SE AO MENOS A POESIA

por cam

Nuno Dempster (Ponta Delgada, 1944) é um poeta com quem faço caminho. Dele li Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (2011), K3 (2011), Uma Flor de Chuva (2011) e este Elegias de Cronos (Lisboa, Artefacto, 2012), a que agora me dedico. Tenho para ler ainda Londres (2010) e o volume maior Dispersão – Poesia Reunida (2008), que reúne tudo o que até essa data escreveu e não, como seria de esperar, o que editou, pois foi apenas nesse ano que publicou poemas em livro (mas originais seus apareceram antes em jornais e revistas e na Net). É um “poeta tardio” e disso ele não se arrepende, como diz na “Nota Final” de Dispersos: “(…) as escolhas que fiz foram aquelas que então me surgiram como apetecíveis e que ainda hoje me brilham na memória.” Não trago à liça este tópico por preciosismo biográfico, mas porque ele me parece bem pertinente neste último livro (mais do que nos outros lidos): a questão do passado, da memória e da necessidade que arrasta de um certo dizer, e da sua impossibilidade, e, naturalmente, a morte.

Em K3, Pedro e Inês, e Londres há, no todo de cada um deles, uma estrutura com indisfarçáveis contactos com a ficção narrativa – embora, claro, sem prescindir dos mecanismos próprios da poesia, em particular do seu ritmo e da sua sonoridade. Nestas Elegias de Cronos, embora de modo que é mais próprio a cada poema e não ao todo, essa característica não é de todo iludida, a que acresce outra, também presente nas obras citadas, que é o diálogo com o real envolvente, mesmo quando se procuram outros sentidos.

O passado (como tema), ou, precisando, o seu resgate, de que atrás falei, está bem sinalizado logo no primeiro poema (“Acaso”), afiliado com outra “presença temática”, a do desencontro amoroso, da falha: “(…) era tarde demais para eu saber / (…) e hoje penso no acaso sem remédio de cada um de nós guardar / o passado em gavetas separadas.” O poder da rememoração (de uma invenção de nós – a escrita), é porque “(…) é da brevidade que vivemos / da alegria que o instante gera / e deixa na memória”; no entanto, é longo “o hiato / em que nada regressa / e a memória se ausenta / e nos faz escrever sem objecto.” (“Chuva”) Num dos poemas mais fortes, “Imagem”, quase no fim do livro, num diálogo que o poeta aqui e ali mantém com uma não nomeada mulher, diz-lhe “Decerto não recordas que os poemas / emanam da memória: / é daí que a luz nasce / e as palavras se mudam em imagens / como na do teu rosto agora (…) // como é belo o teu rosto (…) // Já morríamos, quando um dia / me respondeste: «Não é isso / que o espelho me revela.» / E agora, que farei com essa imagem / a brilhar-me nos olhos? Elegias?” Sim, estas, provavelmente. Mas, no poema seguinte (“Quando os dias são acenos”), se possa desdizer (ou talvez não…): “Se ao menos a poesia fosse feita / de imagens tácteis, / se os meus olhos pudessem afagar / com a ponta dos dedos / a copa do pinheiro manso / como se fosses tu (…).

A morte, como veste bem à poesia, não por morbidez, mas porque, afinal, de que outra coisa é possível falar?, está em muitas destas elegias do tempo, como nesta, lapidar (“Defesa”): “Apetece-me só dizer / a morte afinal / virá como é costume dela. / Mas sendo isso verdade, / penso na hipocrisia de querer / ignorar as escadas / por onde descerei / para a cripta dos mortos.”

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