REFLEXOS CONDICIONADOS

por cam

Na noite de 29 de Novembro deste ano, Norberto Rosa, Vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD) foi sequestrado em carjacking, na zona da Pontinha, Lisboa, durante o tempo necessário para ser obrigado a fazer dois levantamentos em caixas multibanco. Rosa, ex-Secretário de Estado do Orçamento de Manuela Ferreira Leite, foi depois abandonado noutra localidade. Isto foi o essencial das notícias que circularam na generalidade dos órgãos de comunicação social. Não disseram, que eu tenha conhecimento, que o alto funcionário da CGD é natural da ilha do Pico, mais concretamente da localidade da Silveira, concelho das Lajes do Pico.

Hoje de manhã (dia 30), num dos locais onde se difundem com muita rapidez todo o tipo de boatos, a “notícia” era a seguinte: “o banqueiro Norberto Rosa da Silveira foi preso e a Manuela Ferreira Leite também!” Ninguém quis saber da verdade, ou pelo menos qual tinha sido a origem da informação. Nada. Passou a ser verdade. Durante quanto tempo não saberemos.

Este episódio, infelizmente muito frequente entre nós, revela várias coisas. Detenho-me numa só delas. E que tem a ver com os níveis de literacia dos portugueses em geral. Uma grande parte de nós não lê. Pior do que isso: quando lê, não sabe ler. Digamos assim: o sentido de um texto, ou a parte de informação que nele existe, não é decifrado na sua totalidade pelo leitor – na melhor das hipóteses fica-se por uma parte pouco significativa. Quando digo texto, digo também comunicação verbal, sobretudo aquela que provém de televisão ou rádio. Esta incapacidade poderia ter apenas como consequência ficar o leitor simplesmente desprovido da maior parte do prazer e do ganho cognitivo da leitura. Mas não. Creio que é mais grave (é aqui que a gente deixa entrar na história os cães de Pavlov). Algumas pessoas, quando ouvem falar de “banqueiros”, “bancos”, “político”, “rico”, começam a salivar e “pensam” imediatamente em “comer”, isto é, na alimentação que se traduz em “vingança”. E, então, os seus reflexos condicionados criam o alimento “prisão”, “corrupção”, “roubo”, “desvio” – etc. Vingança. Julgando estar alimentados – não passa de uma ilusão, daí a minutos começam de novo a sentir fome e é preciso que soem novas “campainhas” –, saem rua fora a contaminar os seus iguais. Se alguém os contraria rosnam ferozmente e se o recalcitrante insiste na dúvida, são mesmo capazes de passar da ameaça à mordidela. Entretanto, a realidade passa por eles sem que lhes cheire a alimento – verdadeiro.

É favor não salivar.

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