PATERNIDADE FALHADA

por cam

Autismo é um perturbante romance de Valério Romão (nascido “em França, nos idos de 1974.”). A edição é da Abysmo (Abril de 2012, ilustrações de Alex Gozblau).

O autismo de uma criança faz deflagrar uma violência – relacional, comportamental – numa família (com referências reais) e o romance tece-se numa estrutura que procura dar(-nos) conta dessa violência e do que ela arrasta, procurando evitar, contudo, que o leitor não seja de todo submergido na teia de morte que atravessa a narrativa, tanto mais forte quando muitos dos leitores sabem (ou adivinham) que por detrás da literatura medra (ainda?) a poderosa teia do sofrimento e da culpa.

A fragmentação das vidas expostas é-nos dada pela diversificação dos narradores, pela polifonia de vozes e pelos diversos modos de dizer. Tomando o filho autista (Henrique) como elemento central, temos as vozes de Abílio (avô), Rogério (pai), mais presentes, e de Marta (mãe) e de Amélia (avó) – pais de Marta. Todavia, se estes narradores se apresentam na tradicional descrição de acontecimentos, ou, mais frequentemente, sobre os seus sentimentos e os dos outros, Marta surge, através de discurso directo, em pequenos capítulos intercalados, nas suas (patéticas) tentativas de comunicação com o filho, na sua persistência em ter com ele uma “comunicação de qualidade”. Marta, através do mesmo dispositivo dialogante, entabula conversas com terceiros (incluindo o marido, Rogério). O narrador impessoal surge igualmente, intercalando-se as suas intervenções, tal como os outros, com peças de diálogos.

Por outro lado, o romance estrutura-se em pequenos capítulos centrados em momentos ou situações-chave: as referidas tentativas de comunicação da mãe com o filho autista (“Um ano, sozinhos” – que vai de I a VI) e “Urgê cias” (sem o “n”, reproduzindo a placa falhada no hospital), que vai de I a VII: estes capítulos referem-se à situação de espera angustiosa que pais, e depois avós, fazem nas urgências de um hospital onde entrou acidentado o Henrique, e ainda, próximo do final do livro, “Entradas” de um blogue escrito pelo Rogério (1 a 5). Pelo meio, várias situações dos pais com pediatras e outros especialistas – capítulos que, entre outras funções, não negam a necessidade de o autor deixar elementos de natureza didáctica sobre o autismo e alguns modos de o encarar ou procurar resolver (atenuar consequências). Se o essencial das relações humanas está no trio mãe-pai-filho, a relação (desgastada e conflituosa, a raiar o abjecto) dos pais de Marta tem uma certa relevância.

Nesta estrutura, Romão dá-nos momentos de grande intensidade – dor, abandono, morte – que de algum modo são “compensados” com outros de algum humor (o Fabuloso Dr. Miguel Relvas, a alemã homeopática, o charlatão brasileiro), a par de uma linguagem repleta de imagens, mesmo para coisas ou situações de menor importância narrativa. Estes expedientes “aligeiram” a carga emocional, e o suspense, que vai quase do princípio ao fim do romance, que se baseia na ausência de informação sobre a situação hospitalar de Henrique. Pessoalmente, gostaria mais que Valério Romão tivesse optado por uma estratégia que deixasse ainda mais visível o estilhaçamento das vidas e tudo o mais. Aliás, o final (inesperado?) parece deitar por terra todo o cuidado posto pelo autor em evitar “dor a mais”. Seja como for, este é um romance raro, perturbador. É, pois, de aguardar com as melhores expectativas os dois que se seguirão – Autismo é o Volume I da trilogia Paternidades falhadas.

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