O território da memória

por cam

As palavras de R. Lino em “Paisagens de Além Tejo” (1) podem ser lidas como uma «visão do mundo colhida do interior do ser», uma «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)» (2).

R Lino_paisagens de alem tejo Se o termo não tivesse colado a si tantas interpretações equívocas, diria que se trata de uma etnografia, porque esta é uma poesia que se coloca deliberadamente no terreno, permitindo que ele a questione, mas, ao mesmo tempo, questionando-se: uma etnografia intensa em que os resultados são filtrados pelo ser da poeta (o «interior do ser»), que está na paisagem em dois tempos diferentes: o de «[…] um tecto, uma cadeira, um corpo / que se imprevista, uma estrada mais vereda…» (poema “1” de “um círculo”), ou o da memória que indaga, revela e transfigura as “paisagens”, a sua «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)»: «[…] há paisagens que prevalecem: / umas sobre as outras / na voz vária que as apresenta» (poema “14” de “outro círculo”). No poema, dá-se a união da matéria da terra (a paisagem, em sentido amplo) com a matéria do dizer, em mútua interrogação e contaminação (a memória não é a única “máquina” transformadora da paisagem). E também embate: como se o poema resistisse ao poema, isto é, ao processo de metamorfose de uma paisagem em outra paisagem – «Tenho de construir hoje esta planície.» (poema “7” de “um círculo”) –, em que a mínima perda é um passo perdido ou ferida insanável. «Percebo agora essa febre: / pouco mais me segura. / O sacrifício às palavras / é um exercício voraz / em que portos se procuram. / Escreve-se; escreve-se a tinta / sobre um tempo que dirá… / É um exercício voraz / tornado próprio em seu destino.» (poema “3” de “um círculo”). «De que texto somos as variantes?» (poema “4”, ibid.)
 A poesia de R. Lino neste tão singular livro é intensa; dizendo de outra maneira: concentra poderosamente a força e a violência que advêm da “geografia” e do esgaçar da memória, numa serena e delicada mutação em palavras – implodem e espalham a sua força pelo interior, sem o estrondear do definitivo (mortal).
Com cada livro de poemas, aprende-se de novo a respirar (como a um corpo amante): e é o prazer de dizer o poema como nosso, deixar de existir entre a sua respiração e a nossa qualquer diferença – ler assim, por exemplo: «Também gosto de saber / incontáveis pormenores: reproduzir o silêncio / com toda a gente lá dentro. / […] Às vezes enjoam-me um pouco / os gestos enumerados, os sítios das horas passadas / numa intempestiva ocupação dos corpos.» (poema “11”, ibid.)

Notas

(1) O livro é de 1986, das edições Rolim, col. Ilhas, com ilustrações de Graça Pereira Coutinho.

(2) O poeta Jorge Fazenda Lourenço escreveu sobre “Paisagens de Além Tejo”, de R. Lino, no Cartaz do Expresso (21 de Fevereiro de 1987): são dele as expressões «visão do mundo colhida do interior do ser» e «complexa e singular corografia interior (uma descrição dos territórios da memória)».

Declaração de interesse: publiquei na colecção “azulcobalto” que dirijo na Companhia das Ilhas, um livro de R. Lino, “Baixo-Relevo, em Fevereiro deste ano.

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