18/06/2013

Hipopótamos em Delagoa Bay – entrevista a Novos Livros

por cam
carlosamachado com hipos1- O que representa, no contexto da sua obra o livro «Hipopótamos em Delagoa Bay»?
R- «Hipopótamos em Delagoa Bay» é antes de mais um exercício de plena liberdade. Mando às urtigas ideias feitas (por mim e pelos outros) sobre revoluções e independências, géneros literários e as eternas confusões sobre a “presença” do autobiográfico na ficção e a factualidade da História; passo criticamente em revista amores, vontades, anseios, perspectivas e desejos. Exponho-me: digo-me e contradigo-me. Por isso, aquém e além de classificações e categorizações, este é um livro livre. Quanto a “obra”, não sei.
2 – Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
R- Em diferentes períodos da minha vida (1995 e 1998), por razões profissionais, estive umas semanas em Maputo. Nesses tempos nasceram ideias para um romance, escrevi alguns pedaços, delineei umas quantas figuras e situações. Em 2010, estive quase dois meses em Moçambique (em especial em Maputo), com uma Bolsa Criar Lusofonia (Centro Nacional de Cultura e DGLB). Desarrumei então ideias e projectos e nasceu, uns seis meses depois, este «Hipopótamos», que dificilmente terá uma síntese. Mas poderá ser assim: «Hipopótamos em Delagoa Bay» é um tratado de cobardia sem mestre. Um ajuste de contas com a traição. Um inventário de escombros. Um elucidário de sonhos. Um jogo de memórias. Um ordálio. Uma expiação. Política. Corpos. Paixão. Linguagem. No século XVIII, em Moçambique, a coroa austríaca instaura uma feitoria em Delagoa Bay – o nome inglês para a baía de Lourenço Marques, ou do Espírito Santo. Um século e meio depois, uma família alentejana, que teve nessa feitoria um antepassado, traficante de marfim, chega a Lourenço Marques, na altura em que Portugal começava a construir um país, outro país. Hermínio Quaresma, o último representante dessa família, chega até aos nossos dias atravessando a revolução portuguesa e a independência moçambicana. Uma peregrinação pessoal que atravessa tempos e lugares, os das revoluções, dos encontros e desencontros amorosos. A fazer e a desfazer estórias e a História. «Hipopótamos em Delagoa Bay» é romance de tudo isto. Sempre atravessado por uma dúvida: «houve aqui alguém que se enganou»?
3 – Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R- Além de muita coisa (sobretudo prosa e teatro) terminada e em descanso de “gaveta” (disco rígido do computador) por vontade própria ou por desinteresse dos editores, tenho dois textos teatrais em “banho-maria”, poemas e esboços de contos lançados para cadernos e computador. Dou umas complicadas voltas finais num romance que anda a ser escrito há meia dúzia de anos e a rever outro, mais recente; outro, ainda, a mais de metade, parece-me.
__________
Carlos Alberto Machado: Hipopótamos em Delagoa Bay. abysmo, 2013.
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16/06/2013

LEITURAS EM DIA | Jorge Aguiar Oliveira :: Homens sem soutien. Poesia 1983-1999

por cam

Jorge Aguiar Oliveira_Homens sem soutienLEITURAS EM DIA | Jorge Aguiar Oliveira :: Homens sem soutien. Poesia 1983-1999

edição do autor, 2012.

BIOMBO PARA UM APRENDIZ DE SAMURAI

I

Na lâmina do sabre

o vento.

Uma sombra pintada

na tigela com arroz,

ao lado

dum gesto brando

dos pólenes do amanhecer.

Entre bambus um beija-flor

leva no bico um vidrinho

de saudade.

