INVERNO ANTECIPADO

por cam

1. Um certo estudo de geografia humana, creio que na década de oitenta do século passado, dedicou-se aos processos de construção de “geografias mentais”. Partia da hipótese que os mapas reais de um dado território não coincidiriam necessariamente com aqueles que “estão na cabeça” de quem usa esse mesmo território. Num questionário desse estudo, era pedido a pessoas que viviam no concelho de Setúbal que indicassem as distâncias a que, segundo elas, ficavam, tendo como referência a sua residência habitual, o ponto de tomada de autocarros, barcos ou comboios, o seu local de trabalho ou de estudo, o hospital central, o cinema, o jardim, entre outros. Desenhados estes “mapas mentais”, verificou-se que nunca coincidiam com as coordenadas reais, isto é, cada uma das pessoas, em função de um número de certas variáveis – esforço despendido, custo, necessidade, urgência, “estado de espírito”, etc. – estava absolutamente convencida do seu próprio mapa.

2. Chovem números – relativos, absolutos, estatísticos – sobre as finanças e a economia do nosso país, sobre os “buracos” de dívidas e de dinheiros mal gastos por este e por aquele. Raramente coincidem. 

3. A meio da tarde de sexta-feira 7 de Outubro, entrou na minha caixa de correio electrónico a habitual newsletter de um jornal da Região afirmando que Berta Cabral não será candidata à Presidência do Governo Regional dos Açores, em 2012, e que será o actual líder parlamentar, Duarte Freitas, a assumir essa candidatura. O jornal não deu aos seus leitores uma “notícia”, mas outra coisa qualquer – descoincidente com a realidade.

4. Em Meia Noite em Paris, Woody Allen, por um toque de serena magia, faz entrar uma personagem, Gil (Owen Wilson), na Paris dos anos 20 e 30 do século XX, onde “conhece” Cole Porter, Picasso, Gertrude Stein, Buñuel, Dali, o casal Fitzgerald, Hemingway, entre muitos outros. Quando o sol nasce, Gil volta à (outra) realidade: a noiva, os futuros sogros. Confundido entre duas realidade que não coincidem, Gil acaba por construir uma outra – mais ou menos “real”? É a dúvida que fica (ainda bem).

5. Chegou já o meu Inverno – também eu devo ter direito a iludir a realidade, a iludir-me, a escrever a minha própria geografia, uma geografia de desejos, alguns deles realizáveis, outros não. Alargo à minha vontade o dia e a noite, o descanso e o repouso, amargo ou rejubilo com o que escrevo. Reescrevo-me, que é afinal a única maneira que temos de fazer vingar o desejo sobre a realidade, de anular a fronteira entre uma coisa e outra até deixar de fazer sentido distinguir realidade e ficção, ou, por certo mais interessante, chamar a tudo ficção.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: