QUE O NATAL VOS SEJA DOCE…

por cam

Leio O Branco das Sombras Chinesas, de João Paulo Cotrim e do António Cabrita, das novíssimas edições Abysmo (Setembro de 2011). Foi o livro inicialmente um “folhetim a meelas (…) servido em outro diário, este nosso Diário de Notícias, à razão de duas doses semanais, durante o Verão quente de 2001 (de 2 de Julho a 28 de Agosto), faz agora uma década de misérias (…)”. Agora, esta edição, toda impressa em azul forte, tem 78 páginas – incluindo as 16 das ilustrações de João Fazenda – as folhas em dobra simples e cozidas como se fosse um único “caderno” e sem aparas no sobrante da dobra.

Cotrim e Cabrita agarram pelas ventas o boi da língua, e talvez o inverso, e fazem com a literatura umas belas tripas à moda… deles. Mas também não deixa de ser verdade, porque os leitores precisam de “bengalas”, que tem sim senhor uma estória: o protagonista – de início não tem nome, mas páginas andadas será nomeado por João David – que “detestava coincidências, simetrias, concordâncias”, desagrada-lhe ter de ir visitar o pai da sua “cara-metade”, a bela Mariana, coisa que agora ainda lhe custa mais depois que “Verónica, um belíssimo transexual, assentara arraiais no quarto 33 da pensão” (pensão que viremos a saber chamar-se Bizâncio, pertence a David e tem como empregado o impávido Negruras, angolano). Ficamos também a saber que o nosso herói a páginas tantas da sua história pessoal perdeu a consciência, coisa que não seria rara nele, já que a sacrifica com o “método de uísques sobre uísques”, e que então teria acordado no Hospital de Cascais “com um enorme remendo no lado esquerdo da cabeça”: uma orelha que se foi, não sabe, ou não se lembra, ele como. Ainda neste vertiginoso Capítulo 1, David entra no Pavilhão Chinês e atira uma pergunta espantada: “ – O senhor explica-me como é que tem ali a minha orelha?” Depois, Cotrim e Cabrita cavalgam capítulo sobre capítulo a estalo de língua: sucedem-se “episódios” rocambolescos onde não faltam citações literárias, filosóficas e existenciais, sempre a jogar em simultâneo nos cortes de uma espada de afiado duplo fio. E safam-se. Vamos com eles nos jogos de linguagem, no permanente non sense, na transgressão linguística, no arrepio de lógicas e de valores. Vale tudo: sacar orelhas, traficar em arte, corromper vereadores de câmara, matar papagaios, entrar em jogos cabalísticos, ouvir lengalengas de cegos, mortes provocadas por foices e martelos, Estaline e Lenine. Não digo mais – apenas que o nosso David sempre terá de se haver com “coincidências, simetrias, concordâncias”…

Que o Natal vos seja doce, caríssimos irmãos.

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