Archive for ‘MOÇAMBIQUE’

16/08/2013

Entrevista dada a António Rodrigues (Ípsilon)

por cam

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Ípsilon, Sexta-Feira 16 de Agosto de 2013.

 

 

 

 

16/08/2013

Ípsilon: crítica a Hipopótamos

por cam

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Ípsilon, Sexta-Feira 16 de Agosto de 2013.

 

 

07/07/2011

ÍNDICAS, JORNADA 14

por cam

Certas noites em Maputo, em alguns bares e discotecas, são “noites de talho”: as catorzinhas vão lá vender os seus corpos. Dizem-nos que vão em grandes quantidades. Porque há muitas miúdas que precisam do dinheiro por que trocam os seus corpos, porque há, obviamente, muitos que precisam desses corpos e estão dispostos a pagar por eles. Os seus “clientes” são figuras locais respeitáveis (enfim…), ou turistas em busca do sexo juvenil e negro. Parece um negócio. E é. Merca-se carne, viva, quente. E com outros predicados que valorizam a mercadoria. É assim, desculpem mas é assim. 

Mesmo durante o dia, à entrada dos liceus, muitas destas catorzinhas deitam o olhar convidativo aos brancos que passam com dinheiro nos bolsos. Fora de Maputo, veremos mais tarde que a fome é mais exigente e por isso os corpos destas meninas se vendem por qualquer coisa que lhes mitigue a fome.

Logo após a independência, os frelos atacaram violentamente a prostituição (negra e branca), em nome de uma moral dita revolucionária. Agora, são os mesmos frelos, ou os seus descendentes, mais “conscientes do mercado”, que deixam este “mercado” florescer, comem a parte rica, vomitam a parte pobre. E outros, muitos, fecham os olhos. E as bocas. É triste perceber até onde pode ir uma revolução.

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19/06/2011

ESTOU VIVO, MAIS OU MENOS

por cam

Para os meus 10 seguidores diários (que talvez sejam menos, há uns azarados que à procura de outra coisa qualquer vêm parar a esta costa):

– Não, não estou em Moçambique; estive, entre Agosto e Outubro de 2010; as Índicas escrevem-se agora, em maturação enviesada pelo tempo;

– Recupero de leituras: d’A Montanha Mágica do Mann, do Fausto do Goethe (e da versão/tradução do Nerval). Tenho outros pesos pesados em fila de espera. Ando às voltas com o terceiro romance (vai com 100 páginas), enquanto os outros dois dão voltas e voltas desassossegadas nas noites insones dos editores.

Acabei de ver na SIC a segunda parte do José e Pilar do Miguel Gonçalves Mendes e fiquei sem palavras adequadas.

Dito isto: andarei daqui arredado. Não tenho o talento de outros tenazes e brilhantes escritores/bloguistas. Deverei pedir desculpa?

02/06/2011

ÍNDICAS, JORNADA 13

por cam

A cidade acumula histórias – ou não fosse ela cidade. Algumas delas são bem visíveis (os seus sinais), outras assomam timidamente, outras ainda fecham-se em casulos de medo, vergonha ou cobardia.

Na avenida Samora Machel, perto da estátua daquele que lhe empresta o nome (e outras coisas, supostamente, mas apenas supostamente), glória ao Pai da Revolução, em rocha erguida, do homem-mito, há outro homem, mais perto da nossa realidade, que come lixo de um monte dele a céu aberto.

Perto do hotel Rovuma:

– Olá, vocês são marido e mulher?

– Sim.  

– Podiam adoptar-me e levar-me para Portugal.

– Podíamos…

– Iam ver que não se arrependiam!

Garotinha, adolescente, ninfeta nabokoviana, junto de outras duas, tímidas, em aprendizagem da sedução.

Por volta das 18 horas uma tristeza maior invade a cidade – é a hora da multidão de vendedores de rua regressarem às suas casas, muitas delas só de nome, em chapas apinhados, em direcção aos subúrbios, ao caniço. Ainda tentam uma última transacção, ou apenas mendigam, às vezes mentem quando dizem que têm fome, mas é só às vezes.

Pela mesma hora, agitam-se os rapazes dos tchopelas, negoceiam mais uma corrida, 100 paus, se regateares vai para 80 ou 70.

A escuridão pronta esconde ainda mais as histórias da cidade, desta cidade cimento, porque elas se desdobram com outro fulgor no caniço.  

O trabalho daquele que escreve começa aqui.

Final do quinto dia em Maputo. A vozinha descrente debica ao ouvido: “nem contar os dias te compõe”.

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27/05/2011

ÍNDICAS, JORNADA 12

por cam

Os contrastes em Maputo também são visíveis nos comportamentos. Temos sido espectadores ou agentes de dezenas de “variantes”. Ontem, por exemplo, ainda antes de voltarmos de tchopela para casa, entrámos numa loja de venda de refrigerantes e de pão, na Karl Marx. Para pagar o meu refrigerante, de 11,5 meticais, entreguei ao empregado, sem reparar, uma nota de 500, em vez de uma de 50 – a Sara diz-me baixinho “deste 500 meticais” – e eu, olhando para as notas na minha mão, apercebei-me disso, mas já o empregado me devolvia o troco, correcto, dos 500 meticais entregues. Logo a seguir, coloquei-me no último lugar de uma fila com 4 ou 5 pessoas, para comprar pão. Quando chegou a minha vez, chegaram consecutivamente outras 3 ou 4 pessoas, naturais do país. Despudoradamente, tomaram a minha vez, sem água vai, e o empregado nem se dignava olhar-me, só quando já não havia mais ninguém para atender, se decidiu, com modos enfastiados, atender o meu pedido de pão.

Hoje de manhã, resolvemos caminhar para a Baixa por um caminho diferente, que apenas tínhamos feito no sentido inverso, de tchopela. A via chama-se Patrice Lumumba, e vai da Polana, junto ao liceu Josina Machel, até se cruzar com a Lenine, antes de continuar como rua da Rádio. São umas largas centenas de metros, não sei se não chegará a um quilómetro, com muitas curvas, em contraste com a cidade rectilínea. Os passeios aqui são mais estreitos do que em muitas outras vias da cidade, e estão repletos de pedaços de troncos e ramagens de árvores, impossibilitando a passagem dos pedestres, que se arriscam ao atropelamento por viaturas meio desgovernadas que vêm no sentido contrário ao nosso. Comentámos: mesmo que a Câmara e o Governo não possam ou não queiram arranjar os passeios – onde não há restos de árvores há buracos e lajetas partidas –, cada rico ou enriquecido que aqui vive e tem casa, carro caro, guarda armado e filhos nos colégios privados, pagos em dólares, ou nas universidades portuguesas e americanas, poderia gastar uns trocos na limpeza da rua, contribuindo para o bem-estar e a saúde de todos, ao mesmo tempo que proporcionariam algum trabalho remunerado aos seus compatriotas. Ou em nome da Revolução que os fez enriquecer, sei lá!

Somos estranhos aqui, por um lado a trabalhar, por outro a ver as coisas como qualquer turista. Mas não podemos esquecer-nos de que somos portugueses, para o bem e para o mal estivemos e estamos ligados a esta terra, a estas pessoas. Eu não estive na guerra colonial e, na medida das minhas possibilidades, fui solidário para com os países que desejavam libertar-se do jugo colonial. Hoje, apetece dizer, com o José Mário Branco, “Houve aqui alguém que se enganou”. Em Portugal, também.

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26/05/2011

MOÇAMBICANISMOS: BREVE GLOSSÁRIO

por cam

Araújo, rua: Araújo é o nome do primeiro Governador de Lourenço Marques, em 1781. Começou por se chamar dos Mercadores. Rua dos casinos, dancings, jogo, álcool e sexo que teve o seu auge, frenético nos anos 20 e 30 do século XX, mas que nos 70 ainda vivia sob a aura desse passado glorioso. Hoje chama-se Bagamoyo, a localidade da Tanzânia onde a FRELIMO teve campo de treino e escola antes da independência. Artérias, nomes de: nomes de ruas ou avenidas como Mão Tsé Tung, Lenine, Nyerere, Mondlane, etc, são a renomeação no pós Revolução de antigos nomes do tempo colonial.

Avenida, Teatro: antigo teatro colonial, situado na avenida 25 de Setembro, na baixa de Maputo, hoje sede de uma das mais prestigiadas companhias do teatro moçambicano, o Mutumbela Gogo.

Bacela: presente, dádiva, mimo que se dá em determinadas ocasiões e que excede o pagamento de serviços prestado ou do produto adquirido; gorjeta; o mesmo que saguate.

Bageri: cereal de Diu (Panicum spicato).

Baneane: 1. comerciante hindu das costas africanas do Índico; 2. por extensão, comerciante indiano.

Bangaçal: local de armazenamento de mantimentos.

Batik ou batike: O batik é uma arte milenar de origem controversa onde o desenho é feito com cera quente e colorido com tinta. A técnica base consiste no tingimento após a impermeabilização de certas partes da tela (seda pura, algodão e couro). As áreas recobertas com cera ficam impermeabilizadas e não retém o tingimento. Com a ajuda da cera e banhos sucessivos de tinta, os tons são sobrepostos. Maputo está “invadida” por vendedores de batik (“verdadeiros” e “falsos”). 

Biznar: vender, negociar (do inglês business).

Boss: sobretudo como vocativo patrão, tratamento usado sobretudo por vendedores para os potenciais clientes, principalmente se forem brancos, turistas.

Botle de raque: garrafa de urraca, aguardente. O botle, palavra inglesa, era uma medida mercantil para medidas, também corrente nos documentos portugueses da época (século XVIII).

Brada: termo de empréstimo (inglês brother); forma de tratamento carinhosa e informal; irmão, amigo, pessoa muito próxima.

Cabritismo – o cabrito come onde está amarrado: uso depreciativo, significa que um funcionário (ou dirigente) no seu local de trabalho se beneficia ilicitamente de bens ou favores; boísmo (de boys).

Cacimba: neblina, nevoeiro.

Cafre, cafreal: Hist. 1. designação genérica dos povos nativos da África Austral; relacionado com estes povos 2. (sobretudo no séc. XX) Muito ofensivo, com conotações fortemente racistas, negro, em geral; bárbaro, rude, selvagem (do árabe kafir, “infiel”). Se usado em culinária, frango à cafreal, não tem conotações negativas.

Caniço: parte periférica da cidade em que predominam as construções de materiais precários (por oposição a cimento), bairro (de bairro de caniço).

Capulana: pano muito colorido e com diversos motivos, de forma rectangular, de algodão, usado principalmente como saia ou para levar os bebés às costas (mulheres); os homens podem usar calças confeccionadas com tecido de capulana.

Caril: molho feito com várias especiarias, no português de Moçambique é utilizado para designar qualquer tipo de molho.

Castanha: semente do cajueiro, Anacardium occidentale, (castanha de) caju.

Catembe: península que fica diante de Maputo, do outro lado a Baía.

Catorzinha: rapariga muito jovem (entre os 12 e os 14 anos) que se entrega à prostituição.

Changana: uma língua bantu, da família Tswa-Ronga, muito falada no Sul de Moçambique.

Chapa: transporte colectivo, semi-formal (de chapa: preço único, de cem meticais, no início; agora, com a valorização do metical, o preço varia entre 5 e 15 meticais em Maputo); nos últimos anos, apesar de muitas das viaturas serem decrépitas, há uma tendência para modernizar as frotas de carrinhas de 9 lugares (embora seja norma transportarem de uma só vez mais 20 pessoas); por extensão, qualquer automóvel que transporte pessoas a troco de algum dinheiro, ou o preço cobrado.

Chibalo, xibalo: tem origem no século XIX, após o fim oficial da escravatura (1842). Durante décadas, no século XX, consistiu em recrutamento compulsivo de trabalhadores para o trabalho em obras públicas, dentro e fora do território moçambicano, com remunerações irrisórias e sob condições indignas.

Cimento: parte central de uma cidade, muitas vezes correspondente à cidade colonial, que tem só edifícios de tipo europeu, por oposição a caniço ou bairros (“ele agora está a morar no cimento”).

Cinzentinho: polícia de giro da PRM – Polícia da República de Moçambique (da cor do uniforme).

Continental, café: célebre café-restaurante do tempo colonial, na avenida 25 de Setembro, na baixa de Maputo. Actualmente, o credo religioso dos novos proprietários proíbe o consumo de álcool.

Delagoa Bay: Baía da Lagoa, internacionalmente conhecida, pelo menos até ao início dos anos 1920, pela expressão inglesa Delagoa Bay. O nome Baía da Lagoa, nasceu da crença [errónea] dos portugueses de que os rios Manhiça ou o do Espírito Santo, derivavam, juntamente com o Nilo, de um grande lago do interior.

Empoderamento: reforço do poder real (social, económico, político) de um grupo ou sector de população (de poder, segundo o modelo do inglês empowerment).

Estamos juntos: expressão popular moçambicana que funciona como cumprimento final quando dois amigos se encontram casualmente.

Fecalismo: nas expressões “fecalismo a céu aberto” ou “fecalismo público” – acto de defecar a céu aberto; defecação.

Flat [flete]: apartamento (palavra inglesa).

Fô by fô: jipe com tracção às 4 rodas (for by for).

Frelo: termo usado para designar alguém que é membro ou simpatizante de FRELIMO, por vezes pejorativamente.

Ilha, ou Ilha de Moçambique: cidade insular situada na província de Nampula, na região norte de Moçambique, que deu o nome ao país do qual foi a primeira capital. Devido à sua rica história e património arquitectónico, considerada pela UNESCO, em 1991 Património Mundial da Humanidade. Está ligada ao continente por uma ponte com cerca de 3 km de comprimento. Primeiro entreposto onde aportou Vasco da Gama. Durante muito tempo julgou localizar-se aí a famosa Ilha dos Amores, do Canto Nono dos Lusíadas, de Luís de Camões.

Inhaca: ilha sensivelmente a 30 quilómetros de Maputo.

Karingana wa karingana: termo que serve de intróito a narrações. O poeta José Craveirinha utiliza a expressão, que é equivalente a “era uma vez”, e que indica que o que se segue é uma estória, um conto ou uma fábula. A karingana wa karingana responde-se karingana, como forma de aceitação (sim, era uma vez).

Laurentina: cerveja moçambicana. Laurentino é o termo que designava os naturais de Lourenço Marques, actualmente Maputo. O nome colonial mantém-se.

Maca: problema, confusão, briga, disputa, milando.

Machamba: terreno de cultivo, normalmente do sector familiar, de subsistência.

Madgermanes: ex-emigrantes na antiga RDA, que se viram forçados a regressar a Moçambique após a queda do Muro de Berlim, em 1989 (do inglês german).

Mainato: empregado doméstico que tem como tarefa principal lavar e passar a roupa a ferro. Origem colonial.

Mamã: O termo é a designação que se dá à primeira dama ou esposa de um chefe em sinal de afecto e respeito. Passou a ser mais usado a partir do momento em que o termo camarada começou a cair em desuso. Por vezes é usado como equivalente de mamana, forma de tratamento respeitoso. Eu creio que esta “definição de dicionário” não é totalmente correcta, pois me pareceu em diversas ocasiões que o mamã é usado como equivalente feminino de patrão ou boss, termos com que os moçambicanos tratam os homens brancos – ou pretos ricos, próximos do poder. V. Mamana.

Mamana: mulher adulta, casada ou viúva, servindo o termo como forma de tratamento respeitoso (mas inferior a mamã), usado com frequência para tratar tanto a senhora doméstica como a vendedeira de mercado.

Maningue: muito (“estava lá maningue malta”, “estavam lá maningues pessoas”, etc.).

Marrabenta: ritmo/dança praticada no Sul de Moçambique em que tomam parte homens e mulheres, formando roda com pares marcados e independentes: Provavelmente originada a partir da majikha, a marrabenta que se praticou muito, em particular, nos subúrbios de Lourenço Marques, adquiriu um ritmo mais veloz e passou a ser dançada com gestos mais elaborados e estilizados. Vulgarizou-se, talvez erradamente, como “a” música típica de Moçambique.

Massala: fruto da massaleira. Fruto de casaca dura e de forma esférica, comestível, de onde se pode confeccionar bebida; a sua casaca, depois de seca, serve vários fins, como instrumentos musicais

Massaleira: tipo de árvore, Strychnos spinosa.

MCell e giros: MCell: rede de telefones móveis de Moçambique. Giro: pequeno cartão, que se raspa para revelar um código numérico que depois de se introduz no aparelho. São vendidos por toda a cidade a e todas as horas nas ruas e em todos os locais públicos. A Vodacom, outra rede, tem um sistema idêntico.

Metical: unidade monetária de Moçambique (em Agosto de 2010, o câmbio era aproximadamente de 1€=47,5 Meticais).

Milando: problema, imbróglio, confusão, briga, disputa, maca. No século XVIII (W. Bolts), a expressão “um homem milando”, ou simplesmente “um milando” significa nos papéis da Feitoria austríaca, sempre, um mensageiro encarregado de discutir um assunto, fazer uma reclamação ou reivindicação, tratar de um negócio ou trazer uma notícia.

Moluene: menino da rua, criança abandonada, sem pais ou vivendo longe da família.

Moxoxo: provavelmente, tira de pano com que as mulheres envolvem parte do corpo, sobre a capulana.

Msaho: sarau cultural, em particular relacionado com a música, canto, dança e poesia, iniciado nos anos 80 do século XX pela AEMO-Associação dos Escritores de Moçambique, e habitualmente realizado no coreto do Jardim Tunduru, antigo jardim Vasco da Gama.

Mufana: rapaz, garoto, miúdo, muana.

Mulungo: pessoa de cor branca, o branco; também patrão (de qualquer cor), senhor, pessoas com mais posses que os demais.

Nautilus, café-restaurante: situado no cruzamento da avenida 24 de Julho com a avenida Julius Nyerere (Polana-cimento), local de conversa e de encontro social – e com uma das melhores padarias de Maputo.

Ngungunhane, Ngungunyane, Gungunhana: chefe do chamado império vátua de Gaza, entre 1884 e 1895. Foi derrotado militarmente pelo exército de Mouzinho de Albuquerque, em 1895, preso, enviado para Lisboa, em 1896, acompanhado de tio, filho e mulheres, e depois deportado para Angra do Heroísmo, Açores, onde faleceu na prisão em 1896 (as suas mulheres serão desterradas para São Tomé.)

Nice: às vezes escrito naiss [naice]: adj. bom; bonito; agradável; simpático, bom (termo de empréstimo do inglês nice). “Moçambique é maningue nice”, “estar numa nice”.

PCA: sigla com que são designados ao administradores das empresas em Moçambique (equivalente ao CEO europeu e americano).

Pemba: cidade moçambicana, sede de município e capital da província de Cabo Delgado, no Norte. Até 1976 a cidade tinha o nome de Porto Amélia.

Piri-Piri, restaurante: situado na avenida 24 de Julho (Polana-cimento), é famoso pelo seu churrasco (picante), e local de conversa e de encontro social.

Polana, Hotel: hotel de luxo, inaugurado em 1917. Um dos mais luxuosos e carismáticos – e míticos – hotéis de toda a África Austral. Recentemente renovado.

Régulo: chefe tradicional africano; autoridade integrada na hierarquia política da administração portuguesa, que controlava uma área (regulado) dentro de uma circunscrição. A administração portuguesa recuperou e pôs ao seu serviço, chefes tradicionais existentes.

Saguate: presente, dádiva, mimo que se dá em determinadas ocasiões e excede o pagamento de serviços prestados; gorjeta; o mesmo que bacela. Pelo menos nos séculos XVI a XVII, saguate tinha o significado de uma oferenda de cortesia e de respeito feito pelos portugueses aos soberanos e chefes dos povos com quem contactava e queria estabelecer comércio, etc.

Scala: cine-teatro colonial, hoje desactivado, na avenida 25 de Setembro, na baixa de Maputo.

Sommerchield: bairro de vivendas em Maputo, onde mora a alta burguesia moçambicana e se espalham as embaixadas e palácios de altos dignitários do regime.

Surumático, de suruma, soruma: cânhamo indiano, Cannabis sativa, droga, marijuana; bangui, bolinhas, buma, passa, etc.

Taxi Girls: entre os anos 20 e 30, eram jovens sul-africanas belas, vestidas a rigor. Nos Casinos e bares da rua Araújo, à noite, conversavam com os clientes. E qualquer homem podia comprar uma “fita” de bilhetes por dois e quinhentos cada bilhete, e por cada bilhete a menina dançaria com ele uma música. Mais tarde, anos 60 e 70, basicamente eram prostitutas.

Tchova (xitaduma), txova (xitaduma): um tipo de carrinho puxado ou empurrado à mão, geralmente de duas rodas, e que é usado frequentemente como meio de transporte alternativo de carga a baixo custo (expressão changana, ”empurra que há-de pegar”, irónico).

Tramway: carro eléctrico laurentino, que existiu em Lourenço Marques entre 1904 e 1937. Propriedade da The Delagoa Bay Development Corporation Company.

Tuga: o Português. Ainda ocorre com certa frequência em Moçambique, embora com menos sentido depreciativo.

Txopela (tchopela): triciclo motorizado táxi que percorre Maputo a velocidades pouco consentâneas com a segurança dos passageiros e transeuntes. Há os populares e os exclusivos de hotéis de luxo, como o Cardoso ou o Polana.

Ventar: fazer vento.

Xiconhoca: no período pós independência, indivíduo reaccionário, inimigo da revolução, por ideologia ou por maus: preguiça, alcoolismo, falta de sentido colectivista, etc. (de Xico, Chico, diminutivo de Francisco, e nyoka, “cobra”).

Xilinguíne: durante a primeira metade do século XIX, o Presídio (fortaleza) de Lourenço Marques, viu-se frequentes vezes ameaçado, vivendo praticamente confinado à estreita faixa de areia da praia de Maxaquene, completamente cercada de pântanos. É dessa altura que vem a designação Xilunguíne, que, traduzida, significa o sítio dos brancos.

Xipamanine, Xiquelene, Malhazine, Magoanine, Urbanização, Jardim: bairros periféricos e pobres de Maputo, onde vivem mais de um milhão de pessoas.

Xirico: tipo de rádio pequeno a pilhas.

 = AGRADEÇO CRÍTICAS E SUGESTÕES =

26/05/2011

NÃO SE EMENDA A CHUVA

por cam

«Amanhã, sexta-feira, às 18 horas, na Livraria Minerva [Maputo], o António Cabrita faz o lançamento público do seu último livro de poesia “Não se Emenda, a Chuva“. Como bónus apresentará dois dos seus livros de ficção que a Minerva importou, o “Cegueira de Rios” e o “Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo“. A este propósito o Cabrita faz no seu Raposas a Sul uma breve memória das suas aventuras e desventuras de autor – onde não se esquece de referir as aldrabices já sofridas por renomados editores e o roubo que (n)os correios de Moçambique fizeram aos seus exemplares de “Não se emenda, a chuva” – o Cabrita aqui a confirmar-nos o estereótipo do poeta como ingénuo desligado do real, pois só um “poeta” (desses) é que ainda confia nos Correios de Moçambique. Enfim, ao fim do dia, amanhã, na Minerva. Espero que as chamussas sejam agradáveis.»

Retirei daqui, foto e tudo, com a devida vénia.

Abraço, António.

25/05/2011

ÍNDICAS, JORNADA 10

por cam

As livrarias de Maputo têm as suas peculiaridades. Na Livros & Etc, no Maputo Shopping Center, domina o etc, traduzido numa espécie de mal-estar quando se inquire os vendedores sobre, por exemplo, literatura moçambicana. Depois de uma troca de olhares entre os dois empregados, um deles aponta, sem certeza, para uma prateleira intitulada “Literatura Nacional”. Lá estão alguns autores moçambicanos, é verdade, cada título multiplicado por uma meia dúzia de exemplares, para que a prateleira fique compostinha… Este é um dado comum a muitas delas: a literatura de Moçambique que está disponível no mercado dificilmente se encontra junta numa única livraria, para já não falar dos inúmeros títulos de memórias e autobiografias e de diversos estudos sobre a história recente. Ainda nesta livraria, à minha pergunta sobe a zona do país em que se falava mais uma dada língua nacional, descrita na capa de um dicionário, tive uma resposta de silêncio, de embaraço.

As outras livrarias do grupo Escolar Editora são idênticas, diferem apenas na quantidade e obras à venda. Na da 24 de Julho, retiro da prateleira três livros e dirijo-me ao balcão, onde estão dois empregados, com o seu terminal de computador. Um deles, amável, procura os códigos das obras. Estranho, logo que ele pega num dos livros, o facto de “aquilo” lhe parecer um objecto estranho. Ao cabo de uns minutos, a coisa não anda… Reparo que o empregado copia várias coisas do livro para o computador, ora de um lado, ora de outro. “Posso ajudar?”, pergunto, “É… este livro não existe…”, “Deixe ver”, leio no terminal que ele está a colocar o nome da editora, em vez do título, e o título no campo do autor… Digo-lhe isso, lá acerta. Mesmas operações com os dois outros livros. Demora exasperante. “Agora o senhor pode ir pagar ali àquela senhora.” Vou, a três metros de mim, uma empregada, de caixa, olha e volta a olhar o talão do colega, tecla e mais tecla, e anuncia o preço, finalmente. Pago. Quero sair, mas ela diz-me “Agora o senhor faz o favor de ir ali terminar a compra”, “Mas eu já paguei!”, “Faz favor!”, não discuto, à porta, outra empregada, façanhuda, “Mostre-me os livros, se faz favor”, mostro, e ela, eu não quero acreditar, saca de uma borracha e apaga diligentemente o preço escrito a lápis em cada primeira folha dos livros. “Posso ir-me embora?”, “Pode, se faz favor”. Só na rua fico com a certeza de que não preciso de passar por mais nenhuma operação da longa e bizarra cadeia de vendas.

Na loja das Publicações Europa-América (PEA), a mais arrumada de todas, e talvez a que tem maior oferta, compramos alguns livros e umas pequenas peças de artesanato. Esperamos de pé, junto ao pequeno balcão, que as embrulhem. Vagarosamente. Vão e vêm os empregados, a fazer contas, a buscar papel de embrulho… Uma das empregadas, de pé, como nós, dorme. As imperceptíveis deslocações de ar dos colegas fazem-na abrir os olhos que imediatamente se fecham. Despedimo-nos dela. Baralha-se, sem saber se há-de primeiro dizer adeus e depois abrir os olhos ou o contrário. Oxalá já se tenha decidido.

A Minerva é uma sombra do que foi. Gostava de ser FNAC mas não consegue. A sua mistura de livros e de objectos evita que a loja cuide daquilo para que serve uma livraria. Orientam-se pela fama, têm livros como quem tem bibelôs, e a literatura moçambicana é que fica a perder.

A Mabuko, avenida Nyerere, tem também uma escolha razoável de jornais e revistas, e é, a par da loja das PEA, a que oferece um leque mais amplo de literatura moçambicana, bem organizada. E gosto do zelo vigilante das empregadas, uma delas vem atrás de nós e põe a mão em todos os livros em que tocamos, quem sabe se a sentir-lhe a falta de qualquer folha…

Apesar destas idiossincrasias, e da falibilidade das opiniões de quem está apenas de passagem, tem sido uma boa surpresa, esta das livrarias de Maputo, a aproximar-se, pelo melhor e pelo pior, do que há em qualquer cidade da sua dimensão e importância.

GLOSSÁRIO

24/05/2011

ÍNDICAS, JORNADA 9

por cam

Pelo chão da cidade vende-se livros. Directamente sobre a calçada empoeirada, ou sobre um simples tecido ou até um pedaço de cartão velho, mostram-se os livros, regularmente encostados uns aos outros ou em desalinho. A todos cobre uma película mais ou menos densa de poeira, mas é poeira urbana, do passeio e das ruas que não se limpam há uma ou duas dezenas de anos, dos lixos acumulados, de toda a química expelida das viaturas novas e das muito velhas. Talvez se possam contabilizar umas dezenas destes pontos de venda em toda a cidade, sobretudo nas zonas onde vivem ou circulam estudantes dos liceus e da universidade e portugueses (turistas ou não). Clientes eventuais serão também os moçambicanos que ainda não exploraram, por desinteresse ou desconhecimento, estes filões. Porque aqui há de tudo: fotocópias encadernadas de livros de estudo (línguas, matemática, filosofia, etc.), relíquias das vulgatas marxistas-leninistas (há séculos que não passava os olhos pelas capas dos livros ortodoxos da chilena Marta Hanecker!), obras nacionalistas de todo o tipo, mas também outras, importantes, da literatura moçambicana ou sobre a sua história (J.P. Borges Coelho, Junod, Mia Couto, A. Lobato, J. Capela, entre muitos outros), livros portugueses raros (primeiras edições de Cesariny, H. Helder, Sena, Grabato Dias, Ernesto Sampaio, etc.). Diz-se que muitos deles foram roubados de livrarias, bibliotecas e arquivos oficiais, universidade, casas particulares. Diz-se também que existem armazéns repletos de milhares e milhares de livros e documentos ao abandono, muitos deles oficiais, onde se abastecem muitos destes vendedores de rua, absolutamente desconhecedores de estarem em posse de algumas raridades bibliográficas (não raríssimas ou de luxo, mas raridades, em qualquer caso). O Governo não liga a estas coisas, seja qual for o ponto de vista sob o qual se queira encarar esta realidade, a não ser os “cinzentinhos” que procuram extorquir dinheiro aos vendedores… A incúria é evidente: no Ministério da Educação, em vésperas de reabilitação do prédio, deitaram fora tudo o que lá havia: livros e toda a documentação administrativa. Um vendedor de rua, um dos mais antigos e conhecedores, diz conseguir por mês um lucro de cerca de 5.000 meticais (menos de 100 euros), mas há quem diga que os lucros são superiores. Percorremos várias vezes as bem recheadas avenidas Lenine (do cruzamento com a 24 de Julho até à zona da Coop) e a 24 de Julho toda, e ainda a Eduardo Mondlane, a Mao Tse Tung, parte da Baixa, e uma ou outra mais escondida. Quando começámos a andar mais de carro, escassearam estas visitas.

Por curiosidade e por necessidade, procurámos conhecer todas as livrarias e espaços públicos onde fosse possível tomar contacto com os livros e comprar o que fosse possível com o conteúdo da nossa magra bolsa. Estivemos na loja do Centro Franco-Moçambicano, na galeria de arte da CFM, na editora Kapikua, e em várias livrarias: a Minerva, na Baixa (uma das mais antigas e conceituadas e, creio, a única que ficou do tempo colonial, rendida agora ao “estilo FNAC”), a Universitária, na avenida Karl Marx (com poucos livros mas com mais poeira do que a rua, e com umas empregadas desconfiadíssimas!), a das Publicações Europa-América na 24 de Julho, também nesta avenida a da Plural (ramo da portuguesa Porto Editora vocacionada para o espaço africano lusófono), a Mabuko, na Julius Nyerere e as do grupo português Escolar Editora: a Livros & Etc (no novel Maputo Shopping Center), e, com o nome do grupo, mais duas, ambas na 24 de Julho, uma no interior do Centro Comercial Polana, outra mais perto das perpendiculares de acesso ao centro da Baixa. Numa transversal da Lenine, de que não anotei o nome, um pequeno estabelecimento de muçulmanos tem uns livros perdidos num meio de uma barafunda de tudo-e-mais-alguma-coisa. O que acontece, tenho a certeza, um pouco noutras áreas da cidade. Em torno do “cimento”, nos bairros miseráveis que vão encostando ao “caniço”, duvido que os livros tenham resistido ao fogo necessário para o frio das noites ou para aquecer a panela familiar.

