EPITÁFIO

por cam

Quem conhece Carlos Mota de Oliveira? Em 1973 editou “Isabelarcoirisdovinho”, edição de autor – livro esgotado. Seguiram-se mais de 30 obras de poesia – sim, de poesia –, algumas delas sob os nomes literários de Ana de Sá e José Bebiano. Muitas delas esgotadas.

Eu, mea culpa, também não conhecia a poesia de Carlos Mota de Oliveira – até há poucos dias. Por um acaso, chegaram até mim 5 obras: “Uma chávena de café que saiu do Tejo na manhã do dia sete de Julho de mil oitocentos e setenta e oito e nunca mais voltou”, “Os poetas adoram massagens”, “Ao cair subtil da tua saia”, “O mar português não sabe ler”, “Os portugueses são imbatíveis no terço” (todos edição de autor, 2011, produção milideias.pt). Cinco pequenos livros. No formato – 11×15 centímetros – e no número de páginas – de um mínimo de 14 a um máximo de 96. Se procurarem na net, poderão ficar a saber que Mota de Oliveira nasceu na cidade de Lisboa em 1951. Chega, digo eu, que isto de biografias pouco contará para o mérito ou demérito do poeta, deste ou de qualquer outro.

Deveria ter começado por escrever que me consolei a lê-lo (esta é para os açorianos, em particular os lajenses, que tão saborosamente usam o verbo “consolar”!). Este senhor poeta Mota de Oliveira tem uma peculiar maneira de usar as palavras. Nestes pequenos livros, impressos em papéis de cor forte, a gosto do autor, fica a louça toda partida. Mas não por um elefante desajeitado em loja atafulhada, mas sim por delicadas mãos (e o resto), meticulosamente, notam-se umas pequenas hesitações, nada de especial, e depois, tumba! (não, não é pimba!). A ironia (cáustica, logo corrosiva, inteligente, logo cáustica) atravessa estes livros do poeta: “O teu candeeiro ladra como ladram / todos os candeeiros do mundo / e como ladram os cães em Portugal. Na realidade, posso ver poesia / em quase tudo / e nunca ninguém me impediu / de ficar nos teus lençóis / sem ter onde dormir.” (“F”). Ou este “EM LOUVOR DE CAVACO SILVA” (que irresistivelmente lembra o Cesariny de “Os anos felizes” ou de “Investigação semântica”): “Eu boliqueimo-me / Tu boliqueimas-te / Ele boliqueima-se / Nós boliqueimamo-nos / Vós boliqueimai-vos / Eles incendeiam-se!” Em JANTARES, longo poema de quase 70 páginas, Carlos Mota de Oliveira implode a baboseira dos “barões” da política. Um cheirinho: “Camaradas / e / amigos  // acaba de entrar / na sala / o Doutor Soares // sempre real / cheio / de casta // de boa / raça // sem erupções / cutâneas  // pulquérrimo / pulquérrimo // e português / português / e português! / Pois é, pois é, / camaradas, / acaba de entrar // sem virar  / a / cabeça  // sem virar / uma esquina / sem virar-se / no leito / sem virar / um copo de vinho / e português / português / e português!” O verso curto, saltitante, ondeante, com uma sobrevalorização que lhe advém também das repetições, como ficaria bem ele na voz de um grande actor ou numa música à rés do corpo de um Caetano Veloso.

Diz o próprio, na sua página web, que “faleceu a 06/06/2011 barbaramente trucidado por uma automotora na estação de Alcântara”. Daí o que, ainda vivo, escreveu na última página do seu “Os poetas adoram massagens”:

INSCRIÇÃO TUMULAR

Carlos Mota de Oliveira

Protegido pela Securitas

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