AGOSTO

por cam

Entre o primeiro verso de “Caderno de Milfontes”, de Rui Almeida (edição volta d’mar, 2012 [depósito legal]) “Como será limpar o rosto depois de Agosto?”, e o último, “Como seria limpar o rosto / Depois de cada Agosto?” intromete-se um condicional, um se, que remete para um incumprimento e um indício de ciclicidade (“cada”). “limpar o rosto” poderá ser uma tentativa de fazer coincidir as coisas com o seu dizer, no lugar de Milfontes “O sopro amplia a permanência / Do mais compacto gesto” – “subisse o mundo até à visão”, deseja, procura, o poeta.

A permanência na estância balnear (cujo nome e história recente evocam em nós mais que um simples tempo de férias à beira-mar), oferece-se-nos o detalhe, num jogo de relações que o poeta talvez pressinta, de um outro real, ou o mesmo visto com órgãos que não habitam na matéria do corpo vulgar: “o quase silêncio / Da ondulação”, “A cadência do mar / Amplia o golpe na sombra, / Sobreleva o reflexo.” “Assim, aqui / Onde nada repete outro tempo, / O sopro amplia a permanência / Do mais compacto gesto.” O poeta instaura um lugar físico e um tempo outros, de uma qualidade inexistente, de uma sem-espessura: “Agora é o tempo todo desde sempre”.

Este olhar limpo (no sentido em que um olhar ao cobrir uma coisa marca o princípio da sua narrativa), é da ordem do sagrado: “A limpidez de tudo / Delimita o mundo à sensação, / Traz as coisas ao contacto com a pele, / Experiência do tremor / Na demora que concentra.”, ou, deste modo: “Envolta de nitidez / A vigilância expande até ao sonho / A realidade fixa.” – “limpar o rosto”?

A insistência de Rui Almeida num nada, numa intemporalidade, é radical: “Salva-se agora / O que um dia será impossível.” Por isso, o lugar-mesmo é efabulado: “Aqui se podem dizer coisas que magoam, / Palavras limpas que deixam / O ar circular / depois de serem ouvidas. // E a comoção sustenta / A delicadeza da música.”

Rescreveria continuadamente este poema (não vejo este livro como uma sequência de poemas, mas feito de andamentos descontinuados de uma peça musical). A leitura é uma forma de apropriação, e uma das mais radicais é a que arrisca a cumplicidade sob a forma de bricolage (outra, mais radical ainda, será a de cópia integral apondo-lhe nova assinatura…). Quando voltar a ler este “Caderno de Milfontes” ele pertencer-me-á ainda mais e um dia poderá acontecer que um dos seus versos venha a cair inadvertidamente no meio das palavras como que me ordeno com o mundo. Inútil, portanto, a ilusão do apoderamento. A poesia (a vida, o mundo…) é assim mesmo e a nossa relação com ela talvez não possa mais do que ter a ilusão da reinvenção.

O mundo que o Rui Almeida quis inventar (inventou?) em Milfontes será um dos passos da sua procura – interior, de sentido de si, “construir um nome” (todavia permanece, não nos esqueçamos, o desencontro entre o questionamento e a sua possibilidade de realização). Pela poesia – ou por outra coisa qualquer. “Nesta costa foi o que é agora / Sonhado, silencioso, / Tenso, rumoroso / E fraco, como ainda / Custa ser. Se ser é isto, / Como seria não ser?”

 Sem cessar “limpar o rosto / Depois de cada Agosto”.

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One Comment to “AGOSTO”

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