GOSTAR DO BRANCO DAS SOMBRAS CHINESAS

por cam

Li há dois dias O BRANCO DAS SOMBRAS CHINESAS do João Paulo Cotrim e do António Cabrita, das novíssimas edições ABYSMO, iniciativa do primeiro. Prometi escrevidura sobre o dito, mas não está fácil. Vou explicar, mas digo já que, embora obviamente esperasse coisa boa, superou as minhas melhores expectativas. Portanto, se não escrevesse mais nada, que ficasse pelo menos isto: gostei e torço para que muitas pessoas comprem e leiam o BRANCO DAS SOMBRAS.

Por que é que não está fácil escrever: primeiro, porque os autores são meus amigos, o que me leva a declarar, como agora é uso, “conflito de interesses”; segundo, não sou “crítico literário encartado”; por fim o mais importante: quando a prosa tem esta originalidade e fulgor, que mais há a fazer do que um tipo se aconchegar mansinho, silenciado?

Entremeio para adiar o embate: O BRANCO DAS SOMBRAS CHINESAS, de João Paulo Cotrim e António Cabrita, ilustrações de João Fazenda (Abysmo, Setembro de 2011), foi inicialmente um “folhetim a meelas (…) servido em outro diário, este nosso Diário de Notícias, à razão de duas doses semanais, durante o Verão quente de 2001 (de 2 de Julho a 28 de Agosto), faz agora uma década de misérias (…)”. Esta edição, toda impressa em azul forte, tem 78 páginas – incluindo as 16 das ilustrações – as folhas em dobra simples e cozidas como se fosse um único “caderno” e sem aparas no sobrante da dobra.

Agora é que é – qual é o enredo, a trama, o plot do BRANCO DAS SOMBRAS?  tem. Ah sim? Atão comé quesaguenta? Aguenta-se, e bem, porque o Cotrim e o Cabrita agarram pelas ventas o boi da língua, e talvez o inverso, e fazem com a literatura umas belas tripas à moda… deles. Mas também não deixa de ser verdade, porque os leitores precisam de “bengalas”, que tem sim senhor uma estória: o protagonista – de início não tem nome mas páginas andadas será nomeado por João David – que “detestava coincidências, simetrias, concordâncias”, desagrada-lhe ter de ir visitar o pai da sua “cara-metade”, a bela Mariana, coisa que agora ainda lhe custa mais depois que “Verónica, um belíssimo transexual, assentara arraiais no quarto 33 da pensão” (pensão que viremos a saber chamar-se Bizâncio, pertence a David e tem como empregado o impávido Negruras, angolano). Ficamos também a saber que o nosso herói a páginas tantas da sua história pessoal perdeu a consciência, coisa que não seria rara nele, já que a sacrifica com o “método de uísques sobre uísques”, e que então teria acordado no Hospital de Cascais “com um enorme remendo no lado esquerdo da cabeça”: uma orelha que se foi, não sabe, ou não se lembra, ele como. Ainda neste vertiginoso Capítulo 1, David entra no Pavilhão Chinês e atira uma pergunta espantada: “ – O senhor explica-me como é que tem ali a minha orelha?” Depois, o Cotrim e o Cabrita cavalgam capítulo sobre capítulo a estalo de língua: sucedem-se “episódios” rocambolescos onde não faltam citações literárias, filosóficas e existenciais, sempre a jogar em simultâneo nos cortes de uma espada de afiado duplo fio. E safam-se. Vamos com eles nos jogos de linguagem, no permanente non sense, na transgressão linguística, no arrepio de lógicas e de valores. Vale tudo: sacar orelhas, traficar em arte, corromper vereadores de câmara, matar papagaios, entrar em jogos cabalísticos, ouvir lengalengas de cegos, mortes provocadas por foices e martelos, Estaline e Lenine. Não digo mais – apenas que o nosso David sempre terá de se haver com “coincidências, simetrias, concordâncias”.

Se eu fosse “crítico literário encartado”, teria, provavelmente, de encontrar neste livro e nesta escrita a “meelas” ecos de outros livros e escritas, pontos de contacto com autores mais ou menos canónicos, etc. Mas não, ainda bem que desse mal não sofro (já tenho que chegue para várias famílias, obrigado). Por isso, com o desleixo de quem não tem dever de ofício, acabada a leitura e depois de uma noite de insónia, baralharam-se-me no sono recheado de monstros, O BRANCO DAS SOMBRAS CHINESAS com os filmes dos irmãos Marx, O Arranca Corações do Boris Vian, o Doc do Vício Intrínseco do Thomas Pynchon e o Brinquedo Electrónico Essencial do Manuel João Gomes. Será coisa boa?

“Com licença”…

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