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16/06/2013

LEITURAS EM DIA | Nuno Dempster :: Uma paisagem na web

por cam

Nuno Dempster_Uma paisagem na webLEITURAS EM DIA | Nuno Dempster :: Uma paisagem na web

& etc, 2013

 

[…]

Eu tenho da nação ideias desmembradas,

comungo do ranger de dentes

com os vizinhos,

comungo de açularem

os perros uns contra outros,

Continuar a ler

11/06/2013

Nuno Ramos de Almeida sobre o Hipopótamos

por cam

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08/05/2013

Hipopótamos em Delagoa Bay

por cam

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01/05/2013

Ainda o Registo Civil

por cam

Registo Civil reúne os cinco livros de poemas publicados por Carlos Alberto Machado (Mundo de Aventuras, 2000; Ventilador, 2000; Mito, seguido de Palavras Gravadas na Calçada, 2001; A Realidade Inclinada, 2003; e Talismã, 2004), bem como outros tantos conjuntos de inéditos (Na Casa de Passar as Tardes, 2003-2004; Uma Pedra Sobre o Assunto, 2003-2006; O Amor. Estudos Para uma Queda, 2004; Tríptico em Negro-Azul, 2005; e Por Isso Voltarei, 2004-2006).

Registo civil. Poesia reunida 2000-2006

Registo civil. Poesia reunida 2000-2006

Ensaísta e dramaturgo, é de algum modo tardiamente que o Autor, nascido em 1954, se estreia em 2000 a publicar poesia. Viria a ser incluído na antologia Poetas Sem Qualidades (Lisboa, Averno, 2002), organizada por Manuel de Freitas, que aí refere, a propósito dos três primeiros livros, que a poesia do Autor configura uma “proposta mínima, minuciosa e não poucas vezes contundente” (p. 113). A atenção ao quotidiano, frívolo e sem saída, o seu assumido tom menor e um “humor tão corrosivo quanto desesperado” (pp. 113-114) seriam outras das características que Freitas destaca nesta poesia.

Cada um dos dez conjuntos de poemas apresentados em Registo Civil é marcado por assinalável coesão e interligação, nalguns casos reforçadas pelo agrupamento dos textos em sequências numeradas. Textos curtos, que podem até consistir em brevíssimas anotações, convivem com o verso e o poema longo. A pontuação revela-se escassa (e essa opção de escrita lembra-nos a de Ruy Belo), facto que confere maior importância ao recorte dos versos e à trama sintáctica. Estamos perante uma poesia angulosa, feita de cortes e justaposições que exigem a atenção e a marcação do leitor.

É patente a redução da escrita a uma espécie de grau zero poético, que passa pela assunção de uma linguagem menos tensa, despida de retórica, prosaica e que foge à pureza e grau de concentração que alegadamente caracterizaria toda a poesia. O Autor reconhece ser “impuro tudo o que escrevo” (p. 155) e formula a sua alternativa nos seguintes versos: “Desconheço por onde as palavras me levam / (…) / quero desfeiteá-las uma a uma arrancar-lhes / esperanças sonhadas embebê-las em venenos / sentidos da noite onde a sua matéria se inventa” (p. 80). O que designa por renovação da palavra constitui um programa que permite reconstruir o discurso poético sobre novas bases: “O próximo passo será o da decomposição / os corpos mergulhados em ácidos novos / eis como a ideia se adapta a preceito / de uma necessária renovação da palavra” (p. 81).

A poesia deveria visar a “escrever o mundo / escrevê-lo mesmo” (p. 149). Todavia, trata-se de um “nobre ofício em desuso e por isso raro / ou raro por ser de nobreza exercê-lo / ou por ser raro o mundo / de cuja nobreza / se possa escrever / ou por isso a escrita / substitui o mundo / que já não se escreve” (p. 149). Num mundo sem referências, torna-se notória a “ausência de um ponto cardeal” (p. 205). Não existindo alternativas, reduzindo-se a vida a “adiar o fim agora tão perto” (p. 46) e não havendo “mais nada para dizer” (p. 49), confessa-se que “o segredo é não existirmos” (p. 84), para se poder resistir à falta de sentido da vida.

A relação entre a escrita e o mundo ou, se quisermos, a palavra e o real, percorre estes versos. Há uma natural precedência da realidade face à escrita, não obstante o conceito de realidade se encontrar sob suspeita, desde logo perante um título como A Realidade Inclinada, mas também em versos como estes: “a mãe desmaia provavelmente / por ficar de repente sem saber / qual é o lado real / da realidade” (p. 290). A verdade é que a poesia permite inventar e criar mundo, bastando apenas um ajustamento para alinhar dois níveis aparentemente desalinhados: “Morreste primeiro no papel /uma morte tão digna como qualquer outra / estava escrito e isso é mais forte do que tudo / foi apenas uma questão de ajustar uma coisa à outra / uma cápsula de cianeto saturada de realidade” (p. 173).

