UM NOME INDIZÍVEL NUM AQUÁRIO VERDE

por cam

As Coisas, edição limitada

«Saudar o aparecimento de um novo livro é sempre motivo de alegria. Saudar o aparecimento de um primeiro livro de poesia é uma felicidade imensa. Mas, como festejar As Coisas, que se apresenta como obra de estreia de Inês Fonseca Santos, e cujo lançamento hoje aqui celebramos? Obra de estreia? Mas como, se a própria autora nos diz que houve outra obra antes desta? Tomemos o primeiro dos 32 poemas que constituem este título de Inês. Chama-se “Intróito” e diz assim:

 Era um poeta que só escrevia primeiras obras

condenado por ter um dia escrito um poema

feito com palavras conhecidas apenas pelos deuses.

Queria usar agora palavras como: lírios. Ou: Eva.

Considerá-las com ênfase, como lhe tinha ensinado uma amiga

poeta com um amigo poeta. Fechou-se em casa.

Encheu páginas de silêncio.

Passados dias, os deuses devolveram-no

às coisas. Com elas escreveu a segunda obra.

 As Coisas é essa segunda obra de Inês Fonseca Santos. O seu corpus poético começa portanto no Opus 2, e não no Opus 1, o que, sendo original, não deixa de ser adequado ao livro que aqui nos dá. Porque, mais do que uma recolha poética, uma primeira obra, com tudo o que isso comporta de terreno ensaiado pé ante pé, feita de impressões diversas e de diversas instâncias do real sobre os quais se exerce o ministério do poeta, As Coisas é um livro – com princípio, meio e fim. E é-o também porque rompe na cena poética portuguesa com um vigor, uma respiração e uma maturidade raras em obra inicial. Há em As Coisas uma espécie de fio narrativo, que é feito de buscas e perdas, de tentativas e erros, de ensaios e aproximações, de fragmentações e de colagens, fio que nos prende ao mistério essencial que qualquer leitor procura num livro: qual é o nome? De quem é o nome? A poesia procura “das erlösende Wort”, a palavra perdida de que fala Wittgenstein. E é nessa ânsia de uma remota palavra primordial que nos reconciliasse no mundo, mais do que com o mundo, que se encontram a busca do poeta e a expectativa do leitor.

Nessa busca, o livro, mais que o poeta, constrói um mundo, um mundo feito de coisas dispersas, entre as quais o único nexo possível é o de um nome indizível – realmente, um nome não-dito -, mundo que se arquitecta em poesia. A poesia é o logos, a palavra capaz de organizar um mundo que se apresenta à memória como uma colecção de disjecta membra, de coisas soltas, arrancadas a um corpo ideal, uno e compreensível: o mundo, tal como é, é obsceno; cabe à poesia torná-lo apresentável. Para já, fiquemos com o programa deste livro: descobrir o nome que dá um sentido às coisas, a todas as coisas. É claro que, neste mundo povoado de coisas e de reminiscências de coisas, e da recordação de um nome perdido, há pontos de amarração, coisas que são mais coisas que as outras: do meu ponto de vista (e o leitor é, à sua maneira, um re-criador do livro que o poeta escreveu), o aquário verde, figura recorrente neste livro tão sedutor, é o que pontua a deriva poética da autora (arrisco-me a dizer que é a melhor imagem a cores deste livro, elegantemente tintado em tons de sépia).  O aquário verde é silenciosa testemunha e sinal da persistente memória de um espaço, de uma casa, de um mundo. Lá ao alto, no cimo da estante, o aquário verde acolhe e alimenta os “peixes-palavras”, assiste e resiste à passagem do tempo e ao esquecimento das coisas em nós. Ele é que permanece, num território poético em que todas as coisas se movem e quebram, se colam e voltam a partir, porque o nome do desejo não encontra a expressão da sua mágoa. Porque o nome não encontra a expressão. E, no entanto, o poeta chama por ele, ousa dizê-lo como nome, ousa chamá-lo como coisa:

Havia várias formas de chamar-te.

Chamar-te não era apenas dizer o teu nome.

Muito menos fazer-te virar a cabeça na direcção da casa.

Era conhecer-te o rosto – dedicado, disponível, raro.

 

As coisas livres ficaram escritas no chão.

