VIAJAR DE SI PARA SI

por cam

O senhor Vasco Teixeira, “patrão” da Porto Editora, afirmou numa entrevista (ao jornal Público, em Novembro de 2010, salvo erro): “Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, eu dir-lhe-ei que não. Quando muito teremos algumas edições artesanais. (…) E haverá mercado para isso. Para o tipo que faz uma edição de 30 ou 50 exemplares, que os amantes de poesia comprarão.” Deve ter sido para “acabar de vez” com a poesia que o sôr Teixeira comprou, entre outras editoras, a Assírio & Alvim. Também deve ter sido por estas e por outras malandrices que surgem cada vez mais “edições artesanais” de poesia. Boas. Não sei se todas fazem edições de apenas “30 ou 50 exemplares”, mas o sôr Teixeira terá razão quando diz que “que os amantes de poesia [os] comprarão”. Longa vida ao camarada Teixeira! (sem poesia vive-se mais tempo, pensará ele e os que o apoiam…). Viva! Pum!

“Capitais”, livro de poemas de Paulo Tavares, foi editado este ano pela Artefacto (não está impresso o nome mas foi mesmo assim que eles quiseram), pequena editora sediada na Guilherme Cossoul, em Lisboa, antiga e veneranda sociedade recreativa de bairro que muito e bom teatro nela fez nascer. A tiragem é de 200 exemplares (‘tá a ver, sôr Teixeira, ainda está longe a sua metazinha de apenas “30 ou 50 exemplares”…) Para “os amantes de poesia”, já se vê (seremos assim tão poucos?).

O viajante por capitais da velha Europa tem “guardada num / minúsculo compartimento, a terra natal, / o país onde o mar se transformou / num mausoléu para adoração à distância / e as margens em ancoradouros balneares.” Na viagem, mesmo que ela esteja longe de ser a romântica viagem de educação (sentimental e outra, mas sempre iniciática, como todas as viagens são, e as que se fazem ao interior de nós mesmos não são excepção), há uma “sobreposição dos elementos: / história, ficção e tudo o que lá cabe.” Numa das paragens, o viajante abre “o quarto a um obsessivo foco / de luz cartesiano: estou vivo, existo, / e a realidade surge, tantas vezes, como / um aspecto secundário a essa constatação.” Mas pode hesitar nesta constatação: “quem nos dá, / afinal, classificação negativa / na competência de estar vivo?” Na exposição à viagem (viajar é algo a que nos expomos, saber até onde aguentamos a fuga – de nós e dos outros – em simulacros de aproximação ao outro, ao outro de nós), sob o efeito de um “copo cheio / de álcool nórdico” acontece também ao viajante apanhar um soco “sem defesa e logo um pontapé / se vem alojar entre as vértebras”; “a dor mais funda, porém, /será sempre de outra ordem: / rasurar da memória o motivo / da porrada e a face oculta de / quem nos apanha desprevenidos.”

Viaja-se entre “estruturas de penumbra”, as ruas a servir “os referenciais do esquecimento / que crescem nos poros / das grandes estruturas vivas.” – as Cidades. E nós nelas.

A poesia é (também) isto: viajar por entre as palavras, tão inseguros como numa viagem para o desconhecido. Que é sempre.

(coisa que o sôr Teixeira nunca descobrirá – também não lhe interessa).

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One Comment to “VIAJAR DE SI PARA SI”

  1. pode ser que deus o tenha entretanto inspirado.

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