ANTERO REVISITADO

por cam

Antero é uma figura que continua a ter alguma presença entre nós – não a que mereceria, convenhamos, mas, mesmo assim, certos sinais continuam a chamar a nossa atenção para o homem genial e atormentado que ele foi. Li, com um imenso agrado, o livro que Armando Silva Carvalho escreveu em torno da sua figura (“Anthero Areia & Água”, Assírio & Alvim, 2010), poemas escritos em simultâneo com a leitura das cartas do poeta açoriano, publicadas por Ana Maria Almeida Martins na IN-CM). Agora, uma singular edição que junta poemas de Emanuel Jorge Botelho (Ponta Delgada, 1950–) e reproduções de arte de Urbano (Ilha de S. Miguel, 1959–), numa pequena edição da Publiçor, Ponta Delgada, saída em 2010: “Antero de Quental, a vida e uma manhã” (com versões em inglês dos poemas – “A life and a morning”).

Trata-se de uma homenagem, e, tal como em certa medida em Armando Silva Carvalho, o que agora parece despertar em particular o interesse do poeta e do pintor seja o peculiar suicídio de Antero – na epígrafe, o excerto de um poema de Couto Viana: “À porta do Convento da Esperança, / Rezo ao banco de Antero. / A sua alma, em paz, ali descansa, / depois do tiro do desespero.” Botelho, nos seus cinco breves poemas, adere à razão de Antero no seu desacerto com a vida, nocturna, como um peso de alma, “duas lâminas embutidas / no pulso, calado, da morte.” De um mesmo lance, o seu contrário: “vou-me embora, disseste, olhando a manhã nos olhos / cansado do embuste da noite. Os opostos “noite” e “dia” funcionam aqui como motor da retórica poética de Emanuel Jorge Botelho. Antero, para ele, foi um ser incomunicativo, à espera de uma libertação, um ser que falava “para dentro do silêncio, / esse lugar enxuto de palavras / onde deus Guarda papel branco” – forte imagem que vai para além da relação de um poeta que fala de outro poeta, mas da criação poética tout court. Todas as suas palavras neste livro poderão, aliás, ser lidas nesta perspectiva – e não me parece abusivo lê-las assim, um sentido preito ao poeta e à poesia.

A participação do pintor Urbano é a reprodução do seu “Caderno de Antero”, de 1991 (técnica mista sobre papel) e “Antero” (óleo e colagem sobre tela), de 1992, ”não existindo, portanto, coincidência temporal entre a arte de Urbano e a escrita dos poemas por Botelho (em 2009). No “Caderno”, o rosto de Antero é o motivo central. Surge ora contrastado quase a negro-branco, ora matizado, ora apenas esboçado – como se desaparecesse diante dos nossos olhos inquiridores ou tão pouco chegasse a existir, uma espécie de limbo, in betwween. Num dos “retratos” oferece-se um rosto ensanguentado, melhor dizendo, um rosto sem rosto em que o sangue é a sua única identidade. O corpo (adormecido, morto?) não parece pacificado – ou uma possibilidade de Antero continuar entre nós, sobreviventes. Com o mesmo sinal parece o pormenor do banco (do suicídio) – antes ou depois da morte, com uma nuvem que derrama uma água que (já lavou) o sangue derramado (pelo inacreditável tiro duas vezes repetido).

Precioso livro para nos acompanhar na leitura de Antero e na reflexão sobre a (sua) vida.

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