Archive for ‘DOS DIAS’

19/04/2013

AUSTEN, PRIDE

por cam

AUSTEN, PRIDE – Orgulho e Preconceito, de Jane Austen publicou-se há 200 anos. Serviu de base a filmes melosos e a replicações de mau gosto, popularuchas, etc. Mas eu gosto de ler esta romântica inglesa. Gosto da maldade absurda de Mr. Bennet, gosto da mais despudorada mudança de humores de Mrs. Bennet (é impagável a sua mudança para com Darcy, quando sabe que a sua Lizzy o vai desposar), gosto da impossibilidade existencial deste mesmo Darcy e da fogosidade e da rebeldia de Lizzy, gosto da má educação aristocrática de Lady Catherine e da racionalidade de quase todas as personagens, mesmo quando uma delas parece que tem a sensibilidade à flor da pela, como Mrs. Bennet. E gosto de aprender sobre a economia romanesca, sobre a rapidez dos diálogos, sobre o balancear dos ritmos; gosto de ver como se escreve umas trezentas páginas sem o pechisbeque das descrições inúteis, gosto de ver como a autora subtilmente se esconde. E, acima de tudo, gosto de ver como é possível um romance onde se cruzam histórias de amor, ser tão pervertidamente baseado no dinheiro: os dotes, as rendas, não largam as personagens.
É possível juntar na mesma estante as obras, como esta, que acreditam na literatura e no romance, com as outras, as que desacreditam na primeira e desconstroem o segundo? Parece-me que sim.

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16/04/2013

EDUCAÇÃO (Hanna Arendt)

por cam

EDUCAÇÃO – Hanna Arendt considera que a educação diz respeito a todos e que não pode ser em exclusivo confiada à pedagogia porque depende de um facto inquestionável e fundamental: «o facto de que todos chegamos ao mundo pelo nascimento e que é pelo nascimento que este mundo constantemente se renova. A educação é assim é o ponto em que se decide se se ama suficientemente o mundo para assumir responsabilidade por ele e, mais ainda, para o salvar da ruína que seria inevitável sem a renovação, sem a chegada dos novos e dos jovens. A educação é também o lugar em que se decide se se amam suficientemente as nossas crianças para não as expulsar do nosso mundo deixando-as entregues a si próprias, para não lhes retirar a possibilidade de realizar qualquer coisa de novo, qualquer coisa que não tínhamos previsto, para, ao invés, antecipadamente as preparar para a tarefa de renovação de um mundo comum.» O texto é de 1957, traduzido para português por José Miguel Silva («Entre o passado e o futuro. Oito exercícios sobre o pensamento político», Lisboa, Relógio D’Água, 2006). Actual.

16/04/2013

LÉVIN, TOLSTOI

por cam

Anna Karénina, de Lev Tolstoi, não dispensa quem o lê de ficar marcado pela relação do par Anna/Vronski – e, é claro, pela complexa rede de incidências socioculturais, etc; e também, evidentemente, se deixarmos por um momento de lado as questões de natureza literária, o (árduo) ofício literário de Tolstoi. Mas eu fascino-me sempre com aquele que, de algum modo, segundo Nabokov, «mais do que em qualquer outra personagem Tolstoi se retratou»: Lévin. A luta consigo próprio, com a natureza, com o trabalho (e o fascínio) da terra, a sua corporalidade (fisicalidade teatral), a par das intensas descrições do “campo”, a sua permanente questionação de si mesmo, dos fundamentos da vida ser como é e ele de nela estar, o medo da morte e finalmente a reconciliação, tolstoiviana. Lévin é «um homem de ideias morais, de Consciência com C maiúsculo.»; um símbolo dos ideais religiosos que animavam Tolstoi. A par disto, o desenlace, que agradava a Tolstoi, do «casamento perfeito» de Lévin (com Kiti). Ou não fosse também o romance o esplêndido desenvolvimento da sua primeira frase: «Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família é infeliz à sua maneira.»

14/04/2013

Uso e gasto

por cam

Boneco InezHá uns anos, a minha filha, ainda criança, fez-me ver a diferença entre uso e gasto: a propósito da sua diferente manipulação de um clip e de um agrafo.

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