BRUMADO

por cam

Aqui na ilha, aos dissabores normais de uma vida normal, adiciona-se, com uma frequência significativa, o peso das nuvens – um peso que será antes de mais do domínio das sensações e dos sentimentos, embora ele provenha, diz-se, de fenómenos atmosféricos concretos, não sei, nem sempre consigo interiorizar a materialidade das coisas. Também não me apetece fazer diagnóstico, análise, nada disso. Constato, tanto quanto é possível alguém se inteirar da pureza de uma coisa, que esse peso, digamos para simplificar, simbólico, tem muitas vezes uma influência directa nos nossos humores – isto parece coisa do romantismo, o que se há-de fazer?

Nesses dias, como o de hoje,  “ponho-me a pensar na vida” – que é uma frase que não tem qualquer sentido. Por isso nos serve para pensar, nos ajuda a pensar. Hoje deu-me para reflectir um pouco sobre o que é isto de escrever num espaço público (jornais, blogues). Não fui muito longe nem muito fundo – porque não és capaz, dirão alguns malévolos bem humorados, alguns deles incapazes de deitar uma ideia a seguir a outra sem vilipendiar os outros, nem perceber muito para além do seu nariz e do seu umbigo. Vou-me espraiando…

Abro um parêntese: alguém dos CTT conseguiu cometer a proeza de colocar na nossa caixa de correio um livro grande, de capa dura, e fê-lo de forma de tal modo habilidosa que ele entrar, entrou, mas sair não queria, aliás, não o deixava a predisposição metálica da caixa, que teimou em não se moldar à minha vontade para o livro sair sem mossas nos bordos. Mas foi o que lhe sucedeu. Ainda pensei em recorrer a um bruxo, mas chovia, e antes tê-lo amachucado do que inchado pela chuva que haveria de entrar na dita caixa no entretanto da espera. Fim da interrupção.

Reflecti, meditei e fiquei-me, para já, por isto: os limites éticos desta escrita. Para simplificar: até onde posso ir eu (ou qualquer outro cronista ou bloguista), de modo a não deixar de emitir, à minha maneira, os meus pontos de vista, mas sem entrar no campo da ofensa (em sentido lato). Todos nós conhecemos pessoas que se esquecem do que é um espaço público. E, então, é fartar vilanagem. Já nem falo dos problemas de ofensa aos outros pelo desconhecimento das mais elementares regras de escrita (sob todos os pontos de vista). Mas, no fundamental, daqueles homens e mulheres que, tantas vezes sob anonimato, vilipendiam, insultam, denigrem quem querem e lhes apetece. Pensei em mim, com a minha forma assertiva e frontal: terei caído nestes pecadilhos, embora involuntariamente?

O dia está brumoso. Pois está.

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