Hipopótamos: não ceder à tentação de desviar o olhar

por cam
Alguma boa vontade poderá fazer-nos aceitar que o nível qualitativo médio da ficção portuguesa tem vindo a crescer de forma sustentada ao longo da última década. Este crescimento é suportado pelo aumento significativo do número de autores, a par com a aquisição de estratégias narrativas e de edição capazes de evitar erros básicos de construção ou de escrita. O problema é que este nível médio (onde poderíamos colocar como autores mais notórios Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Dulce Maria Cardoso ou João Tordo, mas que se estende por um sem número de legítimos pretendentes) mantém-se mediano, se não baixo, sem ser capaz de gerar (ou de tornar visíveis) autores de excepção.
Esta, a excepção, se nasce quase sempre da quantidade, tem muitas vezes dificuldade em se fazer notar no interior da proliferação e da quantidade.
Por sua vez, a crítica literária, nos poucos espaços institucionais onde subsiste, raramente ajuda, tendendo a colar-se a estratégias voluntaristas que não se distinguem muito do registo de promoção editorial. Vemos sucederem-se livros “belíssimos”, mas literariamente inócuos, e quando acontece alguma coisa de relevante editoras e crítica fazem-se distraídas.
Num momento de multiplicação de autores, num momento de uma permissividade cultural quase sem entraves, a edição, o mercado e a crítica (a ordem não é aleatória) promovem uma intimidatória neutralização criativa. O autor ameaça transformar-se ele próprio na personagem de um ghost-writer de cara descoberta.
hipopótamos em delagoa bay_webFace a este cenário, não será absurdo que se afirme que um livro comoHipopótamos em Delagoa Bay (1), de Carlos Alberto Machado, é um livro de autor. Um livro de autor na mesma acepção em que de algum cinema se pode dizer que é cinema de autor. Em ambos os casos, estamos perante obras que conservam as marcas da perspectivação e do enviesamento criativos que as distinguem das linguagens artística ou/e comercialmente correctas. As marcas da subversão interior das expectativas, subversão sem a qual dificilmente a literatura se poderá reivindicar como linguagem maior.
De Carlos Alberto Machado conhece-se o extenso trabalho em teatro e poesia. A formação nestes registos confere-lhe uma autonomia criativa que a maior parte da narrativa portuguesa recente, presa de regras implícitas e pouco conscientes (logo, não questionáveis), raramente alcança:
Era antes da Revolução, era o tempo de fazer a peregrinação ao café-restaurante Monte Carlo, ao bar Bolero, ao Ritz Club, das putas, dos proxenetas, dos marginais, dos intelectuais, dos artistas, de todos os pseudos, o tempo de beber palavras & outros álcoois, de escutar os profetas caseiros, as imitações rascas de revolucionários & guerrilheiros & comunistas & anarcas & surrealistas & abjecionistas – um grande arroto para ti, cornudo Pacheco, espero que tenhas magalas & putas & vinho & dinheiro para putos que não deixarás aí de fazer, onde quer que distraidamente te tenham recebido !
O romance (se o quisermos resumir a uma linha narrativa) estrutura-se em redor da crónica cruzada de uma família portuguesa e da história da cidade de Lourenço Marques —  Delagoa Bay, numa versão inglesa que o tempo revelou provisória, ou Maputo, na sua versão pós-colonial. Mas este não é de todo um romance histórico. Os tempos e os registos são justapostos num processo que tende mais a questionar a realidade ou a verdade daquilo que é dito do que a produzir qualquer versão definitiva. A ironia (ou o cinismo) com que a narrativa é perspectivada a partir do presente da cidade de Maputo coloca o livro a salvo de qualquer ameaça de saudosismo colonialista, mas igualmente de qualquer ilusão libertária:
Mas, valha-nos isso, em Moçambique os “frelos” não foram de tibiezas, como os revolucionários portugueses. Em primeiro lugar, deram logo uns pontapés no cu a umas duas centenas de milhar de tugas e a outros indesejáveis e recambiaram-nos do seu oriente para a beirinha ocidental da Europa – o camarada Guebuza, ministro do Interior, deu vinte e quatro horas aos tugas para saírem, e só com vinte quilos de bagagem, e é se queriam, se não … Depois, bem documentados sobre as Revoluções vermelhas – um bocado amarelas ou com bamboleios de salsa & rumbas -, puseram na linha quem mijava fora do penico: pretos de linha política incorrecta / contra-revolucionária & etc., brancos de todos os matizes porque sim, jeovás porque sim, maricas porque sim, drogados & bêbados porque sim e outros avulsos por que não? Era preciso reeducar depressa e bem para construir o homem novo.
A multiplicação de tempos e registos mostra como é complexo aquilo acerca de que se fala: não há cedências. Mas, para além da inventividade linguística e narrativa, este é um livro de autor sobretudo porque é um livro-manifesto: em parte um ajuste de contas com a crença na possibilidade de transformação revolucionária da história e da identidade, em parte a recusa de rendição diante daquilo que ameaça essa mesma herança.
«Na minha Revolução os corpos dos soldados chegaram à cidade sujos, suados, rostos por barbear; nos dias e meses que se seguiram eram as barbas hirsutas e os grandes cabelos revoltos. Depois acabou a revolução – há quem diga que não chegou a haver – e os corpos calaram-se sob a pele segunda do respeito e das lantejoulas
Esta dimensão de manifesto vai-se tornando mais patente à medida que o livro avança: aquilo que a princípio parece um programa de confronto cultural ou de confronto com a memória vai-se revelando o balanço de um mundo. O deve e haver de uma contabilidade em que ambas as parcelas estão adulteradas: colonizadores e colonizados, história e presente, memória e esquecimento.
Hipopótamos em Delagoa Bay não é um livro perfeito, expõe-se demasiado para que o possa ser. É um livro arriscado como o são todas as obras que supõem audácia e autoria. Como o são todas as obras que não se tentam vender como consolação. É um livro provocador, mas irónico o suficiente para questionar a própria provocação. Seria pena que, diante do risco, se cedesse à tentação de desviar o olhar.
(1) Carlos Alberto Machado, Hipopótamos em Delagoa Bay, abysmo, Lisboa, 2013 (268 p.).
[ blogue contra mundum, em 25 de Junho de 2013 ]
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