Neste contexto, há também uma desvalorização da palavra e da criação poética: as palavras reduzem-se a “excrementos da alma” (p. 155), o poeta produz “lixo” (p. 153) ou cede à tentação das “palavras amestradas / p’ra oferecer no natal / ou isso ou umas peúgas.” (p. 82). Procura-se, tenteia-se uma palavra-talismã, uma palavra com “poder mágico” (p. 215), mas reconhece-se que nos recobre a “escama estéril das palavras / a mais” (p. 217). O sujeito luta “para saber a medida / desta poesia incompleta / narrativa sentimental / que somente desejaria / não precisar de palavras / substitutos ou remendos / da matéria de um corpo / em expansão noutro corpo” (p. 228).

A memória é outro pólo estruturador desta poesia. Note-se que quando se fala em memória não se fala em recuperação ou restituição. Aliás, na memória confluem factos recordados e factos imaginados, ou seja, a memória é um processo criativo. Alguns versos são, a este propósito, reveladores: “primeiro preciso que me lembre de tudo ou de quase tudo /e que me lembre desse tudo ou quase tudo ao mesmo tempo / ou pelo menos quase ao mesmo tempo ou seja umas coisas a seguir às outras / mas não muito depressa nem demasiado devagar” (p. 95). A memória e a escrita constituem um “processo de selecção e classificação” (p. 95) de lembranças que “não sossegam não param não estão quietas não se arrumam” (p. 97) e que equivalem a “inventar vidas novas” (p. 104). A memória, através da escrita, permite fechar as “falhas” (p. 107) e torna possível continuar, reinventando a cada dia o mundo, regenerando o que dele sobra da infância: “não me lembro de mais nada ou não há mais nada de que me lembrar / lembrar ou esquecer não significa apagar o passado dominá-lo / mas tornar possível não ter medo de o viver reinventando-o a todo o momento” (p. 107). É esta a lição, o “mito fundador” (p. 107) contido em Mito, o longo poema que o sujeito dirige à filha. Mas já em Livro de Aventuras, a primeira obra do Autor, assistimos também ao exercício da memória, ao “regresso a casa” (p. 9). O que se obtém nessa revisitação pode reduzir-se a “duas ou três / palavras / que falam / de uma luz / pequenina / escondida / num canto / da infância” (p. 22). A derrota é um dado, à partida. A decepção e o desânimo e o sabor amargo da vida impõem-se desde a infância: “Provei o sabor das azedas / (no campo de cebolas das competições de punhetas) / cedo demais” (p. 26); “No Inverno as chuvas queimam os rebentos / as raízes apodrecem sob os detritos e a Primavera / esconde de nós todos os anos a morte que vem” (p. 27). A abjecção e o grotesco, um universo expressionista estão patentes em numerosas passagens, nalgumas das quais nos recordamos de versos de Gotfried Benn: “Os dois ratinhos brancos / oferta do avô Domingos / decidiram passar férias / no meio de esfomeados / irmãos cinzentos felizes / por mudarem de dieta.” (p. 12)

No último conjunto, Por Isso Voltarei, há o deslocamento do espaço urbano para o território insular dos Açores. Os poemas assumem um pendor descritivo e um tom vagamente etnográfico, mas são sobretudo marcas de aprendizagem pessoal e do estabelecimento de um compromisso existencial e ético: “Um homem no alto da rocha do canto da baía / ocupa-se a inventar palavra a palavra uma ilha / tão bem inventada como qualquer outra ilha (p. 333). O “senhor manuel alves” é o principal destinatário da promessa de voltar formulada pelo sujeito e que no último poema verificamos encontrar-se cumprida: “o segredo que quero desvendar não é o da sua aguardente / por isso prometo que hei-de voltar” (p. 328); “Voltei senhor manuel alves voltei / e o senhor deu-me a honra / de dizer sim ao meu atrevimento / (…) / as minhas palavras escritas lêem-nas / os seus olhos inteiramente também / por isso voltarei sempre senhor” (p. 344). É neste tom afirmativo, de permanente recomeço, que o livro se encerra. São esboçadas as primeiras linhas de “uma teoria geral do enfado” (p. 335), mas há garantidamente maior arte na reivindicação da capacidade de inventar o mundo na desfocagem inerente a toda a poesia: “melhor assim entretanto treinarmos a outra / arte a de inventarmos os outros e a nós / com os nossos olhos míopes / oleiros do mundo” (p. 343).

