AS ÁGUAS DO RIO

por cam

É apaziguador pensar que os nossos conhecimentos sobre determinado assunto são sólidos e, no essencial, correctos – no sentido em que partilhamos um certo consenso construído pela comunidade de especialistas. Embora aceitemos o socratiano “só sei que nada sei”, na verdade o conceito que a frase sintetiza serve a maior parte das vezes de simples adorno, a revestir uma humildade intelectual que não passa de máscara. O mesmo fazemos (para sermos coerentes…), com a cartesiana dúvida sistemática.

Alguém defendeu que todas as grandes obras da literatura mundial de todos os tempos deveriam, em cada país-cultura, ser de novo traduzidas em cada geração. A passagem do tempo sobre a tradução de uma obra literária tem outras implicações para além das questões ortográficas ou outras gramaticais afins. É a “tradução mental” que está em causa, pois “vemos e sentimos” de maneira diferente, por vezes radicalmente diferente. Mesmo quando voltamos a ler uma das obras lidas há vinte ou mais anos, o livro muda, porque também nós mudámos, somos diferentes. Não nos banharemos duas vezes nas mesmas águas do rio…. Em cada passo do mundo precisamos de perceber quem somos para nos sincronizarmos com o que nos rodeia. Ou, noutra perspectiva, como nos fazemos e fazemos mundo em cada movimento da roda de oleiro. Quando lemos ou olhamos – coisas que sendo diferentes não são opostas – modificamos o objecto e modificamo-nos. Mas uma destas acções não precede a outra, como uma determinante, antes se conjugam na espiral da experiência. E por aí fora…

Àquela pergunta de bolso “se só pudesse escolher um livro para levar para uma ilha deserta onde passaria sozinho o resto da sua vida?” só se pode responder “o livro que nunca foi escrito”, que é como quem diz, todos os livros do mundo, a “Biblioteca” de Borges – porque talvez apenas exista no mundo um único livro. E temos duas hipóteses: quando esse livro for escrito deixará de haver livro, esse ou qualquer outro; ou, esse livro nunca poderá ser escrito. Num e noutro caso, porém, trata-se sempre do mesmo: da incessante busca do que não pode ser escrito (dito, lido, porque na verdade essas distinções pouco dizem do processo de procura). É a poesia, a arte, Deus ou qualquer outro artifício que nos leva à louca e insensata procura de atingir uma verdade sobre nós e mun do (tanto faz a precedência), sabendo, mesmo que não se saiba, que é coisa que não se pode alcançar. Nunca. E esse é o seu fascínio, da natureza do sagrado – ao mesmo tempo fascinante e terrífico.

 

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4 comentários to “AS ÁGUAS DO RIO”

  1. Traduzir o mesmo livro em gerações diferentes? Isso não será abastardar a obra e torná-la uma coisa à imagem e semelhança do coevo tradutor? Achas que o tradutor pode ultrapassar a sua função, ajeitando o produto final consoante as novas realidades? Uma Obra é imortal tendo várias interpretações. A Obra é imutável. A sua interpretação é que varia com os tempos e com as criaturas que a olham ou que a estudam, ou que a lêem ou a degustam…

    • “Traduttori, traditori”…
      A questão é outra: a obra é fundamentalmente o modo como se lê. Ou, ajeitando um autor para o meu lado, o Richard Rorty, dir-te-ia que não se trata de fechar a obra no estrito locus do escritor, mas pô-la a circular e avaliá-la, tempos a tempos, no seu uso. Conversa para muitos livros…Mas creio que seria necessário arrancar do mesmo ponto de partida, o que não me está a parecer o caso.
      Olha, se tiveres oportunidade, para conheceres melhor o meu ponto de vista sobre estes temas, lê o meu “Teatro da Cornucópia. As Regras do Jogo”, Lisboa, frenesi, 1999.
      Bjs.

  2. EXTRAORDINARIO TEXTO, O SEU, AMIGO

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