Archive for ‘Abysmo’

25/06/2013

Hipopótamos: não ceder à tentação de desviar o olhar

por cam
Alguma boa vontade poderá fazer-nos aceitar que o nível qualitativo médio da ficção portuguesa tem vindo a crescer de forma sustentada ao longo da última década. Este crescimento é suportado pelo aumento significativo do número de autores, a par com a aquisição de estratégias narrativas e de edição capazes de evitar erros básicos de construção ou de escrita. O problema é que este nível médio (onde poderíamos colocar como autores mais notórios Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Dulce Maria Cardoso ou João Tordo, mas que se estende por um sem número de legítimos pretendentes) mantém-se mediano, se não baixo, sem ser capaz de gerar (ou de tornar visíveis) autores de excepção.
Esta, a excepção, se nasce quase sempre da quantidade, tem muitas vezes dificuldade em se fazer notar no interior da proliferação e da quantidade.
Por sua vez, a crítica literária, nos poucos espaços institucionais onde subsiste, raramente ajuda, tendendo a colar-se a estratégias voluntaristas que não se distinguem muito do registo de promoção editorial. Vemos sucederem-se livros “belíssimos”, mas literariamente inócuos, e quando acontece alguma coisa de relevante editoras e crítica fazem-se distraídas.
Num momento de multiplicação de autores, num momento de uma permissividade cultural quase sem entraves, a edição, o mercado e a crítica (a ordem não é aleatória) promovem uma intimidatória neutralização criativa. O autor ameaça transformar-se ele próprio na personagem de um ghost-writer de cara descoberta.
11/06/2013

Nuno Ramos de Almeida sobre o Hipopótamos

por cam

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23/01/2012

DEDICATÓRIA

por cam

                                     I shall never get you put together entirely,

                                     Pieced, glued, and properly jointed.

                                      Sylvia Plath, The Colossus

Escovar bem as palavras, libertá-las do sarro do uso.

Devolver às palavras a sua natureza de pedra, a sua intensidade, a sua natureza da corrente de rio a fluir de si para o ainda-por-conhecer.

O espanto e o maravilhamento refugiados sob as nossas peles.

No princípio era as palavras “lírios”, ou “Eva”. Ou outras. Depois o remanso do silêncio. E só depois as palavras. “Coisas”. Não em lugar de.

Sobrevieram tempestades de lixo, destemperos divinos. Despedaçaram as palavras-pedra, as palavras-em-movimento.

Miríades de estilhaços para recompor um nome ainda desconhecido.

Repetições. O silêncio não é falha de palavras, é o prenhe de tudo, mas não sabemos como.

“Demasiadas palavras armadas em metáforas. “Vazios” – precisar de “uma pele capaz de os alojar.”

Um corpo é um pedaço de tempo, irrecuperável.

«Flectindo o dorso estendo a mão cega até à palavra que te procura (…) / que mistérios ocultará essa palavra tão longe e tão perto desta mão? / (ou é apenas o lado errado da noite?).»

As coisas não envelhecem, morrem de um golpe só. A morte é passar o tempo a tentar limpá-las com restos moribundos, as palavras.

As coisas ferem. É da sua natureza. E depois riem.

O tempo implode. Sonhamos com outra dimensão espaço-tempo.

Os nomes são remendos. Ou a derradeira hipótese de colar os fragmentos.

Pode haver um Nome, mesmo assim. Mas terá de ser Coisa.

Com a memória ajustamos medos e renovamos segredos. Coisas caladas.

O coração é um imenso buraco aberto no peito de onde olhamos o que não foi. “As coisas conhecidas são pedras e poemas. E o teu nome / sempre infiltrado nos versos.” «a tua pedra negra regressa à minha mão fechada / e ilumina como um sol a minha noite em claro».

«Longe, junto a um rio, há uma casa feita de palavras. Um castor velho ocupa-se a suprimir-lhe as excrescências.» 

Um nome branco bordado em branco a apagar os pecados. “papel químico encostado ao tempo.”

As palavras, «sucessivas camadas de palavras por dizer», ardem sob o teu nome, sempre o teu nome. Por dizer.

As palavras nunca dão “resultado certo”.

“As coisas mais difíceis começaram por ser do corpo.” Para o contar é preciso sacudir «a escama estéril das palavras».

Morro todos os dias com uma recordação na pele e “o som atenuado de uma canção.”

Nas coisas não se vaza memória, o escorrimento obstinado do tempo.

Os nomes são repetições, sujeitos a defeito de fabrico.

Os espelhos reverberam ausências. O excesso de cristalino elide a memória.

Conhecer um rosto sem o atrito de um nome.

Sob a pele um mapa de nomes.

Há uma infância onde os nomes respeitam as coisas. Depois vem a memória.

Chegar às coisas, torná-las inanimadas, é isto a morte.

Também a morte tem uma arqueologia.

As coisas são o que são, resistentes à desordem do universo.

Por ti, «esconde a palavra-talismã»

Palavras pagam-se com palavras.

Dedicatória. 

{ lendo As Coisas, da Inês Fonseca Santos, edição abysmo, Janeiro de 2012 }

“!As Coisas”, Inês Fonseca Santos

21/01/2012

A REALIDADE TAL QUAL ELA NÃO É

por cam

ou

SUA EXCELÊNCIA, O LEITOR

Retomo o que escrevi em post anterior (“artigo”, lhe chama o WordPress, quanto a mim mais apropriadamente): “Gosta-se de livros pelos seus “conteúdos”: pois. E o “resto, não é livro? Estas e outras dúvidas mais ou menos idiotas desvanecem-se quando temos entre mãos livros editados pela abysmo”, como “(…) «Uma História de Amor no Casal da Eira Branca», de Tomás Vasques, com ilustrações de Susa Monteiro – e pronto, vão as tais dúvidas a ganir alto e forte para longe.” O texto de Tomás Vasques, as ilustrações de Sua Monteiro, o design do livro da responsabilidade de Luís Mendonça casam-se na perfeição. Todos sabemos que, por definição, não há casamentos felizes, e que neste caso, além disso, o casamento se assemelha a uma relação com três vértices, o que na língua dos valentes gauleses se conhece como ménage à trois. Felizmente que os livros não se colhem na realidade como as margaridas e que a sua natureza é outra, digamos, mais apetecível para matutinos despertares de sonho – ou para noites pesadas de chumbo.

