GREGOS, POBRES E MAUS

por cam

É inaceitável, embora compreensível e inevitável: quem não é igual a nós é “feio, pobre e mau” (em paráfrase do célebre filme de Ettore Scola Brutti, Sporchi e Cattivi, Feios, Porcos e Maus, de 1976).

Os desgraçados gregos, por exemplo, que ficaram na Europa no pós-guerra apenas por razões políticas: até o senhor Estaline reconheceu que cem por cento da Grécia ficava para o Ocidente, quando dividiu o mundo com Churchill. Os pobres gregos que serviram de tampão contra o expansionismo russo e que, também por ficarem na fronteira, geográfica e histórica, com o Médio Oriente, servem de plataforma logística para qualquer eventual conflito nesse lado do mundo, pagam agora as favas dos “europeus”. Dos “europeus” que inventaram uma “Europa” depois da Europa já existir, e nessa invenção quiseram usar a “carne para canhão” que são os países mais pobres ou com mais deficiências estruturais e que se serviram deles para consolidarem as suas economias – França e Alemanha – mas que na verdade nunca pensaram na Europa como um todo coerente e solidário. E agora, que o todo ameaça de implosão, arranjam uns “feios, pobres e maus” como bodes expiatórios. Os gregos ajudaram ao banquete dos ricos, mas também nós, os irlandeses, os espanhóis e a Itália berlusconiana. E o que mais se verá. Somos cada vez mais desencontrados e cada vez menos solidários.

Mas não é apenas entre Governos e Estados da “Europa”. Os povos e as fracções de povos dentro deles, também se acertam pelo mesmo diapasão, que é o da dissensão, do pequeno ódio, da baixeza, mesquinhez e mediocridade que alastra como lama e cola aquilo que de pior há para colar. Acirra a inveja mesquinha, a competição traiçoeira, a mentira despudorada, o rancor bilioso, a arrogância jactante. “Heróis do mar…”, aqui ou onde quer que seja. Ou: “Lá vamos, cantando e rindo…”.

Cá, entre nós, igualmente “feios, pobres e maus” para os “verdadeiros europeus”, alarga-se o fosso entre aqueles que cultivam o rigor, a excelência, o estudo e a reflexão, e aqueles que cultivam o desenrascanço, a mediocridade, o copianço e o berro como retórica maior. Se isto for verdade, o resultado é que seremos todos cada vez mais “feios, pobres e maus”. E chegaremos todos a um momento da nossa europeia história comum em que o termo “grego” condensará o que de pior há em todos nós, e que não conseguimos combater. Nesse dia, seremos todos “gregos”.

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