Archive for ‘Nuno Dempster’

16/06/2013

LEITURAS EM DIA | Nuno Dempster :: Uma paisagem na web

por cam

Nuno Dempster_Uma paisagem na webLEITURAS EM DIA | Nuno Dempster :: Uma paisagem na web

& etc, 2013

 

[…]

Eu tenho da nação ideias desmembradas,

comungo do ranger de dentes

com os vizinhos,

comungo de açularem

os perros uns contra outros,

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14/12/2012

10 + 10 de 2012

por cam

Neste ano que está quase a acabar li umas boas dezenas de livros, embora a maior parte deles editados em outros anos. Para partilhar, mas também para minha própria memória, eia uma lista de livros que mais me tocaram (excluo os 11 livros editados na Companhia das Ilhas): 10 de 2012 e 10 de outros anos, mas lidos, relidos, em 2012 (ordem alfabética de nome de autor).

» 10 de 2012

Fraga da Silva, A besta, Direcção Regional de Cultura dos Açores (novela)

Inês Fonseca Santos, As coisas, abysmo (poesia)

Inês Lourenço, Câmara escura, Língua Morta (poesia)

Miguel-Manso, Um lugar a menos, ed. autor (poesia)

Nuno Dempster, Elegias de Cronos, artefacto (poesia)

Nuno Moura, Prémio Nacional de Poesia, MiaSoave (poesia)

Primo Levi e Tullio Regge, Diálogo sobre a ciência e os homens, Gradiva (ensaio em forma de conversa?)

R. Lino, Predação: urânia, nós e as musas, ed. autora (poesia)

Rui Almeida, Caderno de Milfontes, Volta d’Mar (poesia)

Valério Romão, Autismo, abysmo (romance)

 » 10 de outros anos

Camilo Castelo Branco, Mistérios de Lisboa (romance)

Charles Dickens, Os Cadernos de Pickwick (romance)

Claudio Magris, Danúbio (romance, livro de viagem, ensaio…)

David Lodge, A consciência e o romance (ensaio)

Eduarda Dionísio, As histórias não têm fim, Cotovia (romance)

Helder Moura Pereira, Se as coisas não fossem o que são (poesia)

João Miguel Fernandes Jorge, Lagoeiros (poesia)

João Paulo Cotrim e António Cabrita com ilustrações João Fazenda, O branco das sombras chinesas, abysmo (novela)

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa (poesia)

Rui Tavares, O grande terramoto (história)

07/09/2012

SE AO MENOS A POESIA

por cam

Nuno Dempster (Ponta Delgada, 1944) é um poeta com quem faço caminho. Dele li Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (2011), K3 (2011), Uma Flor de Chuva (2011) e este Elegias de Cronos (Lisboa, Artefacto, 2012), a que agora me dedico. Tenho para ler ainda Londres (2010) e o volume maior Dispersão – Poesia Reunida (2008), que reúne tudo o que até essa data escreveu e não, como seria de esperar, o que editou, pois foi apenas nesse ano que publicou poemas em livro (mas originais seus apareceram antes em jornais e revistas e na Net). É um “poeta tardio” e disso ele não se arrepende, como diz na “Nota Final” de Dispersos: “(…) as escolhas que fiz foram aquelas que então me surgiram como apetecíveis e que ainda hoje me brilham na memória.” Não trago à liça este tópico por preciosismo biográfico, mas porque ele me parece bem pertinente neste último livro (mais do que nos outros lidos): a questão do passado, da memória e da necessidade que arrasta de um certo dizer, e da sua impossibilidade, e, naturalmente, a morte.

Em K3, Pedro e Inês, e Londres há, no todo de cada um deles, uma estrutura com indisfarçáveis contactos com a ficção narrativa – embora, claro, sem prescindir dos mecanismos próprios da poesia, em particular do seu ritmo e da sua sonoridade. Nestas Elegias de Cronos, embora de modo que é mais próprio a cada poema e não ao todo, essa característica não é de todo iludida, a que acresce outra, também presente nas obras citadas, que é o diálogo com o real envolvente, mesmo quando se procuram outros sentidos.

