Ainda o Registo Civil

por cam

Registo Civil reúne os cinco livros de poemas publicados por Carlos Alberto Machado (Mundo de Aventuras, 2000; Ventilador, 2000; Mito, seguido de Palavras Gravadas na Calçada, 2001; A Realidade Inclinada, 2003; e Talismã, 2004), bem como outros tantos conjuntos de inéditos (Na Casa de Passar as Tardes, 2003-2004; Uma Pedra Sobre o Assunto, 2003-2006; O Amor. Estudos Para uma Queda, 2004; Tríptico em Negro-Azul, 2005; e Por Isso Voltarei, 2004-2006).

Registo civil. Poesia reunida 2000-2006

Registo civil. Poesia reunida 2000-2006

Ensaísta e dramaturgo, é de algum modo tardiamente que o Autor, nascido em 1954, se estreia em 2000 a publicar poesia. Viria a ser incluído na antologia Poetas Sem Qualidades (Lisboa, Averno, 2002), organizada por Manuel de Freitas, que aí refere, a propósito dos três primeiros livros, que a poesia do Autor configura uma “proposta mínima, minuciosa e não poucas vezes contundente” (p. 113). A atenção ao quotidiano, frívolo e sem saída, o seu assumido tom menor e um “humor tão corrosivo quanto desesperado” (pp. 113-114) seriam outras das características que Freitas destaca nesta poesia.

Cada um dos dez conjuntos de poemas apresentados em Registo Civil é marcado por assinalável coesão e interligação, nalguns casos reforçadas pelo agrupamento dos textos em sequências numeradas. Textos curtos, que podem até consistir em brevíssimas anotações, convivem com o verso e o poema longo. A pontuação revela-se escassa (e essa opção de escrita lembra-nos a de Ruy Belo), facto que confere maior importância ao recorte dos versos e à trama sintáctica. Estamos perante uma poesia angulosa, feita de cortes e justaposições que exigem a atenção e a marcação do leitor.

É patente a redução da escrita a uma espécie de grau zero poético, que passa pela assunção de uma linguagem menos tensa, despida de retórica, prosaica e que foge à pureza e grau de concentração que alegadamente caracterizaria toda a poesia. O Autor reconhece ser “impuro tudo o que escrevo” (p. 155) e formula a sua alternativa nos seguintes versos: “Desconheço por onde as palavras me levam / (…) / quero desfeiteá-las uma a uma arrancar-lhes / esperanças sonhadas embebê-las em venenos / sentidos da noite onde a sua matéria se inventa” (p. 80). O que designa por renovação da palavra constitui um programa que permite reconstruir o discurso poético sobre novas bases: “O próximo passo será o da decomposição / os corpos mergulhados em ácidos novos / eis como a ideia se adapta a preceito / de uma necessária renovação da palavra” (p. 81).

A poesia deveria visar a “escrever o mundo / escrevê-lo mesmo” (p. 149). Todavia, trata-se de um “nobre ofício em desuso e por isso raro / ou raro por ser de nobreza exercê-lo / ou por ser raro o mundo / de cuja nobreza / se possa escrever / ou por isso a escrita / substitui o mundo / que já não se escreve” (p. 149). Num mundo sem referências, torna-se notória a “ausência de um ponto cardeal” (p. 205). Não existindo alternativas, reduzindo-se a vida a “adiar o fim agora tão perto” (p. 46) e não havendo “mais nada para dizer” (p. 49), confessa-se que “o segredo é não existirmos” (p. 84), para se poder resistir à falta de sentido da vida.

A relação entre a escrita e o mundo ou, se quisermos, a palavra e o real, percorre estes versos. Há uma natural precedência da realidade face à escrita, não obstante o conceito de realidade se encontrar sob suspeita, desde logo perante um título como A Realidade Inclinada, mas também em versos como estes: “a mãe desmaia provavelmente / por ficar de repente sem saber / qual é o lado real / da realidade” (p. 290). A verdade é que a poesia permite inventar e criar mundo, bastando apenas um ajustamento para alinhar dois níveis aparentemente desalinhados: “Morreste primeiro no papel /uma morte tão digna como qualquer outra / estava escrito e isso é mais forte do que tudo / foi apenas uma questão de ajustar uma coisa à outra / uma cápsula de cianeto saturada de realidade” (p. 173).

