COMO CALAR? COMO DIZER?

por cam

Nos idos de 1987 R. Lino foi antologiada na Sião – organizada por Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião, e editada pela frenesi – quatro poemas entre as páginas 178 e 180. A encabeçar os poemas, uma breve nota onde se informa os leitores que a poeta nasceu em Évora, em 1952, e tinha até então publicado três livros de poemas. Há dias, um amigo enviou-me : Predação : Urânia, nós e as musas, edição da autora, 2012. Pouco mais se diz dela na nota biográfica: um livro acrescentado aos outros, participações em revistas e antologias e uma meia dúzia de conjuntos de poemas por publicar. E que vive em Lisboa. Muitos dos antologiados em Sião não chegaram a ter poemas em livro, uns “desapareceram” de circulação” (mortos ou vivos) outros andam arredados das editoras mainstream de poesia (que las hay) e até das de “margem”. Na escrita portuguesa (poesia, ficção, ensaio & etc.) cavam-se permanentemente fossos entre os “velhos” e os “novos”, ao mesmo tempo que se montam panegíricos dos novos heróis, os novos génios que rapidamente são substituídos por outros. É uma espécie de “besteselerização” “pronta-a-deitar-fora”. Os mortos ou ignorados (ou ambas as coisas) amontoam-se em camadas de esquecimento. Na praça pública, o povo, unido, grita por cultura, que a não há e devia haver. Pois.

Venho dizendo por aqui que crítico é que não sou, embora lá vá descabelando palavras sobre os outros de quem gosto – espero que me perdoem, ou melhor, como não sou cristão, que esqueçam o que escrevo.

Em : Predação : “cruzam-se vozes dramáticas” – é a poeta que o diz nas “breves palavras” no final do livro. É verdade: no dialogismo (“jogos de réplicas”), no esboçar de figuras teatrais, nos “movimentos de esbatidas ou sobrepostas alteridades”, também na introdução de um coro. E há igualmente uma determinada performatividade, no sentido em que as palavras não estão lá “em vez de”, pelo contrário, o seu “sentido” constrói-se nas acções que elas mesmas implicam, no “actuar” mais do que no “representar”. Não é somente assim, claro, mas muito do que está escrito parece-me assim.

Cada poeta desenha um mundo próprio, com arcos, túneis, horizontes e hipóteses de luz para que dele nos abeiremos, não digo entrar, mas permanecer o maior tempo possível no instável espaço liminar que nos faz simultaneamente ser e não ser (ele, nós, o poema). Também poderia dizer: cada poeta se curva sobre si mesmo na igual medida em que desafia o outro supostamente dialogante. Ou ainda: que o poeta é a modulação do outro em si e o arco reflexo que vai de si para o outro. Como seja. A verdade é que é apenas com palavras que conseguimos aproximar-nos (predadores?) do outro, que é feito de palavras, o poeta – como se ele as pudesse escrever em nós, para nós. Podemos ficar aqui, nesta ilusão?

A poesia de R. Lino é de uma intensidade pouco habitual entre nós: provoca a queda, a perda, a falha. Por isso, não será de espantar que termine exactamente assim: “olhemos, agora, à nossa volta / e perguntemos:”

Aceito o desafio.

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