GLOSSÁRIO

20/05/2011

ÍNDICAS, JORNADA 8

por cam

Em meados da década de 80 do século passado (ainda custa falar assim do século em que nasci, quando durante tantos anos falei do século passado como coisa longínqua, o XIX…), por via do FITEI – Festival de Teatro de Expressão Ibérica, e de alguns críticos teatrais portugueses (Carlos Porto e Manuel João Gomes, em especial), o teatro de Moçambique começou a ficar na moda em Portugal. O Mutumbela Gogo, de Manuela Soeiro e Henning  Mankhel, e onde se formaram e tornaram populares actores e actrizes como Lucrécia Paco, Josefina Massango, Adelino Branquinho, Rogério Manjate, Alberto Magassela, e Mário Mabjaia, entre outros, ou o Gungu, do “dissidente” Gilberto Mendes. O grupo da Associação Cultural Casa Velha, dirigido por Machado da Graça (ainda existente) e o Tchova Xita Duma, já desaparecido, dinamizado pelos irmãos Pinto de Sá (Maria e José), não tiveram a mesma fortuna em terras do “pai” colonizador. Para o bem e para o mal, digo eu, que andei metido nessas “guerras”… Hoje, o Mutumbela continua a sua carreira internacional, tal como o “filho”, já bem crescido, Gungu. Entretanto, bem depois desse boom, procuram-se outros rumos e surgem outros elementos de renovação e profissionalização, em moldes diferentes, do teatro moçambicano, ou, para ser mais preciso, do teatro feito em Maputo. Há meia dúzia de anos, no âmbito da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade Eduardo Mondlane, foi criada uma licenciatura em teatro, coordenada pelo Rogério Manjate. Logo que chegamos a Maputo perguntei ao António Cabrita que espectáculos de teatro poderíamos ver durante a nossa estadia, que iria acontecer num período mau, de férias, e ele logo ao terceiro dia fez-nos o desafio: ir a casa do Manjate nessa noite, onde ele ia apresentar uma versão pessoal de Na Solidão nos Campos de Algodão, do francês Bernard-Marie-Koltès – “Um teatro na intimidade”, anuncia-se. Já não me recordava do Rogério, conheci-o mal quando aqui estive em 1995, era ele muito jovem, quase um garoto. Mais tarde, em 2006, de certo modo cruzámos caminhos, quando o Cabrita coordenou o número 2 da revista Magma, que então eu dirigia, e na qual publicámos alguns poemas seus. Uma dezena de pessoas, chegam a pouco e pouco, são recebidas por uma jovem simpática. A produção do espectáculo é do grupo Galagalazul – o galagala é um multicolorido lagarto moçambicano – formado, creio, há meia dúzia de anos. Comprámos uma bebida e ficamos a aguardar numa divisão do apartamento que era o quarto pessoal do Rogério. O António apresentou-nos alguns amigos e ficámos ali uns minutos em alegre cavaqueira. Depois, fomos conduzidos à “sala”, uma divisão nua, com uma dezena de assentos. O Rogério-actor já estava em cena. Em “pausa”. Durante perto de uma hora, o Rogério, em monólogo absoluto, transfigurou o universo koltesiano da Solidão num dealer, personagem que de certo modo se tornou maputense, enredado na teia densa da sobrevivência e da difícil comunicação, numa sociedade que procura a sua identidade pós-revolucionária. Não me interessou, nem agora, fazer a crítica do que vi – embora deva dizer que o Rogério Manjate é um actor de muitos recursos e que fiquei com a impressão – talvez por “vício profissional”, – de que o texto original, na perspectiva que ele adoptou, teria de ter uma leitura dramatúrgica com outros pontos de complexidade. Registei o tom cosmopolita do evento, embora off-off, poderia ter lugar em qualquer grande cidade da Europa ou dos EUA. Sinal de mudança para melhor, pareceu-me então. Mais tarde, outras coisas vistas fizeram com que duvidasse bastante da força deste sinal. Enfim, não sou um bom conhecedor da realidade maputense, mas tenho alguma informação, e há sinais, outros, que não devem ser ignorados por quem está aqui no teatro, portugueses incluídos, há certas coisas negativas que são iguais em todo o mundo. E as que observei não são garantidamente apenas moçambicanas. Longos caminhos, ainda.

Folha de sala de O Dealer /Na solidão dos campos de algodão

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20/05/2011

LUÍS CARLOS PATRAQUIM

por cam

Luís Carlos Patraquim (“Patrakas”) foi a Maputo lançar mais um livro Enganações de Boca (Alcance Editores, crónicas publicadas em Angolé, África Lusófona e Savana organizadas por Luís Cezerillo. A apresentação foi do António Cabrita.

Tirei a informação (com imagens) daqui.

(será que me vai chegar um exemplar de Moçambique?)

António Cabrita, Ídasse, Luís Carlos Patraquim e Naíta Ussene

19/05/2011

ÍNDICAS, JORNADA 7

por cam

Retomo os carapaus fritos da Adelaide, porque ficou por dizer que foram acompanhados com um molho refogado de cebola e alho em óleo de dendém e malaguetas verdes. À sobremesa, temos comido a papaia amarela daqui, que é menos doce e saborosa do que a vermelha, da África do Sul, que por aqui ainda não vimos, “banana macaco”, que é um espécimen pequeno, arredondado, mais denso, semelhante à banana-prata de São Tomé, e umas tangerinas gigantes, menos sumarentas mas mais doces do que as portuguesas.

No final da avenida Julius Nyerere, quase a entrar na Marginal, mandámos parar um tchopela, espécie de riquexó, um triciclo motorizado, coberto, com espaço para dois passageiros. Há agora vários na cidade, são os táxis do povo, mas os hotéis de luxo têm frotas privadas, com melhor aspecto, provavelmente mais seguros. Regateámos o preço com o condutor, o simpático Pedro, ele pediu-nos 100 meticais, como já sabíamos que poderia descer até aos 70, foi o que fizemos, e ele lá aceitou, com a condição de o voltar a chamar sempre que precisássemos de transporte, para o que, profissionalmente, nos forneceu o número do seu celular. Comprovaremos em outras ocasiões que as viagens em tchopela são autênticos ralis, perigosos, no meio do trânsito indisciplinado, a velocidades acima do que os desengonçados veículos permitem. A viagem de hoje, ainda sem muito trânsito, foi tranquila.

