«ESTOU A PERDER QUALIDADES»

por cam

O Pedro Eiras acaba de publicar Um certo pudor tardio. Ensaio sobre os «poetas sem qualidades» (Porto, Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa e edições Afrontamento, Outubro de 2011). O título diz tudo, desdobrando é mais ou menos assim: os «poetas sem qualidades» são nove criaturas que em 2002 o poeta e crítico Manuel de Freitas reuniu em livro, justamente com o título Poetas sem qualidades (Lisboa, Averno), e são eles: Anónimo, Ana Paula Inácio, Carlos Luís Bessa, João Miguel Queirós, José Miguel Silva, Nuno Moura, Rui Pires Cabral, Vindeirinho e este que se assina aqui, Carlos Alberto Machado. «Um certo pudor tardio» foi retirado de um poema de Manuel de Freitas que integra o seu livro A Nova Poesia Portuguesa (Lisboa, Livraria Poesia Incompleta, 2010). Está feita a apresentação. Agora, visto emprestado um fato de “divulgador”, um pouco enrugado e estafado por falta de uso, feito de mau tecido, acaba por nunca merecer o objecto a “divulgar”, mas vamos lá –

O Pedro – com quem cultivo uma certa amizade à distância, raramente nos encontrámos, desde 1999, no Porto, quando participámos em diferentes oficinas de escrita teatral dirigidas pelo Antonio Mercado, noites de boa memória – o Pedro, dizia eu, lançou-se a (re)ler o livro de Freitas (e os «poetas sem qualidades») para, por um lado, enfrentar o conceito «sem qualidades»; por outro, navegar na análise «interartes», nos domínios da música (Manuel de Freitas), pintura/museologia, fotografia e cinema (vários poetas «sem qualidades», com relevo para o José Miguel Silva). Perspectiva citacional.

Para caber tudo em mais ou menos 2.500 caracteres, direi que o Pedro Eiras se põe às voltas com Musil, com o conceito baudelairiano de modernidade, a que acresce o de presente-contemporaneidade vs tradição, sempre com a questão do tempo à ilharga, para, no fundo, discutir a propositura de «sem qualidades» que o Manuel de Freitas agita na sua introdução ao seu livro de 2002 a partir do prefácio «O tempo dos puetas» (assim mesmo, com “u”). Pede ajuda e conforto a Giorgio Agamben e a Walter Benjamin (sobretudo a este), e dirime com “boas palavras” as coisas. Ah, esquecia-me de dizer que esta démarche se faz ao longo de «13 tentativas para um prefácio». O que o Pedro quer mesmo é saber/indagar, cito, «em que sentido citar é um acto ético. Este ensaio é sobre a citação, as citações.» (11. Proposição, pg. 57). «O que procuro é uma ética.», diz em 13. Ethos (pg. 63). Uma salvação. O final, em jeito de posfácio, é o Pedro a deambular (a flanar) pela «cidade baudelairiana», com Rui Pires Cabral.

Ao “divulgador” fica bem umas “notas críticas”, ofertarei duas pelo preço de uma: há um passeio escorregadio quando o intérprete obriga os músicos a modificarem a pauta, uma; duas: «Um certo pudor tardio. Ensaio sobre os «poetas sem qualidades» introduz uma plataforma de serenidade arredia tanto de consensos estéreis como de guerrilhas inconsequentes.

Resta interrogar as ruínas.

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