PORTUGAL, A SÉRIO

por cam

Em 2010 tive a oportunidade de conhecer a Escola Portuguesa de Moçambique/Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM/CELP), em Maputo. É, a vários títulos, uma escola exemplar. Instalações amplas, arejadas e plenamente adequadas à sua missão de acolher e ensinar crianças e jovens na língua e cultura dos seus pais (ou daqueles que a elegeram com sua ou desejam que seja a dos seus descendentes). Portuguesa e moçambicana, sem sótãos de preconceitos – defendendo-se deles, que teimam em nunca acabar. Por lá fiz uma oficina de escrita do texto teatral, com um tema quente: a recente greve geral de 1 de Setembro contra o aumento do custo dos bens essenciais, com vários mortos e feridos entre o povo do “caniço”. Mas isto é outra estória, agora vou à dos livros.

Desta Escola têm saído, desde 2007, salvo erro, as caixas Acácia: em cada uma delas, quatro pequenos livros, com10,5x15cm, umas quarenta páginas, por vezes menos, por vezes um pouco mais, agrafados e colocados na caixa de cartolina. A Acácia tem direcção editorial do António Cabrita e coordenação da Teresa Noronha (EPM/CELP). É um projecto editorial deveras singular, desde logo por vir de uma instituição oficial (que em regra são pouco receptivas à erupção da literatura que não consta dos manuais do Ministério). O casal António/Teresa aposta na diversidade linguística, cultural, geracional. Vale a pena espreitar alguns exemplos: da pátria moçambicana, Armando Artur (nascido em 1962), Guilherme Ismael (1949-1994), João Paulo Borges Coelho (1955), Virgílio de Lemos (1929), Fernando Chiluvane (1982-2005); da pátria lusa, Carlos Alberto Machado, João Manuel Ribeiro, Matilde Ferreira Neves, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Vergílio Alberto Vieira; do Brasil, Hilda Hilst, Nicodemos Sena, Renato Suttana; e ainda uma antologia de poesia de Charles Baudelaire, Pierre Reverdy, Giuseppe Ungaretti e Roberto Juarroz (refiro-me apenas às 4 caixas que tenho, das 7 publicadas).  

O diálogo intercultural e a lusofonia, que empapam tantas gargantas e quase nada concretizam, têm aqui um belíssimo exemplo a seguir. Fazer “lá”, mas também “cá”, transverter, miscigenar mas também singularizar, misturar mas também saber distinguir, porque, justamente, não somos todos iguais (ainda bem), somos diferentes e criamos os espaços de tolerância e generosidade que podem (ou não, nada obriga) criar, alargar espaços de mesmidade – que não servem, aliás, se não para fortalecer a alteridade.

Seja como for, estas precárias caixas Acácia brilham no “cimento” de Maputo, por vezes explodem, criam embaraços e engulhos, mas também acetinam mãos ásperas, limpam olhos com as águas tépidas do Índico. Eh pá, só dizes isso por amizade. É verdade – mas não é a verdade toda.

Saudades de Maputo…

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