ATÉ À VITÓRIA FINAL!

por cam

Em 1999, José Pacheco Pereira iniciou a publicação de uma biografia política de Álvaro Cunhal. Continuou, em 2001 e em 2005. Os três volumes totalizam 2.117 páginas. Cronologicamente, o volume terceiro terminou no ano de 1960, e Pacheco Pereira já anunciou que este ano publicará o quarto e último volume, dedicado, depreende-se, ao período que decorre desde a saída da prisão até ao final da vida do dirigente comunista, que ocorreu em 13 de Junho de 2005.

Só nestas últimas semanas me dediquei a ler a obra. Já outros o disseram: o trabalho de Pacheco Pereira é monumental, rigoroso, minucioso, sério, etc., etc. Toma como centro vital o militante e dirigente comunista Álvaro Cunhal, nas suas diferentes facetas, mas é sobretudo uma história do PCP e da oposição política ao regime de Salazar (o que está publicado, o que vier, será, naturalmente, da oposição ao regime liderado por Caetano). Não apenas a história do PCP mas de todos – indivíduos e grupos – os que tiveram presença e voz na maior parte da nossa vida no século XX. Um panorama impressivo e impressionante deste tempo. Isto que digo não é novidade, mas creio que nunca será demais repeti-lo.

A biografia política de Álvaro Cunhal feita por Pacheco Pereira tem tido a companhia de inúmeras investigações históricas (e não só) que revisitam o nosso passado desde, principalmente, a revolução liberal de oitocentos até aos nossos dias, a par de outras que abrangem outros períodos, mesmo de maior amplitude, como são as várias histórias de Portugal recentemente publicadas ou em vias disso. Significa isto que temos cada vez menos desculpas para continuarmos levianamente acomodados sobre ideias feitas acerca de nós – Portugueses coisa e tal, a maioria das vezes vilipendiados. São pontos de vista historiograficamente distintos, por diversas razões, mas une-os a necessidade de olhar para nós como povo, nação, o que quer que seja, sem pontos de partida condicionados ou, sendo-o, mostrados às claras. Com a frontalidade de estudar a vida e obra de um Salazar ou de um Cunhal por pessoas que declaradamente não estão do lado da simpatia, ou se estão nas tintas para isso.

Hoje, ler e estudar de novo a nossa história sem ideias preconcebidas é, creio, um exercício fundamental de cidadania.

Mas eu queria era falar do livro do Pacheco Pereira. Há nele muitas, muitas coisas sobre que reflectir, mas, por agora, limito-me a uma delas: na vida do PCP, e dos seus principais dirigentes, foi predominante, a par de um genuíno espírito de missão em defesa dos mais desprotegidos socialmente, um desfasamento essencial com a realidade e, por coerência, sucessivos e repentinos volte-faces, uma estratégia para fazer das derrotas vitórias, das inimizades amizades, etc. Quando não era a realidade que se enganava, dizia-se que afinal “nós já o tínhamos dito, feito”, etc. Num período mais próximo de nós, Álvaro Cunhal transformou um golpe militar bem sucedido numa “revolução democrática e nacional”. E o pior é que isto não se pode colocar sob o chapéu do tacticismo, não, tem raízes profundas, é uma maneira de ser, um estado de espírito, conceitos ideológicos arreigados até ao apodrecimento. E o livro de Pacheco Pereira tem, entre muitos outros méritos, o de nos fornecer farto material de reflexão sobre isto.   

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