SEM FLORES NEM COROAS – Novela ingrata

por cam

UM – Para uns, o 25 de Abril de 1974 foi uma coisa bonita. Para outros, um pesadelo. Os primeiros ansiavam por algo assim. Os segundos temiam que algo parecido pudesse acontecer nas suas vidas. Mas houve também quem somente tenha experimentado a oportunidade de ter opinião sobre um acontecimento que lhes surgia pela frente sem que tivessem sobre ele qualquer expectativa, boa ou má. Estes, provavelmente a esmagadora maioria dos portugueses, dividiram-se, logo logo, entre entusiastas positivos e denegridores do novo regime. Ficaram ainda uns quantos – quantos? – indecisos e “sem opinião/não sabe/não responde”, e outros ainda – quantos? – a tentarem pensar por si próprios, ora gostando disto, ora desgostando daquilo.

DOIS – À rasca, indignados e assim: quantos são assim, assim-assim ou contra? Quantos têm consciência quando protestam e quando não protestam? E os outros?

TRÊS – Pululam profetas, comentadores, analistas, críticos, desestabilizadores, provocadores, assessores, especialistas & outros patetas do Regime. Quando aparecem na RTP/RDP, são pagos a peso de ouro (o dinheiro que damos ao Estado, parte da felicidade que não nos deixam ter).

QUATRO – Em Maputo, Moçambique, havia uma estátua modesta, embora em sítio nobre (praça “da Independência”, no colonialismo foi “Mouzinho de Albuquerque”), do líder da revolução independentista do país Moisés Samora Machel, falecido em 1986. Agora, em celebração do aniversário da sua morte, uma nova estátua, no sítio da primeira: em bronze, creio, com sete ou oito metros de altura, pedestal de mármore. E Machel, à boa maneira realista-socialista de Moscovo ou de Pequim, alto e soberano, com o braço direito erguido a apontar para o céu (ou para o futuro, ou para o homem novo, não se sabe). Continua a morrer-se de fome em Moçambique e o seu actual presidente, Guebuza, foi o carrasco dos campos de concentração no tempo de Machel, seu Chefe.

Para onde aponta Samora Machel?

EPÍLOGO – Ao longo da nossa história – que começou à pancadaria, como qualquer história de qualquer Nação que se preze – fomos empobrecendo. Enviámos os desapossados para morrer longe: no Norte de África e depois costa abaixo, no grande Oriente, na América quase toda, e, já no século XX, na Flandres, Índia e África “portuguesa”. Agora, desapossados somos quase todos e já não há quem nos mande morrer longe, nem quem nos queira receber para tal (a não ser talvez para substituir russos ou japoneses em algum acidente nuclear). Não é preciso ter tirado uma Licenciatura de fim-de-semana na universidade Independente para perceber que é assim: morremos pobres e na pátria que nos pariu. Sem coroas nem flores (não há orçamento).

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