As Coisas «São feitas de vidro…»

por cam
Roubei isto ao inexcedível Cabrita:
«De comum é isto que nos dita:
somos dementes observadores de pássaros
numa floresta que está a arder.
Mas às vezes, desopilado pelo lado de dentro,
abalroa-nos um encontro. Pode ser um livro
como este: As Coisas, de Inês Fonseca Santos.
Merleau-Ponty chamava «carne do mundo»
à rede de olhares com que ligamos as coisas.
Mas olhá-las não chega, precisamos de despertar
para elas, de nos deixarmos tomar pelo seu viés,
para o seu trânsito e inaudível recorte inaparente.
Talvez aí, sensíveis às suas ressonâncias
«frágeis, repetitivas, como o som das moscas»,
possamos surpreender nas coisas o imanifesto
pendor com que nos culminam ou abysmam.
Este livro sonda, na carne do mundo,
a sua alma e desperta-nos para as coisas.
Uma vez deram-me uma bicicleta,
e aqueles pedais não sei se eram uma coisa
(ou duas?) ou o modo como eu respirava
na subida da Penha de França.
Este mesmo dúbio sentimento me aflorou
quando li estes poemas instigantes
e tão frios como o gelo que queima,
tão inesperados como a relação que as coisas
connosco tramam ao imaginar-nos
como o seu património imaterial.
Uma coisa é certa: As Coisas esvazia-nos
de qualquer sentimento de propriedade,
nele percebemos que o fundamental tem
a fragilidade dos filamentos das lâmpadas,
é o quase que está entre.
O que somos nós sem os intervalos
com que as coisas nos olham e dizem?
Só uma coisa – lá está – as “supera”,
também elas dependem da toxidade do amor:
As Coisas «São feitas de vidro./
Partem-se quando digo em voz alta/
o teu nome. Nome de todas as coisas».
Este é um livro dunar; sentamo-nos distraídos
a olhar o mar, julgando ter encontrado uma evidência
e de súbito estamos submersos. Porque o livro fala
das coisas comuns, a partir de palavras comuns
para nos infiltrar gota a gota no mistério:
«(…) o som dos cacos é uma coisa diferente/
do som dos teus passos.//
Contento-me com cópias como o escritor se contenta/
com a falta de palavras.» É um livro
que transforma o leitor na sua cópia feliz
e me escapa, e me faz gaguejar,
como ar entre os dedos, como a sede e a fome.
Mas já pensaram no que não se articularia,
sem esse reverso vazio? Não voltamos à sede?
Não matamos a fome, repetidamente? ´
É um livro que me escapa como aquela mosca
do Cortázar que encostava a cabeça no vidro
e passava, deixando-nos boquiabertos de espanto.
Por isso vos deixo três pequenos sismos
desta tão boa aposta do João Paulo Cotrim e da Abysmo:
AS COISAS LENTAS
Fumo demasiado depressa
o meu cigarro apagado.
Os cigarros fumam-se lentamente
ao espelho fixando um único dos nossos rostos.
Pois bem: na casa só nos cacos há reflexos. Os rostos suspendem-se
entre nós e nós, as letras das palavras. Os rostos aguardam-se,
observam-se, ao longe. E não há fumo que os evole..
Talvez por isso: nunca aprendi a acender um cigarro
por ser absolutamente desnecessário aprender a aprender a acender
um cigarro. Na casa onde tu fumavas
cada cigarro era uma letra. De cada vez que o filtro te tocava
os lábios eu perguntava: como te chamas? À superfície
do teu espelho, o teu vagar respondia-me
até ao esquecimento de nós.
Talvez por isso: tento acender um cigarro. Apago-o antes
que me chegue aos lábios.
Está frio neste lugar. A boca abre-se
como uma coisa lenta em forma de espanto.
AS COISAS ESCRITAS
Tenho as coisas escritas
no peito, o teu nome. Nada tem que ver
com o coração, muito menos com sentimentos,
o teu nome está-me escrito nos sinais, sob a pele.
A tinta, desenhos de círculos castanhos
assinalando lugares.
O meu mapa genético tem uma única localidade.
Dizer o nome dela é chamar-te.
Chamar-te é encontrar a minha morada.
AS COISAS INANIMADAS
Os meus dedos morrem muitas vezes.
Começa pelas pontas e, de minuto em minuto,
pequenos insectos descem à palma da mão.
Como o exército de um país em guerra,
avisam ser possível – até aceitável – desaprender
o teu nome. Insisto
em escrevê-lo. De minuto em minuto,
os dedos são os meus, os teus,
outros no fecho dos caixões e
mais: aqueles com que fumas
as coisas inanimadas.
Se é isto a morte?
Tenho poucas dúvidas
e ainda a impossibilidade
e o tempo
de as anotar.
Compreendem a urgência de ler este livro?
Há algum contrabando novo nestas letras,
que alegra a paisagem rala
que o trivial abocanhou. E brilha
nele um tremendo susto
transmudado em poética:
“(…) organizei os restos,/
coisas que me sobreviviam.//
Não é exactamente o que se quer
morrer a apanhar migalhas com a ponta dos dedos.”
E se nós fôssemos a asma das coisas?
Só lendo nos curamos, pois com os pomos
mudamos em pele o lugar do amor
e aí, costurados ao que nos reflecte, vemos
como se ilumina a porta aberta que há na luz.»

Inês Fonseca Santos

O lançamento do livro da Inês é esta Sexta-Feira 13 de Janeiro, às 22 horas, no Lux-Frágil.

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