OU TALVEZ UM CHAPÉU NOVO…

por cam

Na semana que antecedeu a última greve geral convocada pelas duas centrais sindicais, durante o dia e no rescaldo da dita, derramaram-se razões pela imprensa e pela Internet. Razões, eficácia, contexto e incidentes (previstos e acontecidos). Etc. Cada qual defendeu a sua fazenda, engenho, sanzala, machamba, quibbutz, kolkoze, a sua quinta ou quintal – mas aqueles que não têm nada disto, ficaram em casa. Muitos destes, é bom lembrar, para o ano continuarão a ficar em casa (se ainda houver), sem sequer ver televisão, porque vinte ou trinta euros para aceder à nova TDT fazem muita falta, ou nem existem nos seus bolsos. E serão, infelizmente, cada vez mais.

Sob o chapéu da greve geral, esteve o ritual, por exemplo. Um ritual de negação da ordem existente, prenunciador, se não despoletador, de uma ultrapassagem da brecha social que a crise financeira & tal agravou. Ou talvez não. Talvez falte a este ritual a sanção comunitária (antropológica, não a da UE…), condição sem a qual o ritual não passa de uma imitação formal, vazia de sentido. Talvez não saibamos. É um assunto que antropólogos e sociólogos fariam bem em trazer para o debate público (para além da assinatura de “manifestos”). Identificar problemas, debater ideias, sugerir soluções.

Sob o chapéu da mesma greve geral, respeitando ou não a “linha justa”, esteve a ideologia “sacada” aos avós, aos cotas. Com mochila repleta dos gadgets de moda, os habituais filhos-família radicais. Agora temperados (no sentido culinário), com ambientalismo e ideias pós-civilizacionais & outras. Quem, como eu, distribuiu propaganda ilegal, fez pichagens, fugiu à polícia de choque e passou noites borradas com medo da PIDE e da prisão, e que depois “fez” o 25 de Abril, tudo isto não parece mais do que uma versão patética de um passado recente que faliu (aqui e em todo o mundo). Estas supostas ideologias cheiram-me agora a fastfood. Na verdade, creio que sem estudo e reflexão (com os clássicos e os outros) não crescerá nem se desenvolverá um novo pensamento, uma nova maneira de fincar os pés na terra contra os donos do mundo. 

Sob o chapéu desta greve geral (e de outras “lutas” idênticas) nasceu qualquer coisa parecida com a esperança? Aquela esperança que se distingue da fé e da crença, isto é, qualquer coisa que saberemos que virá porque antes dela vir construímos qualquer coisa sólida? Mudar as vontades dos que acampam sob o chapéu? Ou talvez um chapéu novo? Pensar…  

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