CADERNO DE ARTISTA(S)

por cam

Tenho entre mãos um livro que se assemelha a um pequeno caderno de artista – a ausência de um título na capa – onde apenas se esboçam dois corpos verticalmente unidos –, o papel, os versos em estrofes curtas aninhadas a um canto e de vez em quando as quase mulheres desnudas, sexos, seios, mas sempre em sombra, em imprecisão (“andar por aí / dentro da tua sombra / enxuto.” – E.J. Botelho), um certo pudor mas que não deixa de ser sensual – ou por isso mesmo – tudo num papel creme, suave, espraiante. E como são bonitas as guardas em cartolina amarela, garrida! Capas duras, a resguardar “Dois poetas e um pintor”, eles António Teves (Ponta Delgada, 1954-) e Emanuel Jorge Botelho (Ponta Delgada, 1950-), e no singular o pintor Urbano (ilha de São Miguel, 1959-). Honra dada à Artes e Letras /Solmar (Ponta Delgada), sabiamente dirigida pelo José Carlos Faria (edição de 2010, que teve uma tiragem especial de 50 exemplares, com caixa, numerados e assinados pelos autores e acompanhados de uma gravura – a inveja que eu tenho de apenas ter o livro e a caixa…).

A obra de Urbano parece ter uma relação íntima com a escrita (já aqui abordei um exemplo, o do seu trabalho, mais uma vez, com o poeta Emanuel Jorge Botelho tendo Antero como leit motiv). Conheço mal o seu trabalho, mas aqui o que aqui ressoa é uma sensibilidade muito delicada, que eu identifico com uma espécie de sageza do incerto – estas mulheres são de agora mas também de um tempo outro, inscritas por mãos hábeis em grutas escuras e baixas, com a paciência da devoção. Mas sem aquela coisa horrorosa da idealização da mulher, do tipo “a mulher eterna”, etc., que faz as delícias dos “sopeiros” (e das “sopeiras”).

Os outros “artistas” domam a palavra, adoçam-na, burilam-na, sopesam-na antes de a inscrever na superfície macia, mas traiçoeira, da folha. Há, de maneira mais evidente em Botelho, não apenas a adoração de uma (dada) mulher, o seu louvor, mas também um certo sentimento de perda, ou de solidão forçada, “na memória, / a serenidade dos teus dedos, / o tempo, lento, das heras”, “vinhas ao longe e eu já sabia dos teus passos; // todos os dias eu roubava o silêncio à solidão, / matava a morte”. “sempre foi de silêncio / cada manhã dos teus olhos // e eu deixei-me ficar”. Gosto da secura deste poeta, do que tenta, tenso, que intui certa impossibilidade, “riscar a pele e ver o teu nome / seguro sobre a linha”.

O amor, claro, “o amor não rima, porque não cabe, / no eco”. “pouco se diz para meu amor dizer. // a fala precisa magoar / os espelhos”.

Com ecos mais evidentes de outros poetas, António Teves, que é músico/professor, procura igualmente a precisão dos versos, nada a mais, nada a menos. Todavia, se as suas mãos estão “geometricamente sós”, elas têm a magoá-las “as arestas penetrantes do silêncio”; ou cisnes que regressam ao “delta branco / do dia”.

Um livro é também um objecto. Lamento não poder colocar aqui, partilhável, este precioso livro de artistas.

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