O passado (como tema), ou, precisando, o seu resgate, de que atrás falei, está bem sinalizado logo no primeiro poema (“Acaso”), afiliado com outra “presença temática”, a do desencontro amoroso, da falha: “(…) era tarde demais para eu saber / (…) e hoje penso no acaso sem remédio de cada um de nós guardar / o passado em gavetas separadas.” O poder da rememoração (de uma invenção de nós – a escrita), é porque “(…) é da brevidade que vivemos / da alegria que o instante gera / e deixa na memória”; no entanto, é longo “o hiato / em que nada regressa / e a memória se ausenta / e nos faz escrever sem objecto.” (“Chuva”) Num dos poemas mais fortes, “Imagem”, quase no fim do livro, num diálogo que o poeta aqui e ali mantém com uma não nomeada mulher, diz-lhe “Decerto não recordas que os poemas / emanam da memória: / é daí que a luz nasce / e as palavras se mudam em imagens / como na do teu rosto agora (…) // como é belo o teu rosto (…) // Já morríamos, quando um dia / me respondeste: «Não é isso / que o espelho me revela.» / E agora, que farei com essa imagem / a brilhar-me nos olhos? Elegias?” Sim, estas, provavelmente. Mas, no poema seguinte (“Quando os dias são acenos”), se possa desdizer (ou talvez não…): “Se ao menos a poesia fosse feita / de imagens tácteis, / se os meus olhos pudessem afagar / com a ponta dos dedos / a copa do pinheiro manso / como se fosses tu (…).

A morte, como veste bem à poesia, não por morbidez, mas porque, afinal, de que outra coisa é possível falar?, está em muitas destas elegias do tempo, como nesta, lapidar (“Defesa”): “Apetece-me só dizer / a morte afinal / virá como é costume dela. / Mas sendo isso verdade, / penso na hipocrisia de querer / ignorar as escadas / por onde descerei / para a cripta dos mortos.”

06/07/2012

PORTUGAL, A SÉRIO

por cam

Em 2010 tive a oportunidade de conhecer a Escola Portuguesa de Moçambique/Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM/CELP), em Maputo. É, a vários títulos, uma escola exemplar. Instalações amplas, arejadas e plenamente adequadas à sua missão de acolher e ensinar crianças e jovens na língua e cultura dos seus pais (ou daqueles que a elegeram com sua ou desejam que seja a dos seus descendentes). Portuguesa e moçambicana, sem sótãos de preconceitos – defendendo-se deles, que teimam em nunca acabar. Por lá fiz uma oficina de escrita do texto teatral, com um tema quente: a recente greve geral de 1 de Setembro contra o aumento do custo dos bens essenciais, com vários mortos e feridos entre o povo do “caniço”. Mas isto é outra estória, agora vou à dos livros.

Desta Escola têm saído, desde 2007, salvo erro, as caixas Acácia: em cada uma delas, quatro pequenos livros, com10,5x15cm, umas quarenta páginas, por vezes menos, por vezes um pouco mais, agrafados e colocados na caixa de cartolina. A Acácia tem direcção editorial do António Cabrita e coordenação da Teresa Noronha (EPM/CELP). É um projecto editorial deveras singular, desde logo por vir de uma instituição oficial (que em regra são pouco receptivas à erupção da literatura que não consta dos manuais do Ministério). O casal António/Teresa aposta na diversidade linguística, cultural, geracional. Vale a pena espreitar alguns exemplos: da pátria moçambicana, Armando Artur (nascido em 1962), Guilherme Ismael (1949-1994), João Paulo Borges Coelho (1955), Virgílio de Lemos (1929), Fernando Chiluvane (1982-2005); da pátria lusa, Carlos Alberto Machado, João Manuel Ribeiro, Matilde Ferreira Neves, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Vergílio Alberto Vieira; do Brasil, Hilda Hilst, Nicodemos Sena, Renato Suttana; e ainda uma antologia de poesia de Charles Baudelaire, Pierre Reverdy, Giuseppe Ungaretti e Roberto Juarroz (refiro-me apenas às 4 caixas que tenho, das 7 publicadas).  