Entramos no velho café Continental, extenuados, depois de anárquica deambulação pelas largas e compridas avenidas. “Duas Laurentinas, por favor.” “Não servimos bebidas alcoólicas.” “Porquê?” “Por causa do novo regime.” Ficámos sem saber a que se referia a empregada de mesa. E eu não perguntei se o urinol imundo que há minutos tinha utilizado também se devia ao “novo regime”. Ficámos chateados e saímos. Mais tarde soubemos que o “novo regime” era um grupo económico muçulmano que estava a apoderar-se de vários estabelecimentos na cidade, os mesmo donos do recente Shopping junto ao porto. Ecoam pela cidade rumores pouco abonatários sobre este e outros negócios com a marca do Islão, aliás, de alguns seguidores do Islão, que tem muitas e boas tradições no país. Um amigo moçambicano assinalou-me a diferença, mesmo física e de comportamento público, entre os islâmicos naturais de Moçambique ou aqui há muito radicados, e os novos muçulmanos, uns, grandes empresários com negócios pouco claros, outros, apenas fundamentalistas. Guardei a informação – e o incómodo, que haverá de repetir-se, de entrar num estabelecimento público num país sem religião oficial e ter de me submeter a regras de cariz religioso.    

À noite, ao jantar, fomos à Feira Popular, na 24 de Julho. Eu já ali tinha estado em 1995 e em 1997-98. Está agora com mais animação de feira e com mais e melhores restaurantes. Fomos ao Escorpião – renovado creio que em 2001. Está muito maior, perdeu o ar popularucho, de tasca, agora parece-se mais com aqueles restaurantes portugueses para “casamentos e baptizados”, ou de beira de estrada, espécie de fábrica de comida. Arriscámos. Pedimos caril de caranguejo (sapateira) e polvo à lagareiro. O caril, mais à moda europeia do que moçambicana, estava, mesmo assim, delicioso, sobretudo porque o caranguejo era bem fresco a ainda com sabor a mar. O polvo, em relação aos nossos cânones, estava igualmente delicioso, macio e tostado ao mesmo tempo e de certeza que não era congelado. Acompanhámos com cerveja (3M e Laurentina), embora nos apetecesse mais um bom vinho português, mas é preciso cuidado com a bolsa, como comparação diga-se que aqui uma garrafa de vinho, de qualidade média-baixa, custa entre 500 e 700 meticais, ao passo que o preço médio do prato é de mais ou menos 300. É verdade que comparados aos nossos, os preços são baixos, mas como o dinheiro disponível é muito pouco, preferimos usá-lo noutras coisas – mesmo na comida, mas dispensar o vinho. Mas com o país a ficar islamizado, qualquer dia, mesmo querendo…

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17/05/2011

ÍNDICAS, JORNADA 6

por cam

Nestes poucos dias maputenses o lixo faz-nos tropeçar (literal e metaforicamente). O lixo e o estado de degradação de muitos passeios públicos, ou, nas avenidas mais largas, o separador central entre vias de rodagem. Em alguns destes, as árvores, outrora frondosas, desapareceram, noutros, a terra esventrada deixa as raízes expostas ao olhar, motivo de tropeções, especialmente se o nosso olhar subir à procura das suas copas. O lixo, dizem-nos, é agora em muito menor quantidade, já existe uma empresa, concessão portuguesa, encarregada da sua recolha. “Mas então…” “…maca qualquer, brada, tem paciência…”. Tenho, eu mais do que a Sara, ela que é tão mais paciente e tolerante do que eu, desabafa, não suporta o lixo, o lixo espalhado, amontoado à toa aqui e ali, em todo o lado. “Paciência…” E ainda só conhecemos as zonas ricas, para a periferia, para o caniço, será muito pior. Digo em voz alta que os dirigentes moçambicanos perderam o olfacto ao mesmo tempo que a vergonha. Mandam-me calar – ou falar baixo.

Em Portugal, nos primeiros tempos da dita revolução abrilista, quando alguns de nós reclamavam mais e melhor educação e cultura, sobretudo a partir das câmaras municipais, alegavam os “camaradas”, em boa dose m-l mal digerida, tipo Readers Digest mas de sinal contrário, que primeiro era preciso dar a todo o povo as “infra-estruturas”, como água, electricidade, saneamento e habitação, o “pão”, e que depois, “camaradinha”, viriam essas coisas todas da “super-estrutura”. Nem eu nem eles percebíamos o que tal proposição exactamente queria significar. Por aqui, parece, nem uma coisa nem outra. Revolução?

Hoje, como é Sábado, é dia do “mercado do pau” na praça 25 de Junho, data da independência de Moçambique, em 1975, e que foi a celebrada praça 7 de Março, colonial. Basicamente, é um enorme largo, entre a avenida 24 de Julho e a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, em direcção ao porto de ferrys e “cacilheiros” que ligam Maputo à Catembe; largo de onde sai (ou desemboca…), aquela que hoje chamam de rua de Bagamoyo e que foi, com o nome de Araújo, uma das mais célebres desta ponta de África, rua cosmopolita e fervilhante de vida nocturna, de boa e má fama, entre os anos 20 e os anos 70 do século que há pouco se foi. Remato já o breve excurso histórico informando que a FRELIMO se encarregou de a desdourar em nome dos “bons costumes” revolucionários.

O “mercado do pau” é um mercado de artesanato. Desde os célebres batikes, a tudo o que seja estatueta a imitar pau-preto, passando pelas inúmeras t-shirts, caixas e caixinhas, colares e pulseiras, bonecas disto e daquilo, instrumentos musicais, um mundo de imaginação. Já tínhamos sido informados que ao final da tarde, por volta das 18 horas, quase quase a escurecer, se poderia regatear com maior probabilidade de se obterem preços mais baixos. Mas não nos informaram que ao primeiro gesto dirigido a um qualquer objecto, um apreçar de uma peça ou o simples parar junto de um artesão, seríamos assaltados por mais meia dúzia de vendedores, disputando o nosso dinheiro. Apesar dos “assaltos” a que já tínhamos sido sujeitos à porta do Cardoso, ou junto ao Continental, não sabíamos da dureza deste mercado, mas sabíamos que a nossa intenção não era a de comprar fosse o que fosse, apenas “cheirar” o ambiente, testar até que ponto poderia ir o nosso regatear, perceber quais os preços mais baixos de uma outra peça. Erro claro, claro. Esta estratégia não faz parte de nenhum dos cânones do “pau”. Quem ali vai, é para comprar, se regateia, então, com maior razão tem de comprar, “não estou a ganhar nada, patrão, é só para voltar para casa”. Desta maneira, ou com ligeiras nuances, matraquearam-nos os ouvidos, à mistura com preços, câmbios, ofertas em inglês e nós a dizer-nos portugueses, “sim, boss, Eusébio-Amália-Figo-Cristiano Ronaldo, sim, boss!” A retórica deles: os preços mais baixos, a melhor qualidade, a genuinidade dos artigos (“pau preto, patrão!”), o quase-empurrão, o agarrar um braço, um olhar de cumplicidade – contra tudo isto, e mesmo contra a nossa vontade de comprar – resistimos, não nos esportularam um cêntimo. Mas havemos de voltar, ah sim, sim!

