UM POEMA DE GUERRA

por cam

K3 foi, respigo de vários sítios Web, durante a guerra colonial portuguesa na Guiné, um aquartelamento situado a três quilómetros da margem esquerda do rio Cacheu, para guarnecer o destacamento e para proteger, de um ponto de vista colonial, a respectiva população, perto da tabanca de Saliquinhedim, no centro do muito célebre, na altura, triângulo da morte (povoações do Olossato, Bissorã e Mansabá).

K3 é o título de um longo poema (56 páginas) de Nuno Dempster (Ponta Delgada, 1944), editado pela & etc em Janeiro de 2011.

O poema foi «escrito / numa noite anormal de Junho, / encharcada de vento e chuva fria, / do ano dois mil e dez,». Tudo o que se possa dizer deste livro-poema passa inevitavelmente pelos significados da guerra, desta guerra tão especial, e pelos papéis que o autor-narrador nela teve, ele que se viu nela a «representar com este negros / o papel dos antigos marinheiros, / eu, que trouxe Stan Getz para o mato, / um gira-discos a pilhas / e os livros de Pavese.», e tem ainda: «digo hoje no poema» (…) Não vou ficar aqui, / não vou morrer, / era a minha certeza, escrevo agora.». O livro-poema de Dempster é também uma narrativa daquele tempo da «contradição maior» que era «caminhar no fio da loucura» onde e quando «Voltar ou não voltar, // morrer ou não morrer, tanto fazia.» Falar deste livro-poema é também, claro, falar das suas qualidades específicas, como seja, o registo do horror, da animalidade, da brutalidade, do sem-sentido daquela guerra e dos seus actos, numa linguagem que encontra no seu despojamento, no seu estar-lá-então e no aqui-agora, o ponto exacto da tensão entre a referencialidade exacta e a reescrita da memória (que não é apenas daquela guerra, mas também da sua infância, das relações, da música), «até que no poema eu tente / a redenção, / ou o vírus da morte / vá destruindo as células / e não haja memória.» Mas conseguir a tensão entre o dito e o não-dito ou o dito-de-outro-modo («Os olhos transmudavam a semântica / do real em imagens / que o presente esgotava, (…)», à beira do impossível, é o notável mérito deste grande poema-livro. O que leva a ser este modesto exercício de leitura uma coisa evitável. Mesmo assim.

Há em K3 (1) inúmeras “falas” (2) que expressam a dificuldade do dizer poético no confronto com o real (não apenas da guerra), ao mesmo tempo que é alerta para uma possibilidade de aderência do leitor que o deixe em demasia preso ao fluir da narrativa. A poesia é coisa débil, «Os versos serão sempre / mais do que os mortos / e têm vida curta, /», e não há escapatória, é com os versos e sobre os versos que o poeta-soldado navega e se faz, «até o futuro, / que era então esta estrofe, / escrita lentamente sobre / o desembarque em terra alheia,/». «Ah, o poema (…) / não é um hospício onde a droga / se embrenhe nas palavras / e as solte em borbotões e páginas; // nem é sequer revolta póstuma, / se já foi feito tudo / e seria preciso fazê-lo outra vez, / e outra vez, e outra vez, e sempre. // O poema só pode dizer isso, //». Um poema de guerra.

(1) Que se inicia com a partida de um contingente militar do cais de Alcântara, em Lisboa, com destino à África em guerra (presumo que por volta de 1964).

(2) Há um lado performativo no poema que é um dos seus aspectos mais singulares, aspecto que se pode intimamente relacionar com a produção de imagens e “movimentos de câmara” cinematográficos.

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