MÁ RAÇA

por cam

Em “Má raça. 22 canções”, desenhos de Alex Gozblau e poemas de João Paulo Cotrim (Abysmo, 2012), dá-se o acontecimento, de alguma rareza, das imagens desenhadas e palavras escritas entabularem variados diálogos, que tanto podem ser amistosos, de enfrentamento ou de relativo afastamento. Mas nenhum do trabalho é reflexo do outro (versão simplificadora que reduz o real a um congelamento impossível), e muito menos os desenhos são meras ilustrações (no sentido de tradução de uma linguagem para outra, de acréscimo de sentido a uma verdade prévia). O que parece haver é desdobramentos de sentidos de um universo que se dá (pela imagem e pela escrita) ao leitor – também ele convidado ao jogo da diversidade em movimento que o livro é. A haver espelho ele será poliédrico; espelhos mutantes – como a realidade escorregadia, deslizante. Falei em mutante e apercebo-me como esse termo pode de certo modo ser a marca do que neste livro se produz. Com efeito, os dois autores criam figuras e paisagens humanas que habitam zonas incriadas ou personagens que já deixaram de pertencer ao jogo de símbolos com que nos habituámos a olhar o mundo e a ter a confiança de o perceber. A palavra que parece pedir uma outra e logo se recusa a isso, numa suspensão ou na oferta de uma inesperada outra, mas numa lógica que não lhe é anterior mas que se faz ela própria nesse jogo ora suave ora abrupto de sentidos. Um bricolage feito não de restos mas de pedaços vivos de corpos vivos, bricolage estonteante que parece correr por vezes às cegas porque sabe que o corpo, os corpos, morrem mesmo. O bricolage reconstrói mas não ressuscita. Mas se isto é justo para as palavras (será?), é-o de igual modo para as imagens desenhadas. Nestas, na sua linguagem própria, o desacerto do mundo e daqueles que o habitam torna-se rigoroso, se assim se poderá dizer. Não há restos, nestas imagens, como se o desconcerto estivesse concertado. O terrível que quase deixa de o ser. Não gosto de comparações, mas não se pode deixar, creio, de evocar muita da literatura “negra”, ou a fotografia de autores como Witkin ou Francesca Woodman (sem esquecer as grandes diferenças entre eles).

A noite é a luz deste livro – noite a brilhar na noite, como sabem todos os seres que a habitam e que nunca conheceram o sol, ou dele já se esqueceram, porque sim ou porque não. Os corpos dançantes, inconstantes, roupas enxovalhadas, os líquidos que sem fim se ingerem, a música que se ouve e por vezes enlaça e morde os corpos, o amor que corta as almas, circo cantante, teatro fantasmático. A madrugada que dá a volta sobre si mesma para de novo ser noite, “cosendo lábios às coisas que se dizem / no viés da rotina.”

Resta dizer que este livro é, como todos os que o João Paulo tem feito nestes poucos meses de vida da Abysmo, um belo livro (e apetece dizer: terrível).

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: