maputo, a figura do Dácio e a sua morte incompreensível, e tão silenciada, meteu-se na conversa entre mim e o Cabrita, que teve com ele uma relação mais próxima.
Para além das circunstâncias de natureza pessoal, o curto texto – 12 páginas – é uma peça de uma grande inteligência e sensibilidade, na linha de um Pacheco da “Comunidade” ou de um Virgílio Martinho de “O Relógio de Cuco”. O Cabrita cruza a história de vida do Ricarte Dácio com a sua (em Maputo), “cobarde e falido de esperança e qualidades” e dá, a uma e a outra, as voltas necessárias para que entre os actos literários e os actos de vida se teça uma poderosa e inextricável teia de sentidos. E se ele, Cabrita, “falido, causticado e doente”, “tivesse à mão uma caçadeira e um punhado de munições (…) e acabasse esta agonia com três tiros, alguém se lembraria de duvidar que pudesse ter sido um gesto tão hediondo? Alguém, ao menos, colocaria dúvidas? Será que as merecia? Porque não há modo de suportar ‘corajosamente e sem dor’ a decadência mental que nos vela já o cadáver, a puta que os pariu. É um contra-senso, e vale o esforço de respirar para o cheiro a trampa?”
A minha alma débil (os meus intestinos, parece, partilham da mesma índole) arrebita com uma escrita como esta – e com a atitude pessoal do Cabrita: pegar a coisa pelos cornos é que dá tusa, e não essas coisas vagamente literárias de filhos de tordos que voam, serôdios, para as terras brasis, e a respectiva democracia que apenas existe nos ditos média e redes sociais. Literatura e democracia que nunca hão-de saber quem foi o Ricarte Dácio e tudo o que ele representou, mesmo que o Cabrita lhes mande aos cornos, com toda a força, este “Coração Quase Branco”.
Morre-se disto, desta democracia estragada. De iogurte estragado, parece que não.

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