Na parte de trás do real

por cam

Quando tinha 19 ou 20 anos poucos poetas me faziam companhia. Lawrence Ferlinghetti e Allen Ginsberg faziam parte dos “eleitos” (traduzidos por José Palla e Carmo, na célebre colecção Cadernos de Poesia, da Dom Quixote). Há dias, um desconhecido facebookiano voltou a levar-me para boas companhias.

Na parte de trás do real

Na parte de trás do real
Largo da estação de San José
vagueava acabrunhado
perto de uma fábrica de tanques
e sentei-me num banco
ao pé da guarita do agulheiro.

Uma flor jazia no feno que jazia
no asfalto da auto-estrada
– a temida flor do feno,
pensei eu. Tinha um caule
negro quebradiço e uma
corola de picos sujos
amarelados – picos longos como
os da coroa de Jesus -, e no centro
um sujo tufo de algodão
como um pincel de barba usado
guardado no meio de coisas velhas
na garage há mais de um ano.

Flor, flor amarela, e
flor da indústria também,
flor forte agreste e feia,
mas flor de qualquer modo,
com a forma da grande rosa
amarela do teu cérebro!
Esta é que é a flor do Mundo.

Allen Ginsberg, do volume Howl and other poems, em Uivo, trad. José Palla e Carmo, Lisboa, col. Cadernos de Poesia, Dom Quixote, 1973 (p.41).

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