Archive for ‘R. Lino’

08/03/2013

O território da memória

por cam

As palavras de R. Lino em “Paisagens de Além Tejo” (1) podem ser lidas como uma «visão do mundo colhida do interior do ser», uma «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)» (2).

R Lino_paisagens de alem tejo Se o termo não tivesse colado a si tantas interpretações equívocas, diria que se trata de uma etnografia, porque esta é uma poesia que se coloca deliberadamente no terreno, permitindo que ele a questione, mas, ao mesmo tempo, questionando-se: uma etnografia intensa em que os resultados são filtrados pelo ser da poeta (o «interior do ser»), que está na paisagem em dois tempos diferentes: o de «[…] um tecto, uma cadeira, um corpo / que se imprevista, uma estrada mais vereda…» (poema “1” de “um círculo”), ou o da memória que indaga, revela e transfigura as “paisagens”, a sua «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)»: «[…] há paisagens que prevalecem: / umas sobre as outras / na voz vária que as apresenta» (poema “14” de “outro círculo”). No poema, dá-se a união da matéria da terra (a paisagem, em sentido amplo) com a matéria do dizer, em mútua interrogação e contaminação (a memória não é a única “máquina” transformadora da paisagem). E também embate: como se o poema resistisse ao poema, isto é, ao processo de metamorfose de uma paisagem em outra paisagem – «Tenho de construir hoje esta planície.» (poema “7” de “um círculo”) –, em que a mínima perda é um passo perdido ou ferida insanável. «Percebo agora essa febre: / pouco mais me segura. / O sacrifício às palavras / é um exercício voraz / em que portos se procuram. / Escreve-se; escreve-se a tinta / sobre um tempo que dirá… / É um exercício voraz / tornado próprio em seu destino.» (poema “3” de “um círculo”). «De que texto somos as variantes?» (poema “4”, ibid.)
 A poesia de R. Lino neste tão singular livro é intensa; dizendo de outra maneira: concentra poderosamente a força e a violência que advêm da “geografia” e do esgaçar da memória, numa serena e delicada mutação em palavras – implodem e espalham a sua força pelo interior, sem o estrondear do definitivo (mortal).
Com cada livro de poemas, aprende-se de novo a respirar (como a um corpo amante): e é o prazer de dizer o poema como nosso, deixar de existir entre a sua respiração e a nossa qualquer diferença – ler assim, por exemplo: «Também gosto de saber / incontáveis pormenores: reproduzir o silêncio / com toda a gente lá dentro. / […] Às vezes enjoam-me um pouco / os gestos enumerados, os sítios das horas passadas / numa intempestiva ocupação dos corpos.» (poema “11”, ibid.)

Notas

(1) O livro é de 1986, das edições Rolim, col. Ilhas, com ilustrações de Graça Pereira Coutinho.

(2) O poeta Jorge Fazenda Lourenço escreveu sobre “Paisagens de Além Tejo”, de R. Lino, no Cartaz do Expresso (21 de Fevereiro de 1987): são dele as expressões «visão do mundo colhida do interior do ser» e «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)».

Declaração de interesse: publiquei na colecção “azulcobalto” que dirijo na Companhia das Ilhas, um livro de R. Lino, “Baixo-Relevo, em Fevereiro deste ano.

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14/12/2012

10 + 10 de 2012

por cam

Neste ano que está quase a acabar li umas boas dezenas de livros, embora a maior parte deles editados em outros anos. Para partilhar, mas também para minha própria memória, eia uma lista de livros que mais me tocaram (excluo os 11 livros editados na Companhia das Ilhas): 10 de 2012 e 10 de outros anos, mas lidos, relidos, em 2012 (ordem alfabética de nome de autor).

» 10 de 2012

Fraga da Silva, A besta, Direcção Regional de Cultura dos Açores (novela)

Inês Fonseca Santos, As coisas, abysmo (poesia)

Inês Lourenço, Câmara escura, Língua Morta (poesia)

Miguel-Manso, Um lugar a menos, ed. autor (poesia)

Nuno Dempster, Elegias de Cronos, artefacto (poesia)

Nuno Moura, Prémio Nacional de Poesia, MiaSoave (poesia)

Primo Levi e Tullio Regge, Diálogo sobre a ciência e os homens, Gradiva (ensaio em forma de conversa?)