Perfeições à parte, já perceberam que o livro me motiva. Como ando ainda a aprender a falar de outras artes que não a da escrita, vou-me só a esta, onde escorrego menos.

Este «Uma História de Amor…» é o primeiro texto ficcional de Tomás Vasques que leio – e a ausência de referências é sempre, para mim, um desafio suplementar, o da “leitura sem rede.” De uma primeira leitura do curto texto – 30 páginas, incluindo ilustrações – ficou-me a impressão de estar perante um guião de um romance, uma intriga minimal para aguentar as figuras e situações desenhadas a traço grosso. Como se lhe faltasse qualquer coisa que a substantivasse, lhe concedesse densidade. Pensei ainda mais em guião, em estrutura performativa. Fruto de alguma bulimia, li logo de seguida o «Short Movies» do Gonçalo M. Tavares que, embora objecto de outra estratégia narrativa (deverei escrever sobre ele), assume um registo telegráfico, despido, onde se vê que a “mão do autor” desespera para não se deixar ver (para não estar demasiado presente, aliás) e equilibrar uma objectividade (impossível) algures entre a polaroid, a narrativa etnográfica (pretensamente “distanciada”), etc., de forma a despoletar o “espanto”, o “absurdo”. Creio que um pouco de tudo isto está presente, na pequena narrativa de Tomás Vasques. Não vou contar a fábula, mas desde a primeira à última linha – foi isso que melhor “descobri” em segunda leitura –, a “estranheza” e o “absurdo” produzem-se, não pela substância da narrativa e dos seus jogos, mas pela expectativa que gera em cada passo e que de modo algum se concretiza. O texto joga com os conhecimentos “literários” do leitor médio, com a sua indispensável adesão a um modelo romanesco, com a potencial tensão que resultaria de ele ter de escolher, ou contribuir para, no seu papel de “leitor activo”, um desenvolvimento de cada nó narrativo, de cada solução e, finalmente, para o seu tipo de “final ideal.” É isto que o livro de Tomás Vasques não é – não quer ser. Uma análise mais minuciosa, que não saberei fazer, talvez possa detectar os quase indetectáveis passos em que o autor avança de mais, isto é, cede ao leitor: ou talvez não, e ele tenha antes pretendido contar uma história banal, que todos reconhecemos dos nossos quotidianos mas que, inchados de ficção, nos recusemos a ver. Não é haver aliens que estranhamos, o que estranhamos é não emparceirarmos com eles confortavelmente sentados no sofá quente e macio da nossa “realidade” inventada. A história simples, sem a panóplia redundante de peripécias das “missões impossíveis”, é talvez isto a recusa do nosso autor. Eu precisei desta realidade simples. Precisamos, acredito, desta realidade simples onde cada palavra deve ser julgada em todas as suas consequências, no seu peso específico e no seu jogo relacional. A crueza e a crueldade (ninguém diria…) de Tomás Vasques, perdão, de «Uma História de Amor no Casal da Eira Branca», fazem-nos falta.

Há mais de um ano, fiz este desafio a um amigo: “escreve numa folha A4 o teu percurso, numa manhã igual a tantas outras, desde o quarto de dormir até ao quarto de banho da tua casa – mas sem adjectivações.” “É simples!, é só isso que é escrever?”, respondeu-me imediatamente.

Continuo à espera.

18/01/2012

MARAVILHAMENTO

por cam

Gosta-se de livros pelos seus “conteúdos”: pois. E o resto, não é livro? Estas e outras dúvidas mais ou menos idiotas desvanecem-se quando temos entre mãos livros editados pela abysmo, do João Paulo Cotrim. Já tinha em casa o “Sérgio Godinho e as 40 Ilustrações“, “O Branco das Sombras Chinesas” do João Paulo Cotrim/António Cabrita, com ilustrações de João Fazenda; hoje chegaram pelo correio a esta terra “prantada” no meio do Atlântico “As Coisas” da Inês Fonseca Santos, com ilustrações de João Fazenda, e “Uma História de Amor no Casal da Eira Branca” de Tomás Vasques com ilustrações de Susa Monteiro – e pronto, vão as tais dúvidas a ganir alto e forte para longe. Com estes livros nas mãos, o Marx e o Engels não teriam sido tão violentos contra a propriedade privada, acho até que teriam lutado arduamente pela posse destes livros singulares. Eu, pelo menos, compreendo agora melhor o que é desejar uma coisa e depois sentir a sua posse. Enfim, não quero pregar doutrina, não empresto estes livros a ninguém e acabou-se. Mas apetece-me mostrá-los aos amigos, a distância segura das suas salivas e das suas mãos subitamente velozes. A fazer-lhes pirraça, como dizíamos quando éramos garotos – a única fase da nossa vida em que não temos problemas com a posse, “é meu/minha” e acabou-se!  Ficam aqui as capas destes dois últimos livros, em versão envergonhada de scanner. Mas, mais logo, na cama, é que vai ser das boas: “olha pra eu” sossegadamente a lê-los, ou talvez devoradamente a.

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