O LIVRO INACABADO DO MUNDO

por cam

É um lugar-comum dizer-se que à medida que mais conhecemos mais se torna evidente que muito maior é o nosso desconhecimento do mundo. Este mundo que nos coube habitar e que mais ou menos desajeitadamente vamos construindo com as nossas mãos. Lemos, e o conhecimento esboroa-se por entre a necessária certeza de mais um facto ou uma teoria que acrescentamos ao nosso “saber”, e o terreno movediço de que se faz a nossa ignorância acrescentada. Não temos tempo para deixar assentar a imensa poeira das dúvidas, o tempo longo da reflexão deixou de ter espessura, assalta-nos a imperiosa urgência das certezas – mais um livro que se lê (mal), a fugaz “informação” dos media, o tique nervoso e esquizofrénico do ciberespaço hipertextual.

Paradoxalmente, ler torna-se um modo de resistência (não terá sido sempre assim?). Inventam-se ou reinventam-se modos de ler. Quem pode, e quer, lê este e aquele livro, demora-se nele, procura através dele o contacto com outros, lidos e a ler, cruza-os, sobreleva um e depois outro em rodopio sem fim. Um modo denso de cada um de nós verdadeiramente se escrever, de cada um de nós se fazer molécula de um mundo mutante que só talvez assim possa ter alguma espécie de sentido. Mundo mutante, constantemente mutante. O que nos aflige não é a mudança constante, mas a vertigem que cada volta do mundo agora é. Revolução acelerada.

Para alguns de nós, é assim. Para outros – estéril tentar contabilizar uns e outros – a leitura é apenas fast food da mente, autodestrutiva, ou light food, de digestão fácil e sem deixar resíduos, mantém os indivíduos limpos, leves e saudáveis. Lê-se e tudo logo se esvai: o colesterol intelectual não ameaça nunca quem assim lê.

Em perigo de extinção está aquela parcela sapiens sapiens que estende a leitura à escrita. Não sabemos se significa o princípio do fim do todo ou apenas a natural extinção da escória, da ganga residual do nosso longo caminhar erecto, pensante e hábil. Ou se na longa luta entre os indivíduos da mesma espécie venceram aqueles que apenas aparentemente seriam os mais aptos; ou tenha sido necessário mudar de rumo; ou Deus criador tenha decidido que venceriam aqueles que mais denodadamente anulassem a Sua obra – dar, afinal, oportunidade a Deus de ser de novo deus. Quem sabe?

Há escritores – “escreventes” – que escrevem – “escrituram” – o mundo. Há outros que se deixam esmagar pela leveza do mundo – e o mundo passa por eles e continua a marcha sem a sua marca. Devemos ter a modéstia de pensar que todos podemos pertencer a um ou outro destes conjuntos.

Há quem pense que um escritor escreve toda a sua vida um livro inacabado.

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