FAROLINS VERMELHOS DA MEMÓRIA

por cam

Ficam a parede e a janela “como extrema / linguagem depurada do lirismo” – fica o dizer e menos a estória, a História, o Mito, que são do Pedro e da Inês, trágicos do nosso século XIV. A Inês, diz o poeta de hoje, “recriamo-la, poesia / que se gera em sentido inverso à vida: / Inês num paraíso que não há, / caminha virtual entre poemas.” Talvez não digam isto os versos citados do “Pedro e Inês. Dolce Stil Nuovo”, do poeta Nuno Dempster (edição Sempre em Pé, 2011). Dirá cada um a sua verdade. Nesta, o Pedro e a Inês da História e do Mito dã-se num irónico dolce stil nuovo (decassílabo acentuado na 6ª sílaba, nascido em Dante): o amor delicado e cortês é por Dempster transmudado, temporal e simbolicamente, num amor desencantado, no atravessar dos séculos, “(…) Pedro e Inês / são um casal de amantes sem história / que chegou de autocarro e ninguém viu.” O amor galante, cortês, transforma-se pelas palavras recriadoras de Nuno Dempster num amor louco: “Não se sabe a vida / a vida dos divinos, a mais íntima / (…) quando uniam os corpos com furor (…) / Pedro e Inês estão vivos e caminham / pelas ruas urbanas são a imagem / que salva da tristeza quem não vive / como eles se entregaram: doidamente.” “Nada é o que parece.”

“Ninguém pode, nem sequer em poesia, / reduzir a algarismos os amantes / abatidos suspensos fuzilados / de encontro aos murais claros da alegria”. “A história só escreve equações, / da vida interior nada se lê. (…) Inês, num paraíso que não há, / caminha virtual entre poemas.”

 “Pedro e Inês. Dolce Stil Nuovo”, ao contrário do último livro do poeta (“K3”) só aparentemente é um poema longo, com uma narrativa que tece pontos de contacto com o teatro, com organização por cenas ou quadros; diferentemente, em “Pedro e Inês”, estas cenas ou quadros criam dinâmicas temporais – a História, o Mito, o nosso século, os nossos dias, com as tensões daí resultantes, e também do cruzamento de ideologias amorosas (os amantes perseguidos pela Cidade do poeta Daniel Filipe, da “A Invenção do Amor”) ou de outros mitos (Antígona). Se a janela do poeta fosse em Nova Iorque, diz, “seria mais visível o confronto / do mito com o trânsito dos carros”; mas da sua cidade de província, diz ainda, consegue “observar os mesmos riscos / dos farolins vermelhos da memória / e espantar-me com Pedro e Inês antigos.”

Talvez as palavras dos poetas não sejam afinal mais do que o sucessivo rol de desdobramentos de si e do que alimenta, não uma vida, a sua vida, mas as hipóteses de vida que se buscam aqui e ali – nos outros, nas palavras que reverberam imagens, ou o seu contrário: “a urgência da denúncia que me bate / nas têmporas (…), /” (…) “a cabeça povoa-se de imagens / que me agitam os dias, violando / éclogas impossíveis de escrever”

“Parece que perdi a linguagem / com que se nomeiam os amantes.”

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