POE-ÉTICA (01)

por cam

Aconchego na minha mesa de trabalho Pessoa, Borges e, agora, Savater. Tudo, todos, por causa própria, mas que ambiciona ser pública: um romance, à falta de melhor termo, que joga (brinca) com a sucessão dos acontecimentos, a ordem das causas e das consequências, a natureza do real e da ficção, o lugar da escrita e da leitura, a revolta do tempo, espelhos, um ou mais assassinos num edifício de três andares…

Este romance ainda sem nome está a ser escrito desde 2007 e só a meio do ano passado deixei nele entrar o Pessoa, o das novelas policiárias (Quaresma, Decifrador), e o Borges (sobretudo quando ele reflecte sobre a literatura policial), em parte pela mão do seu biógrafo Volodia Teitelboim – e ainda virá o Pessoa dos Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal (edição de Richard Zenith), o dos Escritos sobre Génio e Loucura (edição de Jerónimo Pizarro), e o sempre presente Bernardo Soares e… chega, se não, não há romance; e o filósofo espanhol Fernando Savater. Este veio de uma releitura de Los Cuadernos del Norte (Revista Cultural de la Caja de Ahorros de Asturias), e, no número de 1983, dedicado à “Novela Criminal”, entre as páginas 8 e 11 lá está o artigo do filósofo: “Novela detectivesca y conciencia moral (ensayo de poe-etica)”. Metade do artigo é preenchido com uma discussão sobre os chamados romance detectivesco e romance negro – e Savater inclina-se para o primeiro. Lembra também, que o primeiro tem como arquétipo clássico o “Rei Édipo” e o segundo “Orestes” ou mesmo “Filoctetes”. Mas ele, no fundo, crê – e eu alinho – que a questão não é de géneros mas de individualidades.

A segunda parte do breve ensaio coloca as questões que mais me interessam neste contexto da minha escrita. Diz ele, que o romance detectivesco parte de uma perplexidade para chegar a uma culpabilidade: da esfinge ao descobrimento do crime, tal como em Édipo. Desde sempre – e para sempre – os indivíduos têm de escolher entre o mal e o bem, entre a virtude e o crime, indiferentes às épocas e aos regimes políticos, como se se tratasse do primeiro dia da história. Para conservar a independência e liberdade do indivíduo, é preciso reconhecer-lhe a capacidade de cometer o indesculpável, o injustificável. O detective começa a sua investigação pela mais terrível e transcendente verdade: qualquer homem tem bons motivos para matar um seu semelhante. A morte do próximo, essa expedita solução a que renunciámos socialmente para formar a comunidade, não deixa nunca de lançar-nos o seu apelo. O romance é tanto melhor, pois, quantas mais personagens estão em condições e com disposição de matar. Há sempre uma vontade que se decide e dá o grande salto. A investigação procura juntar a decisão e o gesto que a cumpre num único agente livre, identificado perante a morte.

[continua]

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