O TERROR

por cam

A natureza do terror abre uma espécie de fenda no pensamento: “escrever um poema após Auschwitz é um acto bárbaro, e isso corrói até mesmo o conhecimento daquilo que tornou impossível escrever poemas.” (Theodor Adorno). Celan, com o seu poema “Todesfuge” [“Fuga da morte”], versos nos quais evoca o horror da Shoah [Holocausto], levou muitos a questionarem o veredicto adorniano.

Entre nós, a guerra colonial calou muitas vozes – não apenas as dos homens que física e mentalmente tombaram na guerra real, mas também as dos outros, as dos sobreviventes, quer a tenham directamente sofrido, quer não. É claro que há a excepção de Manuel Alegre, na poesia, e de Lobo Antunes, na ficção, ou os esforços antológicos de João de Melo, mas não muito mais (parece existir agora, muito recentemente, um movimento em sentido contrário). Falamos disto como se fosse uma necessidade – será mesmo? O problema é que não sabemos se a ausência se deve a uma espécie de recusa ética e, digamos, ontológica, ou se a outras razões menos compreensíveis (aceitáveis?). Ninguém saberá – mas a questão – porque se corta das nossas experiências estéticas o terror – existe, como as bruxas (que las hay, las hay).

O novo livro de Urbano Bettencourt (Piedade, Pico, Açores, 1949-), “África Frente e Verso” (Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2012) mergulha na guerra (já o tinha feito antes, e alguns dos poemas e textos deste livro apareceram justamente em livros anteriores). A sua experiência da guerra colonial (Guiné) acompanha-o (homem e poeta) até hoje – o último poema deste livro, “Agostos”, vem datado de 2011. Nos melhores momentos deste livro, como em “Da ilha carn(av)al”, de 1973, esbatem-se as fronteiras entre géneros e ficam as palavras na eterna luta do dizer o inominável (não apenas a guerra, ou o terror…). E delas ressalta, quem sabe se pela intensidade do vivido, outra intensidade, outra beleza (porque não?), porque a palavra é justa (ali), porque faz embater em nós ritmos, conjugações inesperadas, mas sempre com a força do retorno ao espaço e ao tempo do terror, espécie de ética de que Urbano parece não querer abdicar (e que, aqui e ali, parece tolher-lhe o impulso do dizer – questão controversa e longa de debater).

O plural de Agosto, trazido à liça lá em cima, é um modo do Urbano religar tempos, o do tempo em que uma “metralha e fogo e luz / e um homem deixou no adobe da parede / o seu retrato de cinza.”, o tempo em que “sobre uma esteira podia morrer-se de loucura / num corpo a corpo de vencidos, / desafiando a sombra da outra morte. A que vem / por detrás e por diante, da direita e da esquerda, / e deixa os seus dentes de chumbo na carne destroçada.” – e o tempo, o nosso de agora, o dos “pares que se devoram / nos jardins de cimento” “Não há chuvas neste Agosto. A calma / vibra nos telhados, as guerras trazem outros nomes, / outros donos. E talvez seja assim que tudo tem de ser. / E talvez seja este o melhor dos mundos.”

 É mesmo preciso religar coisas. Ou não.

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