UM HOMEM A RESOLVER-SE

por cam

Ter nascido aqui e não ali dá a cada um de nós um princípio de identidade. Mais tarde vem o nome. Até o percebermos como nosso, como um privado primeiro sinal de identidade, ou marca que nos distingue dos outros, aprendemos imensas história de família, e sempre nós no centro de cada episódio. “Tu, quando vivíamos lá por aquelas fragas, tinhas o quê, uns três anitos?, pregaste-nos cá um desassossego logo que gatinhaste por ali abaixo em direcção ao mar revolto, Virgem Maria!” E sempre assim. As histórias, que mais tarde, ao longo da vida até morrermos, filtramos, mercê de tantas contingências, nos vão fazendo aquilo que somos – e nunca num momento desse devir somos iguais a outro momento, que se siga ou já tenha existido. Quer isto dizer que aquele primeiro momento e local de nascimento e mais as histórias de que fomos sendo protagonistas ou actores secundários, tudo isso só existe porque, momento a momento da nossa vida, aceitamos uns factos, recusamos outros, transformamos tudo a nosso bel-prazer (e forçadamente, o que não é, em rigor, a mesma coisa).

Adornei as palavras da forma mais simples de que fui capaz, mas eu sabia que o esforço seria em vão. De maneira que as palavras ficaram na cabeça, que é como quem diz.

O presente vai deixando de o ser, o que não sabemos é a altura exacta a partir da qual é legítimo chamar-lhe passado. Talvez seja melhor dizermos: o tempo passou. Ou: o tempo cresceu, aumentou, então…

O mestre Nemésio regressou à sua ilha Terceira 30 anos depois de ter rumado ao Continente. Em 1946, a estadia foi curta, mais prolongada a de 1955. Voltou, dizia, para se «resolver por escrito». Mas poderia alguém ter dúvidas que o homem, já em idade de gente, ainda havia de lhe sobrar passado por construir? Sobrava, sim senhora. Os seus dois regressos foram para volver-se a olhar para dentro, mergulhar no fundo de si mesmo. «O passado vale duas vezes o presente… Uma – porque vale o que foi, exactamente quando era; outra – porque torna a valer esse valor quando o puxamos à memória, agora que não é precisamente senão aquilo que foi.» Belas palavras estas as da herança por ele lavrada no Corsário das Ilhas, livro de memórias, de viagens (interiores, disse alguém), ou, digo eu, um jogo bem ao jeito dele, o de deixar-se ir construindo-se, palavra por palavra, à frente dos nossos olhos espantados. “Então, afinal, o homem precisou desse tempo todo para saber bem onde nasceu, com quem se fez, que vida levou, e como tudo isso lhe ficou na alma?” Pois, se calhar… Aquele seu «Se bem me lembro» foi fina ironia, hem?

“Credo em cruz, home’, o que aí vai de confusões! Sou açoriana da Ponta da Ilha do Pico, não se vê logo? Isso é coisa malina de teres estado tanto tempo lá fora a estudar.” “Mas olhe que o Nemésio…” “Deixa-te disso e vai-te à deita que já é muito tarde, vê lá se já te esqueceste que amanhã é o teu avô que leva a Coroa!”  

Crónica publicada na revista Azorean Spirit, da SATA, nº 52, 20 Outubro – 20 Dezembro 2012 (pp. 80-82).  

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