EMBRIAGAI-VOS!

por cam

Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos.

E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão «São horas de vos embriagardes! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.»

De PARAÍSOS ARTIFICIAIS, poema em prosa de Charles Baudelaire (tradução de José Saramago, 1971)

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