QUARESMA DECIFRADOR (01)

por cam

Como se sabe, a arca de Pessoa não tem fim. A dita tem um encantamento mágico que faz com que os seres que lhe tocam se desdobrem noutros seres, e sempre assim, até ao fim dos tempos. A arca existiu mesmo antes de Pessoa e a heteronomia deste é tão só um produto, exuberante, do encantamento.

Cada pesquisador da obra de Pessoa & Cia. queda vítima do processo mágico. Conhecem-se mal os resultados do encantamento nos pesquisadores, apenas podemos deduzi-los dos inumeráveis duplos que se produzem em torno e a partir de Pessoa lui-même, ao ponto de ser razoável questionarmo-nos se este na verdade existiu ou se é apenas uma imagem fantasmática de um qualquer ser original que nunca conheceremos. Duplos de duplos de duplos, sobreposições quânticas de universos possíveis.

Ana Maria Freitas é mais uma “vítima” do encantamento da arca. Para nós, ingénuos leitores afastados da arca-mãe, é uma dádiva o que ela nos traz nesta variação heteronímica, nada mais, nada menos do que um Pessoa escritor de novelas policiárias. Freitas chama-lhe “Quaresma Decifrador. As Novelas Policiárias” (volume de quase 500 páginas publicado em 2008 pela Assírio & Alvim). Estas novelas, 13, foram escritas durante décadas, terminaram com morte de Fernando Pessoa e ficaram todas incompletas. Freitas dá-nos conta desta particularidade historiográfica: “Em Durban começou a escrever histórias policiais, primeiro «Detective Stories» e, depois, «Tales of a Reasoner». “Como figura central criou um detective infalível, de acordo com as regras do policial: o ex-Sargeant Byng, alcoólico, raciocinador, incompetente para a vida quotidiana.” (sublinhado meu). As novelas agora reunidas giram em torno do decifrador e raciocinador infalível Abílio Fernandes Quaresma, solteiro, maior de idade e médico sem clínica. É o “próprio” Pessoa que nos diz dele: “Morava num 3º andar da Rua dos Fanqueiros, num pequeno quarto, desarrumado, com uma janela aberta para os telhados, por onde entrava a luz de Lisboa. Considerava-se um decifrador de charadas. Vivia no seu quarto, num estado de semi-doença indefinida, vegetando embrulhado numa manta e lendo. Deixava perceber, por um ligeiro tremor e pelos dedos amarelados, as marcas dos seus dois vícios, o alcoolismo e o tabaco.” Um “incompetente para a vida. Sonhador, fechado num alcoolismo impenitente e num raciocínio automatizado, Quaresma vagueia pela Lisboa de Bernardo Soares, ao sabor de um devaneio lógico. Um tipo indeciso de asceta da Baixa. A clareza mental atingiu nele o delírio.”

[continua

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2 comentários to “QUARESMA DECIFRADOR (01)”

  1. É curioso notar que Pessoa atribuiu ao detetive Abílio Fernandes Quaresma algumas das suas próprias características de personalidade e de vida. Ambos solteiros, alcoólicos. fumadores inveterados (Pessoa fumava cerca de quatro maços de cigarros por dia), inteligentes (a inteligência do escritor era brilhante, genial) com um particular gosto pelas charadas. Pessoa tinha construído um heterónimo, ou melhor uma personagem literária, a que deu o nome de A.A. Cross, cruzadista e charadista, que concorria nos Jornais ingleses à decifração de charadas e por cujo êxito Ofélia rezava, como afirma nas suas cartas ao apaixonado Fernando.
    No Prefácio a Quaresma, diz-nos Fernando Pessoa: «Nós não vemos só com os sentidos; vemos, misturadamente, com a inteligência também. Elimino, agora, a hipótese, já anormal, da alucinação. Refiro-me apenas à experiência normal. Um exemplo: passo por uma rua e vejo um homem caído no passeio. Instintivamente me pergunto: por que é que este homem caiu aqui?. Já aqui vai um erro de raciocínio, e, portanto, uma possibilidade de erro de facto, Eu não vi o homem cair ali. Vi-o já caído, não é, portanto, um “facto” para mim, que o homem caísse ali. O que é um “facto” para mim é que ele está caído ali. Pode ser que tenha caído noutro lugar e que o tenham transportado para ali; muita coisa mais pode ser. Creio ter-lhes mostrado bem como é complicado o que parece tão singelo. É preciso, em qualquer problema, separar-se cuidadosamente, logo no princípio, os dados e as conclusões…»

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