OS MÚSCULOS DOS SENTIDOS

por cam

Acontece que as palavras dos outros as sintamos como nossas, não na sua exactidão formal, mas no que evocam, um passo em frente na direcção daquilo que ingloriamente perseguimos – e que nunca deixaremos incansavelmente de perseguir; o que está antes e depois das palavras e se cola a nós como pele sobre pele. Aconteceu assim com as palavras inscritas na primeira estrofe do primeiro poema («Rua de Camões») do Câmara Escura. Uma Antologia, de Inês Lourenço (edição Língua Morta, 2012). São estas as palavras: «A minha infância / cheira a soalho esfregado a piaçaba / aos chocolates do meu pai aos Domingos / à camisa de noite de flanela / da minha mãe» Quem leu o meu Mundo de Aventuras, ou o Mito, perceberá melhor o que quero dizer. (a estas palavras juntaria o poema «Vírus», que começa assim: «Há uma tristeza inerme nos feriados /»). Dialogo com facilidade e gosto com a poesia de Inês Lourenço, coisa que acontece com outros poetas (poucos). Como a analítica não é meu ofício nem dever, fico-me pela adesão intelectual e afectiva (na medida em que posso distinguir uma da outra), pelo gosto que valorizo segundo as minhas idiossincrasias e humores. Esta antologia (selecção do Manuel de Freitas), embora breve (30 poemas) cobre o período 1980-2010 e é também por isso um livro precioso para quem gosta da poesia da autora de Logros Consentidos.

Num jogo de contrastes, Inês Lourenço elege o «lábio», o «hausto», o «feixe do timbre», a «fenda da venda» («Arte Poética I»). O dizer, o fulgor, o singular, o entrevisto. Não sei se será apenas isto, ou sobretudo isto, que se entrosa na identidade da sua voz poética. Em «Artes Poéticas II (coda)», de que gosto particularmente, a «beleza de um verso» emerge da dialéctica do paradoxo entre o que polui e o que cintila, «cercado o movente sangue / sobre a neve» – «onde escassos chegam». Aqui, é o entrevisto (ou o inalcançável, ou aquilo que não se pode alcançar?) que marca. Na «III», Inês Lourenço entra a matar na querela «inspiração» vs «carpintaria dos versos» – a mim, tal como a ela, parece-me, não interessam os poetas «altivos» que ignoram o «tráfego do fim da tarde». Aqui (contradição aparente?), Inês Lourenço parece eleger as «pinças» em detrimento do «lábio». Como em «Quebra-Luz», a sua desconfiança pelos poetas que procuram «apaziguar o poema com a sua / indústria de incensos», «indiferentes à faca / incandescente que separa / o corpo das palavras / da substância do mundo.»

Para além do que está abordado de forma mais explícita nas «Artes Poéticas», são também bem visíveis em outros poemas os diálogos com a matéria do poema, numa permanente tensão entre uma irrupção do exterior de si, se assim se pode dizer, e a matéria do fazer poético.

No final do livro, mais próximo de nós no tempo (2010): «Fender os versos / com a lâmina implacável do / tempo. No umbigo do poema cravar / o sabre rente às vísceras dos verbos, / à linfa de adjectivos. Despedaçar / os músculos dos sentidos. Abrir / a rede viária do sangue. Romper / a velha epiderme.» Fender, cravar, despedaçar, abrir, romper: um programa de combate poético.

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