R. Lino, Predação: urânia, nós e as musas, ed. autora (poesia)

Rui Almeida, Caderno de Milfontes, Volta d’Mar (poesia)

Valério Romão, Autismo, abysmo (romance)

 » 10 de outros anos

Camilo Castelo Branco, Mistérios de Lisboa (romance)

Charles Dickens, Os Cadernos de Pickwick (romance)

Claudio Magris, Danúbio (romance, livro de viagem, ensaio…)

David Lodge, A consciência e o romance (ensaio)

Eduarda Dionísio, As histórias não têm fim, Cotovia (romance)

Helder Moura Pereira, Se as coisas não fossem o que são (poesia)

João Miguel Fernandes Jorge, Lagoeiros (poesia)

João Paulo Cotrim e António Cabrita com ilustrações João Fazenda, O branco das sombras chinesas, abysmo (novela)

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa (poesia)

Rui Tavares, O grande terramoto (história)

02/11/2012

COMO CALAR? COMO DIZER?

por cam

Nos idos de 1987 R. Lino foi antologiada na Sião – organizada por Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, e editada pela frenesi – quatro poemas entre as páginas 178 e 180. A encabeçar os poemas, uma breve nota onde se informa os leitores que a poeta nasceu em Évora, em 1952, e tinha até então publicado três livros de poemas. Há dias, um amigo enviou-me : Predação : Urânia, nós e as musas, edição da autora, 2012. Pouco mais se diz dela na nota biográfica: um livro acrescentado aos outros, participações em revistas e antologias e uma meia dúzia de conjuntos de poemas por publicar. E que vive em Lisboa. Muitos dos antologiados em Sião não chegaram a ter poemas em livro, uns “desapareceram” de circulação” (mortos ou vivos) outros andam arredados das editoras mainstream de poesia (que las hay) e até das de “margem”. Na escrita portuguesa (poesia, ficção, ensaio & etc.) cavam-se permanentemente fossos entre os “velhos” e os “novos”, ao mesmo tempo que se montam panegíricos dos novos heróis, os novos génios que rapidamente são substituídos por outros. É uma espécie de “besteselerização” “pronta-a-deitar-fora”. Os mortos ou ignorados (ou ambas as coisas) amontoam-se em camadas de esquecimento. Na praça pública, o povo, unido, grita por cultura, que a não há e devia haver. Pois.

Venho dizendo por aqui que crítico é que não sou, embora lá vá descabelando palavras sobre os outros de quem gosto – espero que me perdoem, ou melhor, como não sou cristão, que esqueçam o que escrevo.

Em : Predação : “cruzam-se vozes dramáticas” – é a poeta que o diz nas “breves palavras” no final do livro. É verdade: no dialogismo (“jogos de réplicas”), no esboçar de figuras teatrais, nos “movimentos de esbatidas ou sobrepostas alteridades”, também na introdução de um coro. E há igualmente uma determinada performatividade, no sentido em que as palavras não estão lá “em vez de”, pelo contrário, o seu “sentido” constrói-se nas acções que elas mesmas implicam, no “actuar” mais do que no “representar”. Não é somente assim, claro, mas muito do que está escrito parece-me assim.

Cada poeta desenha um mundo próprio, com arcos, túneis, horizontes e hipóteses de luz para que dele nos abeiremos, não digo entrar, mas permanecer o maior tempo possível no instável espaço liminar que nos faz simultaneamente ser e não ser (ele, nós, o poema). Também poderia dizer: cada poeta se curva sobre si mesmo na igual medida em que desafia o outro supostamente dialogante. Ou ainda: que o poeta é a modulação do outro em si e o arco reflexo que vai de si para o outro. Como seja. A verdade é que é apenas com palavras que conseguimos aproximar-nos (predadores?) do outro, que é feito de palavras, o poeta – como se ele as pudesse escrever em nós, para nós. Podemos ficar aqui, nesta ilusão?

A poesia de R. Lino é de uma intensidade pouco habitual entre nós: provoca a queda, a perda, a falha. Por isso, não será de espantar que termine exactamente assim: “olhemos, agora, à nossa volta / e perguntemos:”

Aceito o desafio.

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