Archive for ‘CINEMA’

04/09/2011

JEAN-CLAUDE CARRIÈRE

por cam

«Seria necessário apresentar Jean-Claude Carrière, nascido na França em 1931? Fora a sua colaboração, como roteirista, com alguns dos principais cineastas do século, fez, entre outros, Esse obscuro objeto do desejo, O charme discreto da burguesia e Bela  da tarde com Buñuel, com o qual trabalhou durante 19 anos; escreveu Viva Maria para Louis Malle; foi indicado para o Oscar de Melhor Roteiro ao adaptar A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, filmado por Philip Kaufman; e trabalhou com diretores como Milos Forman, Jean-Luc Godard, Carlos Saura, Andrzej Wajda, Jacques Tati e Hector Babenco, que o trouxe ao  Brasil quando das filmagens de Brincando nos campos do senhor. Ele fez a adaptação para o teatro, com enorme sucesso, do poema épico indiano, Mahabharata, dirigido por Peter Brook, com quem trabalha desde 1973. Roteirista, ator, romancista e ensaísta, Carrière também preside a Federação Europeia dos Ofícios da Imagem e do Som, a Fémis (nova denominação do IDHEC a partir de 1985). »

O resto – entrevista – está aqui, na revista Agulha (Brasil).

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13/04/2011

“JEAN RENOIR OU O RESPEITO DAS IDEIAS”

por cam

Jean Renoir

«No mercado português do DVD surgiu, há poucas semanas, um dos clássicos absolutos do cinema francês: A Regra do Jogo (1939), de Jean Renoir, incluído numa caixa com um total de cinco títulos deste cineasta. Se o paralelismo pode fazer sentido (e pode!), este é um filme que está para o cinema europeu como O Mundo a Seus Pés (1941), de Orson Welles, para a produção clássica de Hollywood. A saber: um momento radical de vitalidade criativa onde podemos vislumbrar, não apenas a complexidade da conjuntura histórica em que nasceu, mas também muitas componentes do cinema do futuro. Por alguma razão os autores da Nova Vaga, de Jean-Luc Godard a François Truffaut, viram em Renoir, não apenas um modelo estético, mas também uma referência ética.

Como seria de esperar, o lançamento de A Regra do Jogo não foi um acontecimento minimamente badalado. É um pormenor, claro, mas sintomático: quando muitos agentes sociais, do espaço televisivo à imprensa cor-de-rosa, conferem toda a evidência às telenovelas, é apenas normal que um dos maiores artistas europeus do século XX seja ignorado. Entretanto, repitam-se até ao tédio absoluto debates sobre a confiança dos portugueses no futuro…

A Regra do Jogo teve a sua estreia francesa a 8 de Julho de 1939, poucas semanas antes do evento que marca a eclosão da II Guerra Mundial (a invasão da Polónia pelas tropas alemãs, a 1 de Setembro). Não admira, por isso, que o filme tenha entrado na história do cinema também como um objecto premonitório das convulsões que iriam abalar a Europa e o mundo. Ao encenar uma galeria de personagens, senhores e criados, reunidos numa mansão, Renoir elabora uma visão do mundo em que o gosto da festa se apresenta contaminado pela partilha de um crescente desencanto existencial. Podemos, aliás, evocar algumas palavras sábias de Truffaut a propósito de outro clássico de Renoir, A Grande Ilusão (sobre a I Guerra Mundial, realizado dois anos antes): “Jean Renoir não filma directamente ideias, mas homens e mulheres que têm ideias; e não nos convida nem a adoptar nem a julgar essas ideias, sejam elas barrocas ou irrisórias, mas simplesmente a respeitá-las.”

A genial actualidade de A Regra do Jogo passa por essa arte, em que somos todos aprendizes, de lidar com a pluralidade das ideias: qualquer trabalho com as formas (narrativas) pressupõe e implica uma relação particular com a própria dinâmica social. Daí também que seja fundamental não esquecer que há em Renoir um impulso realista, paradoxalmente poético, em que o respeito pelas personagens se confunde com um delicado amor pelos actores.

E são todos admiráveis em A Regra do Jogo, incluindo Nora Gregor, Paulette Dubost, Marcel Dalio, Gaston Modot e o próprio Renoir, deixando no seu filme uma figura (Octave) que integra o prazer de viver bem e também a mágoa de os seres humanos tão mal saberem viver.»

por JOÃO LOPES [in DN de 10 de Abril de 2011]

Alguns vídeos YouTube (neste WordPress agora não consigo incorporar os vídeos…): Jean Renoir parle de son art 1; Jean Renoir parle de son art 2; La Règle du Jeu; Boudu sauvé des eaux

13/04/2010

A DIFICULDADE DO ROMANCE

por cam

Há três dias revi, como se fosse a primeira vez, o filme (em vídeo) O Estado das Coisas, de Wim Wenders (1982). Numa altura em que tenho alguma dificuldade em digerir romances que por aí vão sendo badalados, o filme de Wenders encaixou na perfeição. A reflexão sobre a própria linguagem do cinema – o seu fascínio, mas igualmente os seus limites e possibilidades, narrativas e outras –, a inclusão reflexiva, a inovação estrutural, são alguns dos problemas (ainda) numa certa procura da escrita romanesca (se quisermos continuar a dizer que tal é possível) e do cinema. Eu aposto nisso: a tradicional boa história – como Borges dizia do romance policial – entrelaçada inteligentemente numa hibridação que mantenha intactas as condições essenciais de comunicabilidade. Nabokov falou de obscenidade quando o romance não tem nada para acrescentar ao mundo. Perfilho desta ideia, sabendo que ela pode não passar de mais um aforismo inútil, decorativo.

São as dificuldades que vou sentindo na escrita dos meus projectos romanescos. Acresce que trago da poesia e do teatro (e dos contos curtos, que tenho experimentado nos últimos cinco anos) outras dificuldades – mas também outras capacidades de enriquecimento e inovação. A ver vamos.

O estado das coisas, de Wim Wenders (1982)

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