QUIZLAND

por cam

Somos todos um pouco culpados pela criação do objectivo utópico da democracia cultural, ou talvez melhor dito, do estado democrático em que além do acesso igualitário a bens de consumo e fruição culturais, teríamos níveis médio-altos de formação cultural. Embalados por esta utopia – ou mito civilizacional – espantamo-nos sempre que verificamos que tal está longe de acontecer; mais ainda, que o objectivo é mesmo utópico. Em edição recente, uma revista de âmbito nacional tablóidiza o assunto mostrando, diz a revista, a profunda e generalizada ignorância dos estudantes em cursos universitários. Os resultados são aterradores, mas ainda mais aterradores se mostram quando a dita revista se limita a reproduzir as chamadas “perguntas de bolso”, agora modernizadas na expressão “cultural quiz” (ai…). Ou seja, a revista e os “jornalistas” que deram curso ao “inquérito” deviam também ser considerados “analfabetos” e “ignorantes”. Este tipo de avaliação de conhecimentos daria melhores resultados se optassem pela resposta múltipla; por exemplo, na pergunta “Quem pintou o tecto da Capela Sistina?”, colocariam como respostas possíveis: (a) “Paula Rego”, (b) “Miguel Ângelo”, (c) “Carla Bruni”. A minha dúvida é se a percentagem de acertos seria ou não mais elevada…

Mas a culpa é nossa, como disse a abrir.

Confrontados com o desolador panorama em que há pequenos grupos possuidores de culturas sólidas separados por uma terra estéril de ignorantes (desde os analfabetos puros aos analfabetos universitários & doutores & engenheiros & etc.), a tendência é de fuga (ou de capitulação ao terror).

O pior de tudo é que ainda há uma réstia de esperança: saímos de casa a arrastá-la piedosamente mas somos rapidamente atropelados por uma turba de jovens frequentadores de esplanadas e de discotecas-de-fim-de-semana, “quitados” como as viaturas-sexo que ostentam, especializados em madeixas e extensões de cabelo, o-meu-carro-é-melhor-que-o-teu, sempre, mas sempre, com os inevitáveis adornos chauvinistas-bairristas-racistas, graçolas e maledicências sobre quem não está presente e as eternas baboseiras sobre performances alcoólicas (quanto mais bêbedo e ressacado no domingo de manhã, mais herói local – quando percebem que se devem queixar disso é sempre tarde de mais).

 Esta é aqui a minha realidade-ficção, se quiserem, Quizland é a minha pátria (a do outro era a língua portuguesa, mas lixaram-no agora com o Novo Acordo Ortográfico).

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