José Ricardo Nunes sobre REGISTO CIVIL – poesia reunida (2000-2006), Lisboa, Assírio & Alvim, 2009. Revista Colóquio/Letras, 2010

23/04/2013

Novas Dramatugias en Português

por cam

Por estes dias chegou-me (com a ajuda simpática do Jorge Palinhos), o nº 7 da Revista Galega NÚA (Novas Dramatugias en Portugués), realizada pelos editores Jorge Palinhos, Julio Fernández e Zaida Gómez, com os autores: Maria Gil, Carlos Alberto Machado, Fernando Giestas, Ângela Carvalho Lopes, Cláudia Lucas Chéu, Luís Roberto Amabile, Isabel Fernandes Pinto, Luís Mestre, Helder Wasterlain, Diones Camargo, Hudson Andrade e Pedro Eiras.

NUAS 7Sou suspeito, é verdade, mas acho que vale a pena lê-la.

 

19/04/2013

AUSTEN, PRIDE

por cam

AUSTEN, PRIDE – Orgulho e Preconceito, de Jane Austen publicou-se há 200 anos. Serviu de base a filmes melosos e a replicações de mau gosto, popularuchas, etc. Mas eu gosto de ler esta romântica inglesa. Gosto da maldade absurda de Mr. Bennet, gosto da mais despudorada mudança de humores de Mrs. Bennet (é impagável a sua mudança para com Darcy, quando sabe que a sua Lizzy o vai desposar), gosto da impossibilidade existencial deste mesmo Darcy e da fogosidade e da rebeldia de Lizzy, gosto da má educação aristocrática de Lady Catherine e da racionalidade de quase todas as personagens, mesmo quando uma delas parece que tem a sensibilidade à flor da pela, como Mrs. Bennet. E gosto de aprender sobre a economia romanesca, sobre a rapidez dos diálogos, sobre o balancear dos ritmos; gosto de ver como se escreve umas trezentas páginas sem o pechisbeque das descrições inúteis, gosto de ver como a autora subtilmente se esconde. E, acima de tudo, gosto de ver como é possível um romance onde se cruzam histórias de amor, ser tão pervertidamente baseado no dinheiro: os dotes, as rendas, não largam as personagens.
É possível juntar na mesma estante as obras, como esta, que acreditam na literatura e no romance, com as outras, as que desacreditam na primeira e desconstroem o segundo? Parece-me que sim.

16/04/2013

EDUCAÇÃO (Hanna Arendt)

por cam

EDUCAÇÃO – Hanna Arendt considera que a educação diz respeito a todos e que não pode ser em exclusivo confiada à pedagogia porque depende de um facto inquestionável e fundamental: «o facto de que todos chegamos ao mundo pelo nascimento e que é pelo nascimento que este mundo constantemente se renova. A educação é assim é o ponto em que se decide se se ama suficientemente o mundo para assumir responsabilidade por ele e, mais ainda, para o salvar da ruína que seria inevitável sem a renovação, sem a chegada dos novos e dos jovens. A educação é também o lugar em que se decide se se amam suficientemente as nossas crianças para não as expulsar do nosso mundo deixando-as entregues a si próprias, para não lhes retirar a possibilidade de realizar qualquer coisa de novo, qualquer coisa que não tínhamos previsto, para, ao invés, antecipadamente as preparar para a tarefa de renovação de um mundo comum.» O texto é de 1957, traduzido para português por José Miguel Silva («Entre o passado e o futuro. Oito exercícios sobre o pensamento político», Lisboa, Relógio D’Água, 2006). Actual.

16/04/2013

LÉVIN, TOLSTOI

por cam

Anna Karénina, de Lev Tolstoi, não dispensa quem o lê de ficar marcado pela relação do par Anna/Vronski – e, é claro, pela complexa rede de incidências socioculturais, etc; e também, evidentemente, se deixarmos por um momento de lado as questões de natureza literária, o (árduo) ofício literário de Tolstoi. Mas eu fascino-me sempre com aquele que, de algum modo, segundo Nabokov, «mais do que em qualquer outra personagem Tolstoi se retratou»: Lévin. A luta consigo próprio, com a natureza, com o trabalho (e o fascínio) da terra, a sua corporalidade (fisicalidade teatral), a par das intensas descrições do “campo”, a sua permanente questionação de si mesmo, dos fundamentos da vida ser como é e ele de nela estar, o medo da morte e finalmente a reconciliação, tolstoiviana. Lévin é «um homem de ideias morais, de Consciência com C maiúsculo.»; um símbolo dos ideais religiosos que animavam Tolstoi. A par disto, o desenlace, que agradava a Tolstoi, do «casamento perfeito» de Lévin (com Kiti). Ou não fosse também o romance o esplêndido desenvolvimento da sua primeira frase: «Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família é infeliz à sua maneira.»

14/04/2013

Nævus

por cam

BAIÃO, ABYSMO – Gosto de livros também como objectos de arte. Muitas vezes um livro que me chega às mãos é olhado demoradamente, cheirado, acariciado, folheado de trás para a frente e de frente para trás. Depois repousa, antes de se deixar ler – o prazer final. Foi (é) assim com Nævus, do poeta Rui Baião (editora Abysmo, 2013. Gravura de Thierry Simões. Edição de 250 exemplares, numerados e assinados pelos autores. Venda exclusiva online).

«Pouco importa a ruína dos dias, / resinas, um nojo a vapor; / essas coisas tão botânicas… // De nada servem palavras / atadas a ferros, frases sem cal / ardida, páginas e páginas / de gritos à descoberta / de melhor medo.»

14/04/2013

Paisagem e Povoamento

por cam

Durante anos e anos li as palavras que Carlos de Oliveira juntou e burilou em Finisterra – Paisagem e Povoamento (Lisboa, Sá da Costa, 1978); volto sempre a elas porque são primeiras, fundadoras. Como estas:
«Traços densos sulcam o papel, tão unidos que formam uma pasta de espessura sem falhas. Cristais microscópicos de lápis faíscam, dão à superfície negra o fulgor de certos minérios. Corpos compactos, do mesmo tamanho (refiro-me aos camponeses). Gestos dum ritual perto do fim: braços que pendem, para equilibrar a marcha, pernas flectidas torneando os rochedos, dificilmente, a caminho da água.» [p.17]
«Às vezes limpo o estojo de pirogravura: mas, no metal tão estalado, a ferrugem reaparece em poucos dias e progride pelas ranhuras como o desenho duma raiz. Além disso, rasgou-se o fole de borracha: só respira cobrindo-lhe o rasgão com a ponta do dedo (se falta ar ao estilete incandescente, o fogo morre por si mesmo e o trabalho é impossível). Preocupações aliás inúteis: não me sirvo do estojo há muito (desisti de perseguir a realidade ou, melhor, cansei-me).» [p.105]
Este livro de Carlos de Oliveira poderia ter como epígrafe este excerto de Simone de Beauvoir: «Os factos não determinam a sua expressão, não ditam nada: o que os relata descobre o que tem a dizer, pelo acto de dizer.» [Balanço Final, Lisboa, Bertrand, pp.87-88].

14/04/2013

Na parte de trás do real

por cam

Quando tinha 19 ou 20 anos poucos poetas me faziam companhia. Lawrence Ferlinghetti e Allen Ginsberg faziam parte dos “eleitos” (traduzidos por José Palla e Carmo, na célebre colecção Cadernos de Poesia, da Dom Quixote). Há dias, um desconhecido facebookiano voltou a levar-me para boas companhias.

Na parte de trás do real

Na parte de trás do real
Largo da estação de San José
vagueava acabrunhado
perto de uma fábrica de tanques
e sentei-me num banco
ao pé da guarita do agulheiro.

