LEITURAS EM DIA | Jorge Aguiar Oliveira :: Homens sem soutien. Poesia 1983-1999

por cam

Jorge Aguiar Oliveira_Homens sem soutienLEITURAS EM DIA | Jorge Aguiar Oliveira :: Homens sem soutien. Poesia 1983-1999

edição do autor, 2012.

BIOMBO PARA UM APRENDIZ DE SAMURAI

I

Na lâmina do sabre

o vento.

Uma sombra pintada

na tigela com arroz,

ao lado

dum gesto brando

dos pólenes do amanhecer.

Entre bambus um beija-flor

leva no bico um vidrinho

de saudade.

II

Poisa um rebento

duma meditação breve

no verde de uma folha

de nenúfar.

Não assopres ao lago

onde se pesca

o tempo

nas águas paradas.

Um vulcão acorda,

a máscara de neve

derrete, o musgo.

O samurai levanta-se

do poema, olha o gume

do som das palavras

levantando voo.

Voa voa gralha voa

uma ferida cortante

está a chegar.

III

Flores de papel.

Um rectângulo de tanta coisa

nova, a nascer,

por nascer.

Da nascente chega

um vulto. Prò poente parte.

Dissolve passados num espelho.

Desembrulha um rebuçado

de algas. Na boca um

toque de licor de rosas.

Chegaram novas

pelo robot, não por ti.

Bordada num rolo

uma ideia sombria

um gesto

nobre.

IV

De mãos dadas

atravessam descalços

a ponte de canas

que os levará

ao jardim dos impérios

da auto-destruição

os levará a

perder o pé

numa preta pena

num tronco

de cerejeira

renascer

com asas.

Fios de dança indo

correntes abaixo.

Uma truta

perdendo os sentidos

ao sol.

Uma sandália d’

um clâ, perdida

num bosque de seda.

V

Um tudo que se destrói

e nada erguer.

De tinta-da-china

uma mancha na esteira.

A lua acaricia o choro

da criança

cetim

decorando ao casa

na noite sem igual.

Coberto de uma formosura

o pai segura

uma lágrima ardendo.

No fumo do chá

teu sorriso

Amnagata.

VI

Um coração pintado

nos lábios.

Um Kimono

cintado, por

um rabo de pavão.

Limpa o pó

ao que mereceu.

Um jornal de parede

fala de milho

e coisas dantes.

O sangue do sapo

bebido a três.

Na arca forrada a papel

de arroz, um bule,

uma viagem.

«Um caule de despedida»

gravado a fogo

em dois pauzinhos

uma face branca

uma mão de cerejas.

VII

No mar do Nada

emerge o templo

dos mal-nascidos.

Um pranto minorca

um caroço de cereja.

Vermelho doirado

o dragão

serpenteia pela rua

das varandas esquecidas,

levadas pela chegada

do teu olhar

à varanda.

Traz o meu cabelo

eu seus olhos

naquela tatuagem

só se vê o Mestre

do eterno templo

do Universo.

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