Neste contexto, há também uma desvalorização da palavra e da criação poética: as palavras reduzem-se a “excrementos da alma” (p. 155), o poeta produz “lixo” (p. 153) ou cede à tentação das “palavras amestradas / p’ra oferecer no natal / ou isso ou umas peúgas.” (p. 82). Procura-se, tenteia-se uma palavra-talismã, uma palavra com “poder mágico” (p. 215), mas reconhece-se que nos recobre a “escama estéril das palavras / a mais” (p. 217). O sujeito luta “para saber a medida / desta poesia incompleta / narrativa sentimental / que somente desejaria / não precisar de palavras / substitutos ou remendos / da matéria de um corpo / em expansão noutro corpo” (p. 228).

A memória é outro pólo estruturador desta poesia. Note-se que quando se fala em memória não se fala em recuperação ou restituição. Aliás, na memória confluem factos recordados e factos imaginados, ou seja, a memória é um processo criativo. Alguns versos são, a este propósito, reveladores: “primeiro preciso que me lembre de tudo ou de quase tudo /e que me lembre desse tudo ou quase tudo ao mesmo tempo / ou pelo menos quase ao mesmo tempo ou seja umas coisas a seguir às outras / mas não muito depressa nem demasiado devagar” (p. 95). A memória e a escrita constituem um “processo de selecção e classificação” (p. 95) de lembranças que “não sossegam não param não estão quietas não se arrumam” (p. 97) e que equivalem a “inventar vidas novas” (p. 104). A memória, através da escrita, permite fechar as “falhas” (p. 107) e torna possível continuar, reinventando a cada dia o mundo, regenerando o que dele sobra da infância: “não me lembro de mais nada ou não há mais nada de que me lembrar / lembrar ou esquecer não significa apagar o passado dominá-lo / mas tornar possível não ter medo de o viver reinventando-o a todo o momento” (p. 107). É esta a lição, o “mito fundador” (p. 107) contido em Mito, o longo poema que o sujeito dirige à filha. Mas já em Livro de Aventuras, a primeira obra do Autor, assistimos também ao exercício da memória, ao “regresso a casa” (p. 9). O que se obtém nessa revisitação pode reduzir-se a “duas ou três / palavras / que falam / de uma luz / pequenina / escondida / num canto / da infância” (p. 22). A derrota é um dado, à partida. A decepção e o desânimo e o sabor amargo da vida impõem-se desde a infância: “Provei o sabor das azedas / (no campo de cebolas das competições de punhetas) / cedo demais” (p. 26); “No Inverno as chuvas queimam os rebentos / as raízes apodrecem sob os detritos e a Primavera / esconde de nós todos os anos a morte que vem” (p. 27). A abjecção e o grotesco, um universo expressionista estão patentes em numerosas passagens, nalgumas das quais nos recordamos de versos de Gotfried Benn: “Os dois ratinhos brancos / oferta do avô Domingos / decidiram passar férias / no meio de esfomeados / irmãos cinzentos felizes / por mudarem de dieta.” (p. 12)

No último conjunto, Por Isso Voltarei, há o deslocamento do espaço urbano para o território insular dos Açores. Os poemas assumem um pendor descritivo e um tom vagamente etnográfico, mas são sobretudo marcas de aprendizagem pessoal e do estabelecimento de um compromisso existencial e ético: “Um homem no alto da rocha do canto da baía / ocupa-se a inventar palavra a palavra uma ilha / tão bem inventada como qualquer outra ilha (p. 333). O “senhor manuel alves” é o principal destinatário da promessa de voltar formulada pelo sujeito e que no último poema verificamos encontrar-se cumprida: “o segredo que quero desvendar não é o da sua aguardente / por isso prometo que hei-de voltar” (p. 328); “Voltei senhor manuel alves voltei / e o senhor deu-me a honra / de dizer sim ao meu atrevimento / (…) / as minhas palavras escritas lêem-nas / os seus olhos inteiramente também / por isso voltarei sempre senhor” (p. 344). É neste tom afirmativo, de permanente recomeço, que o livro se encerra. São esboçadas as primeiras linhas de “uma teoria geral do enfado” (p. 335), mas há garantidamente maior arte na reivindicação da capacidade de inventar o mundo na desfocagem inerente a toda a poesia: “melhor assim entretanto treinarmos a outra / arte a de inventarmos os outros e a nós / com os nossos olhos míopes / oleiros do mundo” (p. 343).

José Ricardo Nunes sobre REGISTO CIVIL – poesia reunida (2000-2006), Lisboa, Assírio & Alvim, 2009. Revista Colóquio/Letras, 2010

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