Dizer o nome seria iluminar toda a cena, e eternamente. Dizer o nome seria a glória da poesia e a sua condenação, o seu cumprimento e a sua exaustão, porque “as coisas/são feitas de vidro./Partem-se quando digo em voz alta/o teu nome. Nome de todas as coisas.” Este curtíssimo poema, inserido na parte inicial do livro, é uma das mais felizes expressões que aqui se encontram para dizer esse êxtase e agonia de toda a expressão poética. Se fosse possível dizer o nome que é em si todas as coisas, estas estariam condenadas a desaparecer. Mas o poema não é elegíaco, é o enunciado de uma verdade poética que nos devia levar sempre a seguir pelo caminho que já Novalis apontava: “quanto mais poético, mais verdadeiro”. Chamo agora a atenção para o facto de que, nesse curto poema, aquilo que vos li como primeiro verso é, realmente, o título do poema. E essa particularidade deste livro – a de os títulos não serem circunstanciais ou descritivos, mas constituírem em si uma parte do discurso que se integra no todo do poema – é o que torna este poema tão paradigmático de tudo o que Inês aqui escreve. É uma arte poética que se enuncia, com a brevidade de uma norma que será seguida sem falhas ao longo do livro: “as coisas/são feitas de vidro./Partem-se quando digo em voz alta/o teu nome. Nome de todas as coisas.” O poema, o longo poema que este livro é, declina todas as possibilidades desta ruína das coisas e da exaltação do nome desejado. E o incessante labor de reconstituir as coisas, à espera de poder voltar a dizer o nome que as estilhaça: “com sílabas/ de palavras caídas em desuso/ o teu nome volta a formar-se.” Tornam-se então indistintas as coisas e o nome que lhes dá sentido, a poesia resolve-se num movimento de construção/desconstrução, que é a dialéctica que faz o poema avançar, e que arquitecta a narrativa. Coisas recuperadas, irreparáveis, diferentes, semelhantes, materiais, sobreviventes. Coisas partidas, insignificantes, frágeis e difíceis. E as “mais difíceis”:

As coisas mais difíceis começaram por ser do corpo.

Pouco se pensava no tempo. Nenhuma consciência dele, menos ainda

do modo de contá-lo. Não pela falta de relógio

(o encarnado mostrava os números por debaixo de um arco-íris de cinco cores).

Era a falta de: as palavras. Pareciam-se com

o teu nome. O jogo – a guerra de procurá-las,

quanto mais dizê-las, fazia-nos de tempo (na pele, nos ossos).

Invencíveis, as coisas mais difíceis. Sobretudo

nos dias de sol:

com o som audível dos peixes no aquário verde,

a estante prestes a cair.

 

Dentro da casa, instalava-se a tempestade.             

Por casualidade, cruzei a leitura do livro da Inês com a de um romance do grande escritor espanhol Javier Marías. Chama-se Todas as almas. E aí, como que seguindo uma dinâmica de aproximações que se impõe quando menos a esperamos, encontrei este parágrafo: “Não posso dar-me ao luxo de dispor de todo o meu tempo e não ter em quem pensar, porque, se o faço, se não penso em alguém mas apenas em coisas, se não vivo a minha estada e a minha vida em conflito com alguém ou na sua previsão ou na sua antecipação, acabarei por não pensar em nada, desinteressado de tudo o que me rodeia e também de tudo o que possa nascer de mim.” O escritor precisa de um nome que o faça pensar, que o arranque à ditadura das coisas e o devolva à condição de ser-em-si-por-outro. Que nome é esse é o que a poesia – a de Inês como a de qualquer outro poeta – não diz. Como nota lapidarmente Manuel António Pina, “a poesia, se calhar, é uma porta que nos permite reconhecer que não há porta nenhuma”.

Vamos então ao último poema, “As coisas inquebráveis”: “Não me lembro de outras/que não as palavras”, diz a poeta. Permita-me que acrescente outra coisa, igualmente inquebrável, igualmente inútil, igualmente gloriosa: a vontade de escrever. Mesmo que dela apenas brote um nome indizível num aquário verde. »

António Mega Ferreira, Lisboa, 13 de Janeiro de 2012 [apresentação de  AS COISAS, de Inês Fonseca Santos, Lisboa, Abysmo, 2012 ]

[com um obrigado ao João Paulo Cotrim)

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