QUARESMA, DECIFRADOR (02)

por cam

Fernando Pessoa “leu” uma notícia curta e impessoal de um jornal onde se dizia que a “morte” de Abílio Quaresma acontecera em Nova Iorque. “Amargou-me n’alma isto de um homem como Quaresma nem um dia ter de fama. Bem sabia eu que ele não a buscara nunca – sonhador sempre, fechado no seu alcoolismo impenitente e no seu raciocínio já quasi automatizado.” Em memória dele, traça-lhe uma biografia: Encontrei o dr. Quaresma enfiado numa poltrona em atitude de abatimento. Não estaria bêbado – e daí, talvez o estivesse levemente – mas com certeza na véspera o havia estado. Recebeu-me levantando-se com uma lentidão brusca, com irritado custo. O seu aspecto indicava o vício como o do álcool. O amarelecimento da barba e do bigode – de um castanho claro agrisalhado –, o aspecto igualmente sujo do polegar e indicador da mão direita e da esquerda (menos) – superindicavam o tabaco. Fumava, com efeito, constantemente. O quarto estava numa desarrumação flagrante. Havia por cima de tudo cinza, papéis amarrotados ou para deitar fora mas arremessados para cima da mesa. Tudo traía a impaciência, a irrequietação e a indiferença. Via-se logo que nem esforço contínuo, nem coragem física, nem ímpeto amoroso podiam ter origem ou lugar naquele corpo retirado da circulação. Era, no pior sentido da palavra, um inofensivo.

Tinha, contudo, um raciocínio frio e fluido que conseguia contornar as saliências da realidade desenhando-as, quasi involuntariamente, – riscando leve. Conseguiu o que alguns sujeitos conseguem: ver a realidade em absoluto, demarcá-la dos acidentes e dos acessórios, e, de um golpe súbito, desdobrado em descaramento, fixar, como um relâmpago, todo o pormenor do visível. Perdido entre as charadas e os problemas como uma criança entre brinquedos, erguia sempre para nós uns olhos inocentes e lúcidos. A clareza mental que se adquire no esclarecimento, e que, quando se pergunta sobre a realidade, ou confunde tudo ou compreende tudo, não havendo nele, como uma honradez da vigília, nem compromisso, nem meio-termo. Estava desarmado perante a realidade e a vida. A realidade era para ele um muro branco, por cima do qual não a via mesmo que ver conseguisse a realidade quotidiana. Mas quando a realidade fosse um problema, e o raciocínio a pudesse incluir, então, de repente, a tristeza caía dele como um disfarce e assumia o comando de tudo como um rei revelado. Entenda-se: o Quaresma humilde não desaparecia; sobrepunha-se-lhe, como uma auréola, o raciocínio de Quaresma. Várias vezes tenho visto o mesmo fácies nos velhos guarda-livros, nos maduros que prateleiam nos alfarrabistas, nos reformados com manias confessionais, coleccionadores de selos com entendimento de serrilhas, historiadores minuciosos de passados universais, anatomistas do inútil.

Eis o retrato do “incompetente para a vida” Fernando Pessoa, perdão, Abílio Quaresma, decifrador.

[continuado daqui]

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