O diálogo intercultural e a lusofonia, que empapam tantas gargantas e quase nada concretizam, têm aqui um belíssimo exemplo a seguir. Fazer “lá”, mas também “cá”, transverter, miscigenar mas também singularizar, misturar mas também saber distinguir, porque, justamente, não somos todos iguais (ainda bem), somos diferentes e criamos os espaços de tolerância e generosidade que podem (ou não, nada obriga) criar, alargar espaços de mesmidade – que não servem, aliás, se não para fortalecer a alteridade.

Seja como for, estas precárias caixas Acácia brilham no “cimento” de Maputo, por vezes explodem, criam embaraços e engulhos, mas também acetinam mãos ásperas, limpam olhos com as águas tépidas do Índico. Eh pá, só dizes isso por amizade. É verdade – mas não é a verdade toda.

Saudades de Maputo…

13/04/2012

UM POEMA DE GUERRA

por cam

K3 foi, respigo de vários sítios Web, durante a guerra colonial portuguesa na Guiné, um aquartelamento situado a três quilómetros da margem esquerda do rio Cacheu, para guarnecer o destacamento e para proteger, de um ponto de vista colonial, a respectiva população, perto da tabanca de Saliquinhedim, no centro do muito célebre, na altura, triângulo da morte (povoações do Olossato, Bissorã e Mansabá).

K3 é o título de um longo poema (56 páginas) de Nuno Dempster (Ponta Delgada, 1944), editado pela & etc em Janeiro de 2011.

O poema foi «escrito / numa noite anormal de Junho, / encharcada de vento e chuva fria, / do ano dois mil e dez,». Tudo o que se possa dizer deste livro-poema passa inevitavelmente pelos significados da guerra, desta guerra tão especial, e pelos papéis que o autor-narrador nela teve, ele que se viu nela a «representar com este negros / o papel dos antigos marinheiros, / eu, que trouxe Stan Getz para o mato, / um gira-discos a pilhas / e os livros de Pavese.», e tem ainda: «digo hoje no poema» (…) Não vou ficar aqui, / não vou morrer, / era a minha certeza, escrevo agora.». O livro-poema de Dempster é também uma narrativa daquele tempo da «contradição maior» que era «caminhar no fio da loucura» onde e quando «Voltar ou não voltar, // morrer ou não morrer, tanto fazia.» Falar deste livro-poema é também, claro, falar das suas qualidades específicas, como seja, o registo do horror, da animalidade, da brutalidade, do sem-sentido daquela guerra e dos seus actos, numa linguagem que encontra no seu despojamento, no seu estar-lá-então e no aqui-agora, o ponto exacto da tensão entre a referencialidade exacta e a reescrita da memória (que não é apenas daquela guerra, mas também da sua infância, das relações, da música), «até que no poema eu tente / a redenção, / ou o vírus da morte / vá destruindo as células / e não haja memória.» Mas conseguir a tensão entre o dito e o não-dito ou o dito-de-outro-modo («Os olhos transmudavam a semântica / do real em imagens / que o presente esgotava, (…)», à beira do impossível, é o notável mérito deste grande poema-livro. O que leva a ser este modesto exercício de leitura uma coisa evitável. Mesmo assim.

Há em K3 (1) inúmeras “falas” (2) que expressam a dificuldade do dizer poético no confronto com o real (não apenas da guerra), ao mesmo tempo que é alerta para uma possibilidade de aderência do leitor que o deixe em demasia preso ao fluir da narrativa. A poesia é coisa débil, «Os versos serão sempre / mais do que os mortos / e têm vida curta, /», e não há escapatória, é com os versos e sobre os versos que o poeta-soldado navega e se faz, «até o futuro, / que era então esta estrofe, / escrita lentamente sobre / o desembarque em terra alheia,/». «Ah, o poema (…) / não é um hospício onde a droga / se embrenhe nas palavras / e as solte em borbotões e páginas; // nem é sequer revolta póstuma, / se já foi feito tudo / e seria preciso fazê-lo outra vez, / e outra vez, e outra vez, e sempre. // O poema só pode dizer isso, //». Um poema de guerra.

(1) Que se inicia com a partida de um contingente militar do cais de Alcântara, em Lisboa, com destino à África em guerra (presumo que por volta de 1964).

(2) Há um lado performativo no poema que é um dos seus aspectos mais singulares, aspecto que se pode intimamente relacionar com a produção de imagens e “movimentos de câmara” cinematográficos.

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