“ENGENHEIROS DE ALMAS”

por cam

Terminei há dias a leitura de Os Engenheiros de Almas – O Partido Comunista e os Intelectuais (Editorial Estampa, 1996)*, do historiador João Madeira. Tinha feito uma primeira leitura, incompleta, quando, em 1997, estava a escrever a minha tese de mestrado (sobre o Teatro da Cornucópia e a crítica, editora frenesi, 1999). A investigação de J. Madeira cobre fundamentalmente o período 1930-1960, baseada em fontes judiciais, depoimentos escritos e imprensa clandestina. O autor não se coíbe de juntar à configuração histórica uma interpretação de natureza sociológica. Embora este desiderato não seja explícito, ele é inevitável, parece-me. Creio que deverá fazer par este trabalho com a biografia política de Cunhal, os três volumes de José Pacheco Pereira (editora Temas e Debates, 1999, 2001 e 2005), para quem deseje abordar este período da nossa história e de um dos seus protagonistas de fundo, o PCP.

Destaques, para mim: a impressão que fica de que o PCP e a PVDE/PIDE viveram em interdependência, o primeiro, no complexo processo da clandestinidade, a segunda, no não menos complexo trabalho de lhe dar luta, por vezes ao ponto de assimilar ou mimetizar alguns dos seus processos. Por outro lado, em muitos momentos da sua história, o PCP parece viver a sobrevalorizar os mecanismos (lúdicos) da fuga. É evidente que isto não será a visão mais “correcta”, sobretudo porque no caso dos comunistas teve consequência trágicas, incluindo a prisão prolongada e a morte de muitos dos homens e mulheres que se entregaram com espírito de missão à luta contra aquilo que consideravam não dever existir em Portugal e num mundo dividido entre exploradores e explorados. Todavia, a própria luta interna no PCP, bem documentada em ambas as obras, mostra também que o fechamento ideológico e organizacional, impediu outras saídas políticas e, por isso, foi motivo de longas e dolorosas querelas com outros antifascistas, visíveis em especial nos processos de constituição e acção de movimentos “unitários” e nos processos eleitorais, em particular no do general Humberto Delgado.

Álvaro Cunhal é a figura omnipotente e omnipresente em tudo isto. Genial e implacável talvez possam ser epítetos em relevo, quer na sua vida pessoal, quer partidária e ideológica. As mais de duas mil páginas que até ao momento Pacheco Pereira lhe dedicou escalpelizam o seu percurso, de forma quase obsessiva, e, em vários sentidos, “presentificam-no”.

O que é impressionante nesta parte da lusa história, é que todas as teses de Cunhal/PCP nunca se concretizaram, em especial a mais importante delas, a da “revolução democrática nacional”, que substituiu a tese do “levantamento popular”, que por sua vez substituiu a da “sublevação popular armada”… O 25 de Abril foi para o PCP, mas apenas para ele, a concretização desse objectivo. Mas só para o PCP, pois, em boa verdade, o 25 de Abril foi mais um golpe (bem sucedido) militar, na boa linha putschista que já vem da revolução liberal de oitocentos e que depois teve dois momentos maiores, o 5 de Outubro de 1910 e o 28 de Maio de 1926. Esse lado “interruptor” foi de consequências bem negativas e de que talvez não tenhamos ainda plena consciência. E nunca nos livrámos disso. Hoje, com outros protagonistas, continua a fazer “estragos”. Seria bom que “trocássemos umas ideias sobre o assunto”…

*= A expressão “engenheiros de almas” foi cunhada por Stalin para se referir à função social dos escritores.

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