CLUBE DOS CORAÇÕES DESTROÇADOS

por cam

 A poesia de Fernando Machado Silva é uma luta intensa e, por vezes, violenta. Embora o poeta esteja invariavelmente acompanhado, mesmo no seu abandono, o poeta dialoga sem cessar consigo mesmo e com as palavras que o podem dizer – ou que ele desejaria que o dissessem. A perda, a falha: o poeta é um «contorcionista do clube dos corações destroçados». Só, absolutamente só, convoca outros poetas: «vem / al berto / com a tua voz grave / ditar-me os meandros do medo» (iii). Estas são pistas que poderemos usar para dialogar com a poesia do Fernando – poeta ainda não publicado em livro (sê-lo-á em breve), com poemas dispersos em suportes efémeros ou de circulação restrita. Leio agora uma plaquette, doméstica, que ele distribuiu a amigos e desconhecidos, no passado 21 de Março, Dia Mundial da Poesia, e se chama «poemas da despedida, vol. II, seguido de 7 poemas» (16 pgs.).

No poema «Resposta a “choro” de Abdelwahhab Azzawi»: «tive um rosto / um nome / agora só um corpo / despojado» (em alguns poemas deste poeta, creio que das últimas produções, ele alinha à direita do poema uma espécie de segundo poema que ora se chega, ora se afasta do outro alinhado à esquerda, como neste agora citado). Os significados possíveis deste «despojo» estão presentes, nesta pequena obra, em inúmeras variações: «junto ao quarto crescente que vi / surgir a tristeza» (i), «este corpo de fantasmas / abandonado uma e outra vez» (vi), «como se nunca tivesse existido» (vii). O amor – exibido, negado, lutado, luminoso, sombrio – faz-se também nas palavras do poeta, como se com elas o amor pudesse ser evidente para ele poeta-homem, no limite o pudesse construir. Talvez ele saiba que por vezes o amor (desejado, procurado, fugidio ou conquistado) não pode ser dito, e que por outras vezes esmague o seu dizer. A um e outro esforço se entrega o poeta, ora desnudando, ora camuflando. Num e noutro esforço, a poesia perde e ganha, e podemos adivinhar que o poeta e o leitor nem sempre coincidirão nos seus significados e potências.

A poesia de Fernando Machado Silva está bem consciente disso, ela é também o pensar da poesia: «pende a testa à lisura do vidro / no retorno a casa os olhos / vão na queda da luz. ninguém / repara nessa habitual tristeza / do corpo: o mais íntimo o / sonegado soterrado pela gravidade / de uma alma. Outro corpo vi- / esse desarmado despido / de metáforas e imagens / – um abismo virado do avesso – que de suas dobras do mundo» («poema ético»).

Irei continuar a ler a poesia do meu amigo Fernando Machado Silva, não como analista, que nunca serei, mas como seu leitor; por isso, este é apenas um primeiro testemunho de leitura – e que me deixa melhor saborear um poema assim: «é sobre o veludo / dos teus lábios / que a minha língua cai: / grave ícaro ao sol / rubro empédocles à boca / de um vulcão feito carne. / e retomar a lição soletrando / o misterioso movimento / de cada letra rosto a rosto / com o eremita.» («com o eremita»). 

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