GLOSSÁRIO

13/05/2011

ÍNDICAS, JORNADA 5

por cam

Estamos hospedados em casa de familiares, por isso resolvemos, para não os sobrecarregar, sermos nós a confeccionar as nossas refeições – com a ajuda preciosa da Adelaide.

Hoje de manhã fomos com ela a um supermercado na avenida 24 Julho, uma das principais avenidas da cidade. No supermercado, que tem o nome comercial de Hyper Market Moçambique, Adelaide foi bem criteriosa nas suas escolhas. A sua condição subserviente, com pesar nosso, e a sua timidez, não a impediram de nos dizer, com alguma assertividade, o que era absolutamente necessário que comprássemos, em especial os produtos que ela sabe serem de “brancos” – “branco”, para a maioria dos maputenses, é sinónimo de “rico”. “Patrão, leva azeite, patrão, leva manteiga”. “Sim, Adelaide.” “Isso não presta!” “Sim, Adelaide.” Saímos com vários sacos de plástico e com um enorme cesto de vime que ela teimou em carregar sem a nossa ajuda. Se a ida até ao supermercado foi prazenteira, o regresso foi algo doloroso… A sós, comentámos como seria difícil para ela o seu dia-a-dia, a pé para aqui e para acolá, sobrecarregada.

Na rua dos Lusíadas, quase em frente ao liceu Josina Machel, resolvemos entrar no chamado mercado do Museu (de História Natural). A contragosto da Adelaide, que com uns monossílabos muito especiais e muito dela, nos fez ver que entrar ali não era coisa de mulungos, além do mais desconhecedores da cidade e das suas armadilhas. Mas entrámos. Apesar de dia claro, o mercado popular é uma zona de trevas. Chão de terra que durante anos e anos embebe águas sujas, gorduras, toda a espécie de líquidos e de detritos, muito deles humanos, pois não é inusitado cagar e mijar ao ar livre, onde quer que dê. Chão orgânico, negro, escorregadio, fedorento. Como em tantos mercados de cidade e zonas de habitação mais pobres, os caniços, as vias são muito estreitas, sem qualquer tipo de organização consciente, vão por onde se pode, por onde não há obstáculos, naturais ou outros. De um lado e de outro, minúsculas barracas, onde se vende de tudo, sobretudo comestíveis. Ao contrário do que eu esperava, a nossa presença não é especialmente assinalada, alguns dos homens que comem levantam o olhar e logo retomam o que antes faziam, os mufanas risonhos mas a pedir, “’tou pidindo, patrão”. Procuramos ser discretos, não fazer de turista que vem ver os “pobres pretos coitadinhos”, e lá vai fotografia, não, vamos directos ao nosso objectivo, que é o de comprar peixe fresco. Depois de umas pequenas voltas naquele labirinto de ruelas, desembocamos numa área vagamente parecida com um largo, onde se concentravam algumas pequenas bancas de venda de peixe. Todas as mulheres queriam vender-nos o seu peixe, falavam em changana com a Adelaide, mas foi ela que disse, decidida, “patrão, só tem carapaus, estes são os mais baratos”, eram uns bichos parecidos com aqueles que em Lisboa consideramos chicharros, ou seja, uns carapaus de dimensão maior do que os simples carapaus, com um comprimento acima dos vinte centímetros. Escuros e brilhantes ao mesmo tempo. Que sim, que está bem para nós, pedimos à Adelaide o preço, “50 meticais o quilo, patrão”, a “dona” ao lado puxava o braço à Sara, dizia, num português bem perceptível, que fazia “preço melhor, mamã”, a Adelaide mostrou à mulher o seu rosto decidido, “aqui é que é, patrão”, e nós que sim, saímos de lá com uns dois quilos, tivemos direito a bacela.

A Adelaide nunca acreditou que na verdade quiséssemos comprar aqueles peixes. Depois, duvidou que os comêssemos. Em casa, perguntou como queríamos cozinhá-los. Explicámos-lhe como fazíamos em Portugal, a Sara explicou-lhe mesmo o modo tradicional açoriano, para os chicharros (os carapaus continentais), fritos em óleo, cobertos de farinha de milho, mas insistimos que ela os preparasse como se fossem para ela comer – aliás, estava de antemão convidada para comer connosco, ao que ela respondeu com o seu “huumm”, não percebemos se aceitava ou declinava o nosso convite, aquele “huumm” era um mundo de maravilhamento fonético e semântico, levámos dias até começar a perceber alguns dos seus significados, pela maneira de ela modelar a expressão, não somente como o entoava, mas também com o olhar, com a posição do rosto, do corpo, até do movimento que fazia, recuo ou meia volta, por exemplo. De todo o modo, ontem queríamos era apreciar o seu modo culinário. Simples: numa frigideira grande, baixa, um pouco de azeite que ela conquistara o direito a usar no seu raide ao supermercado, e os bichos a fritar, sem mais, a não ser o tempero de sal e malagueta, “podes pôr como se fosse para ti, nós gostamos de comida picante”, já a informáramos. Lume forte, mão habilidosa, o espectáculo do saber fazer, de ver a funcionar uma retórica sem regras explícitas, o amor poderá ser assim. Eu fiz um arroz de tomate e pimentos verdes. O peixe ficou delicioso, tínhamos ganho o dia. “Senta-te, Adelaide, vamos comer.” “Huumm, está bem, patrão.” Mas não se sentou, foi para o seu cubículo, trabalhar, não soubemos em quê. Comerá sozinha, ou, o mais certo, logo ao fim do dia levará os carapaus sobrantes para o caniço, para partilhar com os seus.  

Um país, uma cidade, é isto.

 

 GLOSSÁRIO

 

 

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