Uma flor jazia no feno que jazia
no asfalto da auto-estrada
– a temida flor do feno,
pensei eu. Tinha um caule
negro quebradiço e uma
corola de picos sujos
amarelados – picos longos como
os da coroa de Jesus -, e no centro
um sujo tufo de algodão
como um pincel de barba usado
guardado no meio de coisas velhas
na garage há mais de um ano.

Flor, flor amarela, e
flor da indústria também,
flor forte agreste e feia,
mas flor de qualquer modo,
com a forma da grande rosa
amarela do teu cérebro!
Esta é que é a flor do Mundo.

Allen Ginsberg, do volume Howl and other poems, em Uivo, trad. José Palla e Carmo, Lisboa, col. Cadernos de Poesia, Dom Quixote, 1973 (p.41).

14/04/2013

Uso e gasto

por cam

Boneco InezHá uns anos, a minha filha, ainda criança, fez-me ver a diferença entre uso e gasto: a propósito da sua diferente manipulação de um clip e de um agrafo.

08/03/2013

O território da memória

por cam

As palavras de R. Lino em “Paisagens de Além Tejo” (1) podem ser lidas como uma «visão do mundo colhida do interior do ser», uma «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)» (2).

R Lino_paisagens de alem tejo Se o termo não tivesse colado a si tantas interpretações equívocas, diria que se trata de uma etnografia, porque esta é uma poesia que se coloca deliberadamente no terreno, permitindo que ele a questione, mas, ao mesmo tempo, questionando-se: uma etnografia intensa em que os resultados são filtrados pelo ser da poeta (o «interior do ser»), que está na paisagem em dois tempos diferentes: o de «[…] um tecto, uma cadeira, um corpo / que se imprevista, uma estrada mais vereda…» (poema “1” de “um círculo”), ou o da memória que indaga, revela e transfigura as “paisagens”, a sua «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)»: «[…] há paisagens que prevalecem: / umas sobre as outras / na voz vária que as apresenta» (poema “14” de “outro círculo”). No poema, dá-se a união da matéria da terra (a paisagem, em sentido amplo) com a matéria do dizer, em mútua interrogação e contaminação (a memória não é a única “máquina” transformadora da paisagem). E também embate: como se o poema resistisse ao poema, isto é, ao processo de metamorfose de uma paisagem em outra paisagem – «Tenho de construir hoje esta planície.» (poema “7” de “um círculo”) –, em que a mínima perda é um passo perdido ou ferida insanável. «Percebo agora essa febre: / pouco mais me segura. / O sacrifício às palavras / é um exercício voraz / em que portos se procuram. / Escreve-se; escreve-se a tinta / sobre um tempo que dirá… / É um exercício voraz / tornado próprio em seu destino.» (poema “3” de “um círculo”). «De que texto somos as variantes?» (poema “4”, ibid.)
 A poesia de R. Lino neste tão singular livro é intensa; dizendo de outra maneira: concentra poderosamente a força e a violência que advêm da “geografia” e do esgaçar da memória, numa serena e delicada mutação em palavras – implodem e espalham a sua força pelo interior, sem o estrondear do definitivo (mortal).
Com cada livro de poemas, aprende-se de novo a respirar (como a um corpo amante): e é o prazer de dizer o poema como nosso, deixar de existir entre a sua respiração e a nossa qualquer diferença – ler assim, por exemplo: «Também gosto de saber / incontáveis pormenores: reproduzir o silêncio / com toda a gente lá dentro. / […] Às vezes enjoam-me um pouco / os gestos enumerados, os sítios das horas passadas / numa intempestiva ocupação dos corpos.» (poema “11”, ibid.)

Notas

(1) O livro é de 1986, das edições Rolim, col. Ilhas, com ilustrações de Graça Pereira Coutinho.

(2) O poeta Jorge Fazenda Lourenço escreveu sobre “Paisagens de Além Tejo”, de R. Lino, no Cartaz do Expresso (21 de Fevereiro de 1987): são dele as expressões «visão do mundo colhida do interior do ser» e «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)».

Declaração de interesse: publiquei na colecção “azulcobalto” que dirijo na Companhia das Ilhas, um livro de R. Lino, “Baixo-Relevo, em Fevereiro deste ano.

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