Posts tagged ‘Vasco Teixeira’

11/05/2012

VIAJAR DE SI PARA SI

por cam

O senhor Vasco Teixeira, “patrão” da Porto Editora, afirmou numa entrevista (ao jornal Público, em Novembro de 2010, salvo erro): “Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, eu dir-lhe-ei que não. Quando muito teremos algumas edições artesanais. (…) E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares, que os amantes de poesia comprarão.” Deve ter sido para “acabar de vez” com a poesia que o sôr Teixeira comprou, entre outras editoras, a Assírio & Alvim. Também deve ter sido por estas e por outras malandrices que surgem cada vez mais “edições artesanais” de poesia. Boas. Não sei se todas fazem edições de apenas “30 ou 50 exemplares”, mas o sôr Teixeira terá razão quando diz que “que os amantes de poesia [os] comprarão”. Longa vida ao camarada Teixeira! (sem poesia vive-se mais tempo, pensará ele e os que o apoiam…). Viva! Pum!

“Capitais”, livro de poemas de Paulo Tavares, foi editado este ano pela Artefacto (não está impresso o nome mas foi mesmo assim que eles quiseram), pequena editora sediada na Guilherme Cossoul, em Lisboa, antiga e veneranda sociedade recreativa de bairro que muito e bom teatro nela fez nascer. A tiragem é de 200 exemplares (‘tá a ver, sôr Teixeira, ainda está longe a sua metazinha de apenas “30 ou 50 exemplares”…) Para “os amantes de poesia”, já se vê (seremos assim tão poucos?).

O viajante por capitais da velha Europa tem “guardada num / minúsculo compartimento, a terra natal, / o país onde o mar se transformou / num mausoléu para adoração à distância / e as margens em ancoradouros balneares.” Na viagem, mesmo que ela esteja longe de ser a romântica viagem de educação (sentimental e outra, mas sempre iniciática, como todas as viagens são, e as que se fazem ao interior de nós mesmos não são excepção), há uma “sobreposição dos elementos: / história, ficção e tudo o que lá cabe.” Numa das paragens, o viajante abre “o quarto a um obsessivo foco / de luz cartesiano: estou vivo, existo, / e a realidade surge, tantas vezes, como / um aspecto secundário a essa constatação.” Mas pode hesitar nesta constatação: “quem nos dá, / afinal, classificação negativa / na competência de estar vivo?” Na exposição à viagem (viajar é algo a que nos expomos, saber até onde aguentamos a fuga – de nós e dos outros – em simulacros de aproximação ao outro, ao outro de nós), sob o efeito de um “copo cheio / de álcool nórdico” acontece também ao viajante apanhar um soco “sem defesa e logo um pontapé / se vem alojar entre as vértebras”; “a dor mais funda, porém, /será sempre de outra ordem: / rasurar da memória o motivo / da porrada e a face oculta de / quem nos apanha desprevenidos.”

Viaja-se entre “estruturas de penumbra”, as ruas a servir “os referenciais do esquecimento / que crescem nos poros / das grandes estruturas vivas.” – as Cidades. E nós nelas.

A poesia é (também) isto: viajar por entre as palavras, tão inseguros como numa viagem para o desconhecido. Que é sempre.

(coisa que o sôr Teixeira nunca descobrirá – também não lhe interessa).

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27/08/2011

“PROTOCOLO DE COLABORAÇÃO”

por cam

O “protocolo de colaboração” celebrado no final da semana passada entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora pode ser uma benéfica operação, mas revela publicamente uma verdade terrível: que uma editora não consegue hoje sobreviver pelos seus próprios meios se o núcleo central do seu catálogo é a literatura portuguesa – mesmo que seja uma parte razoável do cânone do século XX. Pensar que o famigerado mercado ameaça de extinção os livros de Fernando Pessoa, é pura e simplesmente obsceno. E chegou-se a este estado de catástrofe sem grandes resistências nem gritos de alarme, como se o que aconteceu e continua em curso não fosse um desastre obscuro. Pelo contrário, aqueles que foram traçando, desde há muito tempo, um estado negro do estado da situação fizeram figura de figuras agoirentas. E, no entanto, basta hoje entrar nas livrarias – e, com maioria de razão, se entrarmos com o objectivo de procurar um livro que escapa ao mainstream editorial e das “novidades” – para perceber que elas repousam hoje sobre um crime. Ou melhor: sobre uma cadeia de crimes perpetrados com a colaboração (nem sempre consciente dos seus efeitos nefastos) de muita gente e de muitas instâncias. A partir de certa altura, o caminho único e coercivo revelou-se sem alternativas – há apernas um pequeníssimo espaço para alguns devaneios de gente freak e diletante, como aliás reconhecia, numa entrevista, há menos de um ano, Vasco Teixeira, responsável editorial da Porto Editora: “Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, dir-lhe-ei que não. Quando muito, teremos algumas edições artesanais (…). E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares que os amantes de poesia comprarão.” Esperemos que o poderoso assinante do “protocolo de colaboração” não se aplique agora, que tem ainda mais poder para isso, na realização da sua profecia.
António Guerreiro, “Ao pé da letra”, in Expresso/Actual, 27 de Agosto de 2011, com a devida vénia [destaques meus].

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